Concorrência desleal

Depois de um ano, terminei de ler o romance Crime e Castigo de Dostoiévski. Foram muitas idas e vindas, mas finalmente na semana passada, terminei de ler esse romance tão famoso. Mas porque eu demorei tanto tempo para devorar as 500 e tantas páginas do livro que é muito intenso e delicioso de se ler ?

Conclui que foi pura concorrência desleal com a internet. Infelizmente eu só consigo me desconectar do mundo virtual lá na roça. Como lá não tem sinal nem de internet ou celular, o que “sobra ” é o bom e velho livro.

Apesar do livro ser pouco atraente do ponto de vista visual, onde as gravuras são raras e esparsas, nele tudo aparentemente se resume a um amontoado de palavras que pode parecer à primeira vista desolador.

Mas apesar do cartão de visitas nada sexy, ele esconde muitos segredos deliciosos, basta puxar o fio da meada. Através dele é possível descobrir novas possibilidades, viajar sem sair do lugar e aprender muito.

Alguns podem dizer que ler um livro é uma fuga da realidade, pode até ser… Mas eu diria que é o contrário, é a ânsia de viver várias vidas numa só.

Outros dirão que o cinema, teatro ou mesmo novelas são outras formas de catarse que podemos experimentar. Sem dúvida, são também boas opções, mas o livro permite algo mais…

Se alguém me fala do filme Titanic, imediatamente vem à minha mente a Rose e o Jack na cena da cruz com os braços abertos na proa do navio com Leonardo di Caprio e Kate Winslet nos seus melhores tempos. No filme, a caixinha é lacrada e imutável; já no livro talvez o Jack poderia ser eu, Rui e a Virgínia, a minha Rose …

Apesar das palavras e frases que compõem um livro de uma mesma edição não variarem, a sua interpretação é individual e única de cada leitor. Talvez por isso ele é tão fascinante e revelador.

No Brasil, infelizmente não temos o costume de ler. Quando viajei pela primeira vez à Europa nos anos 90, eu notei o quão ainda popular era a leitura por lá. Uma vez numa piscina de um hotel na Inglaterra, notei maravilhado uma família com dois filhos adolescentes, os quatro portando livros bem grossos à tiracolo, além da toalha e protetor solar. Bem, naquela época o maldito smartphone ainda não tinha saído da cabeça do Steve Jobs…

Mas se a vida do livro já era difícil naquele tempo, se tornou ainda pior depois da popularização dos celulares inteligentes. Se mesmo nos países desenvolvidos, onde a cultura da leitura é forte já sofre esvaziamento do movimento, imagine aqui onde não temos tradição da leitura?

Agora, todos devem concordar comigo que é muito gostoso e viciante ficar navegando na internet pulando de site em site, de vídeo em vídeo e de post em post. Comparo o mundo digital à açúcar ou fast food. Dão um prazer desgraçado, momentâneo é verdade , mas depois, me dá um vazio tão grande, que volto em busca de mais e mais para chegar à mesma satisfação, parecendo muito à um vício de qualquer droga.

Não percebemos, mas somos manipulados pelas redes sociais … Aquele desconhecido que você passou um Zap , no minuto seguinte já aparece como sugestão de amizade no Facebook ou Instagram . Basta pesquisar um vídeo de carros antigos por exemplo, aparecem imediatamente trocentos vídeos sobre o mesmo assunto estimulando você a nunca sair de lá…

Os 30 segundos de duração de um vídeo do Tik Tok com certeza não foi ao acaso … com certeza especialistas em neurolinguística já devem ter estudado que esse é o tempo de atenção máxima do cérebro e isso bateu com o pessoal de marketing que estudaram que quanto menos tempo cada um ficar conectado, permitirá que mais usuários se conectem ao aplicativo por um menor custo. Não se enganem, somos massa de manobra das grandes corporações digitais, infelizmente.

Um dia desses topei com um pai todo orgulhoso que exaltava que o seu rebento já era aos três anos um fera no mundo digital. Era mesmo incrível como o moleque, que não sabia ainda ler e escrever navegava com maestria nos joguinhos baixados no celular pelo pai. Depois refletindo sobre o tema, inferi que o pai incentivava inconscientemente a precoce entrada do seu filho no mundo digital para que ele pudesse assistir aos jogos do Galo tranquilamente. Brincar com seus filhos e ler estórias para eles, às vezes é um saco né?

