Continuo o mesmo

A sala do consultório estava vazia, já passava das 19 horas. Estávamos  pelo menos meia hora atrasados para a minha consulta, lembrei de uma  consultora de gestão organizacional.. Você é protagonista ou vítima  das situações? É, pisei na bola, poderia ter saído antes de casa, refleti.

 – Ele aguardou 15 minutos pela última consulta que seria a sua  e se foi. Avisou a secretária. Por sorte, ela conseguiu localizá-lo no celular  e felizmente  ele concordou em voltar ao consultório para me atender. 

Apesar de termos tido apenas dois contatos, em consultas do meu filho, o Dr Eyder fora o escolhido para este exame tão delicado. Meu amigo Paulo Matiuzo era o primeiro da lista, mas como ele está em Tatuí – SP  , não tive outra alternativa senão escolher outro urologista.

Me veio a lembrança do Paulo dizendo pra mim entre um  “pint” de cerveja e outro  num pub de Londres: – Rui ,  olhe bem para este dedo aqui, apontando para o dedo maior de todos ou será o fura bolo ou mata piolho? Será ele o  primeiro  e eu nem vou cobrar  a consulta ! – Rimos  muito. Na época, eu  estava com 35 anos e  ainda tinha 5 anos de sobrevida. (no meu caso, como meu pai teve câncer na  próstata,  o recomendado é que se faça o exame de toque a partir dos  40 anos).

Dr Eyder, o urologista escolhido, me reconheceu talvez devido às minhas características físicas. Japoneses  com IMC de 34  são raros em BH,  soltando um “ oi “ não muito íntimo   e meio sem graça . Ele é uma exceção entre os  médicos  de convênio. Olha nos olhos  e sempre foi  muito paciente em responder às  minhas perguntas, cada vez mais técnicas, com a ajuda do Google.

Ainda no corredor do consultório, instintivamente, fixei o olhar  demoradamente nas  suas mãos, principalmente dedos … (era a parte do corpo dele que mais me interessava naquele momento). Fiz até um comentário para a Virgínia: – Ainda bem que os dedos dele são delicados. Ela apenas sorriu. (acho que as mulheres não tem a  sensibilidade suficiente para entender este divisor de águas na  vida de um homem)

Não tinha chegado ainda aos 40 anos, faltavam ainda alguns meses. Mas devido ao resultado de PSA de 3,6 ng/ml ( aceitável até 2,5 ng/ml ) obtido no exame de saúde periódico da empresa e somado ao péssimo histórico familiar, decidi antecipar o exame.

Me preparei mentalmente por  uma semana para esse dia especial. No dia do exame, saí às 12 horas da empresa com a fundamentada  argumentação ao chefe:  – Hoje tenho um exame importante, não tenho cabeça para mais nada!  

Por que tanto folclore com relação ao toque anal?. Não tem nada demais, ele só coloca o dedo lá , dá uma vasculhada e pronto. Não tem nada a ver. Não dura mais de um minuto!

Repeti esta afirmação para mim mesmo várias  vezes,  mas nada me tranquilizava. Para piorar, vinha a lembrança dos meus amigos dizendo:  – Não vá se apaixonar pelo dedo dele, diziam uns. – Confira  se as duas  mãos  dele estão sobre a  mesa, diziam outros. 

Em busca de um depoimento sério, perguntei a dois amigos que passaram por este exame. Ambos confirmaram  ser  muito desconfortável o exame.  – A sensação de impotência é enorme, disse um. Mas, os dois disseram :  – Não tem jeito , é um mal  necessário.

Voltando à consulta. Eyder fez as perguntas de praxe e ao final ainda tentou  me tranquilizar: – Você sabe que temos que fazer o exame de toque. Sei que você não “vê a hora “ de fazer este exame, brincou. Fique tranqüilo, será rápido e não durará mais de um minuto.

Respondi com um tímido:  – É , eu sei ,  estou preparado . 

Ele continuava muito descontraído. (porque o passivo desta relação não seria ele, concluí).   

Antes, ainda deu mais alguns detalhes do exame. Naquela altura do campeonato eu não prestava atenção em mais nada. Minha hora  definitivamente chegara! Mais uma vez, olhei para os dedos dele:

– São delicados mesmo, confirmei. 

Tirei a roupa. A cama do consultório forrada com papel cinza, daqueles vendidos aos rolos,  era bem  ao lado da mesa de consulta, apenas separada parcialmente por uma divisória de cor bege. Virgínia permaneceu sentada em uma das cadeiras da mesa de consulta.

Ao me deslocar para a forca, percebi que Virgínia não me acompanhava com os olhos (deve ter sido para não rir da situação, pensei). Ainda tentei uma última comunicação visual com ela, como quem busca um apoio. 

Poderia ela,  ao menos ter feito um sinal de positivo com a  mão  direita ou um “ Vamos lá , Rui  “, bem discreto. Pela primeira vez, estávamos em lado opostos. Minha eterna companheira  desaparecera, eu estava terrivelmente só!   