Mas se eu com 56 anos, filho da dona Mariko, que nos anos 70/80 comprou a coleção inteira Pra Gostar de Ler, visando estimular o meu interesse e dos meus irmãos pela leitura, já sofro com o bombardeio digital, o que esperar dos pequenos que junto com a chupeta já ganham um celular ou tablet?

Acho que a única saída é o EQUILÍBRIO. Não podemos também apenas demonizar o mundo digital, não há como negar a sua utilidade e praticidade, diria até que ele se tornou quase essencial nas nossas vidas.

Uma vez consciente dos benefícios e eventuais malefícios do mundo digital à petizada, os pais e mães deveriam estabelecer a eles um tempo máximo diário de conexão ( isso se você ainda tiver autoridade sobre eles… ) e introduzir a eles aos poucos a leitura de livros. Inicialmente livros ricos em desenhos e letras grandes para que eles façam a transição suavemente. Para estimula-los mais ainda, leia com eles. O exemplo arrasta!

E para os grandinhos… Recomendo fazer um detox digital voluntário, olhar para a estante e pegar aquele livro que tá lá há mais de ano esperando para ser lido, todo empoeirado e mergulhar nele de cabeça! Não será fácil no início, o período de abstinência é doloroso… Muitas vezes na roça pego meu celular sem nenhum sinal de vida e fico mecanicamente pulando de aplicativo em aplicativo e fico relendo as mensagens antigas, parecendo os fumantes que na ânsia de parar de fumar colocam canetas e lápis na boca…

Para terminar, gostaria de recomendar a vocês o livro O Pintassilgo de Donna Tartt , que ganhei da minha mãe e comecei a ler logo depois do Crime e Castigo. De tão atraente que é essa história de ficção, em poucos dias já li 164 páginas. Quando volto à lê-lo tenho a impressão que o meu espírito sai do meu corpo e viaja no tempo e entra de cabeça na vida dos personagens, uma delícia!

Fica a dica!

Rui Sergio Tsukuda – junho/21

https://aposenteidessavida.com/

6 comentários em “Concorrência desleal

  1. Oi Rui, é verdade. A tarefa dos pais, com o filhos pequenos é difícil. Minha neta de dois anos e meio adora livros, isto porque ainda não a apresentaram ao mundo virtual . Mas até quando, não é?
    Eu mesma, tô com vários livros pra serem lidos, mas inconscientemente pego no celular e aí o tempo se foi….
    Ler a sua crônica é um “tapa na cara”.
    Obrigada, Rui!! Abraços

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    1. Oi Neide , o desafio dos pais é apresentar aos pequenos a magia do livro, mesmo sem os atrativos sensoriais da telinha … Mas se a gente que é mais velho caímos nas armadilhas do mundo digital, o que esperar deles, né? No mínimo, limite de tempo de acesso à internet devem ser impostos a eles , com o tempo livre se não for para ler um livro , que seja pra brincar de casinha , esconde esconde ou amarelinha . Obrigado pelo comentário 😃

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  2. Boa Noite está corrida aqui no trabalho e somente agora consegui ler o seu texto. Concordo plenamente com escreveu pois o mundo digital tomou as nossa vidas , e estams atolados neste emaranhado virtual. Não sou muito exemplo mas as minhas duas filhas ganhaaram o seu primeiro celulas com 14 anos e puderam ter contas nas redes sociais. Recebi um video sobre A cançao do Bob e é tenebroso o que estão vendendo para as nossas criaturas.

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  3. Boa, Rui! Uma reflexão necessária, essa.
    Apesar de adorar escrever, não gostava de ler. Isso tem mudado nos últimos anos pela necessidade da minha profissão e o gosto pelo conhecimento, que tem crescido em mim. Estou feliz com essa evolução.
    Em relação à internet, sou meio do avesso. Não sou chegado a ela, o excesso de informações me causa cansaço.
    Como falei, gosto da procura por boas informações mas sempre dosada. Aprendi que ter espaço nas nossas vidas é essencial para o bem-estar e inclusive para a criatividade tão valorizada nos dias atuais.
    Muitas vezes me pego pensando aonde queremos chegar com tanta coisa à disposição. Mas claro, não nego a utilidade de todas as ferramentas digitais, sempre acompanhadas de cuidado e consciência.
    Valeu, meu amigo!!
    Abração pra você!!

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