Ingenuamente perguntei que posição ele preferia . Sem pestanejar ele respondeu o que eu temia: – De quatro!, disse assim num tom seco , sem cuspe. 

Tinha ouvido falar que havia uma outra posição, daquela em que de costas, a gente faz um “ V ” com as pernas. Talvez essa fosse menos traumática, pensei. Mas, como eu era refém daquela  situação, aceitei.    

O que definitivamente não aceitaria era ser vítima   da  Síndrome de Estocolmo ( célebre expressão criada por ocasião do sequestro da milionária  Patricia Hearst que se apaixonou pelo seu  sequestrador, isso nos anos 70).

O que diriam meus ancestrais samurais e campeões de sumô dessa recaída? Minha espada definitivamente sumira, apesar do calor que fazia. Ela sabia que naquele momento não teria   nenhuma utilidade, além de torcer  escondida. 

Já de quatro na cama, pouco antes dele iniciar o procedimento, Virgínia deixou escapar uma gargalhada. Não resistiu e espiou, concluí. Deve ter sido uma cena muito engraçada: Eu, 100 Kg  e  de quatro na cama. Que posição mais indefesa. Parece que a gente está insinuando ao médico: – Faça comigo o que você quiser eu sou todo teu !. 

Mesmo com a cabeça abaixada, dei uma olhadinha para o lado e vi que ele se preparava. Colocou cuidadosamente a luva na mão direita  e  untou  o dedo malvado  do meio com um tipo de vaselina sólida. 

Meu coração estava disparado!  Eyder novamente avisou que ia ser muito rápido, não duraria mais de um minuto (que foram uma eternidade ! ).

Para piorar ainda recomendou: – Se você não relaxar será pior.( minha última defesa, o esfíncter, havia levado 5 faltas e  estava   definitivamente fora de jogo)

A sensação é horrível! Pior fica quando ele vasculha, ou tenta  massagear a próstata através da parede do reto. Você tem certeza que quer ir ao banheiro, mas não entende  para fazer o que?. Não sei como tem os que gostam, foi o que pensei. Quis bater no camarada que afirmou que toda experiência é válida! 

Ao final ele me tranqüilizou : – Está  tudo  OK  com sua próstata. Ela está macia e de tamanho normal. Mas pelo protocolo e principalmente devido ao seu histórico familiar,  estou pedindo uma biópsia, complementou. 

Um dia depois, enviei um email de utilidade pública aos meus amigos homens que começava assim: – Ontem eu fiz o que esperei por 39 anos. Todos, sem exceção, responderam ao email. A  maioria para tirar uma comigo. Mas recebi também alguns comentários interessantes, como: – Estou com 36, sei que logo  vou passar por isso . No dia, vou lembrar muito do seu “real case”. Obrigado, Rui. (fiquei feliz em ter feito uma boa ação naquele dia)

Fiquei famoso!. No clube de tênis, a turma  queria saber os detalhes do exame. Intimamente sabia que poucos deviam estar realmente preocupados com a minha saúde, essa  empatia inesperada tinham a ver com eles próprios. Muitos deles já  haviam passado  dos  40 ….

Recebi também uma força de um  amigo italiano , O Gino : – Na Itália, Rui,   um homem só confirma que é homem depois do exame de toque. Porque assim  ele fica conhecendo os dois lados e pode decidir!  “Viva a Azurra!”, comemorei. Mas depois, fiquei pensativo. Por que ele ainda não fez este  exame?. Ele está com mais de 50…

Quando voltei ao consultório para mostrar os resultados da biópsia, Eyder  ainda brincou: – Não adianta querer  o  toque novamente, eu só faço uma  vez a cada seis meses!. – Brincalhão esse médico. Politicamente,  respondi com  um “Não vejo a hora ” ( a melhor estratégia  que encontrei neste tipo de assunto é assumir e  entrar na brincadeira)

Doravante, religiosamente  a cada seis meses estarei lá no consultório dele  para a preventiva . Além do mais, lavou tá novo e limpo!

Espero que a segunda vez seja menos traumática. Não tem aquela máxima:  – Toda primeira vez arde, dói e incomoda ?

 A quem interessar possa: Toma nota aí do celular  do Eyder : ……………….

Rui Sergio Tsukuda – agosto/04

https://aposenteidessavida.com/

2 comentários em “Continuo o mesmo

  1. É, Rui, todo homem deve passar por isso, um dia. É um “mal necessário”… Eu, recentemente, ainda passei por uma cirurgia de Hemorróida, e, agora, toda semana o doutor quer que eu volte ao consultório, para um novo “toque”! Acho que é ele quem tá se apaixonando… rs

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    1. Andre , o toque anal é um exame necessário fazer o que né ? Sabia que muitos perdem a chance de detectar o cancer da próstata no início por preconceito do exame de toque ? Lavou tá limpo e novo ! Hahaha abraço

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