Catarse

Eu sempre achei que viver uma vida só ser limitado e até injusto, porque são tantas as possibilidades de vida que existem por aí, que eu queria de alguma maneira potencializar a minha ordinária existência experimentando outras alternativas, nem que fossem por pouco tempo.

Claro que esse desejo, tem um quê de voyerismo, mas como esse termo é um tanto mal visto hoje em dia, faço a permuta aqui por curiosidade.

Isso poderia ser interpretado como fuga da minha realidade, mas graças ao bom Deus, a minha vida está bem, obrigado. Ainda mais, depois que eu aposentei dessa vida, agora dirijo empresa de sonhos. Claro que um dinheiro a mais na minha conta do Itaú Personnalité, não seria nada mal. Eu de certo tiraria um ano sabático do sabático, para acompanhar o Djokovic e Alcaraz pelos torneios grand-slam de tênis pelo mundo, sem culpa alguma.

Mas ainda assim, eu trocaria tudo isso por um par de joelhos novos, poderia ser de segunda mão também, mas em bom estado. O Joãozinho, meu amigo do Iate e tenista também, quando se encontra comigo, me fala que no cemitério perto da casa dele, lá no Caiçaras aqui em BH, chegam pares de joelhos dos bons, como dizia a dona Mariko, todos os dias. A lataria e o motor bem danificados é  verdade, mas cada joelho em perfeito estado, sem cracas ou bicos de papagaio e com a cartilagem ainda em dia, que dá pena descartá-los.

Mas mesmo se degustar outras vidas fosse uma fuga da realidade,  ainda assim, poderia ter algo de positivo, porque quando eu retornasse ao meu pequeno mundinho, talvez valorizasse um pouco mais o que sou e o que tenho, tipo eu era feliz e não sabia. Outra possibilidade é ao retornar de lá, ter a lucidez e a humildade para fazer algumas correções de rota necessárias e com isso evitar uma eventual colisão futura.

Mas como sempre há o worst case, haveria o risco de ao retornar à Terra, confirmar a minha tese de que de fato eu não era feliz e já desconfiava disso há um bom tempo…

Quando eu atendia no CVV, ao ouvir as histórias de vida mais tristes e desesperadoras, que nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar, eu confesso que tinha vontade de fugir do protocolo e dizer a potencial suicida:

– Sabe minha amiga, se eu estivesse no seu lugar, eu já teria tomado cicuta ou chumbinho há muito tempo, você é uma grande guerreira!

Talvez nos sonhos noturnos – e no meu caso, também diurnos, na minha siesta de duas horas depois do almoço – durante a fase de REM, eu poderia ter essa experimentação quase extra corpórea. Mas ainda assim, seria como a inteligência artificial ( IA ), onde nada de novo na verdade é de fato criado.

Seriam apenas as experiências da minha vida, somado aos meus recalques, frustrações e medos em flashes de curta duração, com poderes de Superman é verdade, em drops não lineares e difusos. Mesmo assim, não deixaria de ser mais do mesmo, infelizmente.

Mas ao ler certos bons livros, eu experimento a catarse, que é uma experiência transformadora de purificação da alma, segundo os gregos. Essa para mim é a magia do livro, porque no fundo, ele é apenas um amontoado de palavras, que dispostas aleatoriamente não teriam nenhum sentido ou significado.

No último livro que li e tive o real sentimento de viver uma outra vida, foi no romance Crime e Castigo do escritor Fiódor Dostoiévski.

Lá aos poucos, fui sendo envolvido pela trama e senti muita empatia com a situação em que se encontrava Rodion Raskolnikov e entender o que o levou a fazer o que fez … (  Spoiler, longe daqui! ), na cidade de São Petersburgo em 1860. 

A riqueza na descrição dos detalhes do conflito mental do principal personagem do livro, antes e depois de cometer o crime e a sua situação de penúria, foram suficientes para eu viver a vida dele, mesmo com alguma perda de conteúdo, natural após a tradução do russo para o português.

Naquelas semanas em que estive entretido com o livro, meus olhos não piscavam, tão intensa era a minha viagem no conflito interno de culpa de Raskolnikov após o crime cometido.

O lado perverso foi que eu me envolvi tanto com esse camarada russo, que de certa forma, eu sentia um grande alívio  ao fechar o livro e retornar ao meu mundo, com aquele sentimento típico quando acordamos de um pesadelo:

– Puxa, ainda bem que foi um sonho ou nesse caso, ainda bem que é um romance, bem escrito é verdade, mas é ficção.

Mesmo assim, até chegar ao final do livro, eu voltava a lê- lo, como que atraído por um ímã poderoso, mesmo sabendo que o meu sofrimento seria certo e estaria lá à minha espreita.

Mas pessoalmente, é no cinema que a catarse se manifesta na sua plenitude. Não por acaso, ele foi considerado a sétima arte, por ser uma síntese de todas as artes e envolver também o espaço e o tempo.

Um filme que tenho verdadeira fixação é o Verão de 42. Eu acho que já o assisti umas 20 vezes pelo menos. Muito doido, né? Em todas as vezes que eu o assisto, eu me transformo no inocente Hermie de 15 anos, que ao final do filme pega a Dorothy ( pronto, falei… não resisti e dei o spoiler! ).

Sou tão ingênuo, que todas as vezes que assisto ao filme, me surpreendo que a Jennifer O’Neill, que fez a Dorothy, continua igualzinha e sempre linda à minha espera, como em 1971, quando esse filme foi rodado. Curiosamente, o tempo não passa para ela!

A trilha sonora de Michel Legrand, tem um compontente decisivo no resultado final mágico da película. De todas as canções que Legrand compôs na sua vida, o tema do Verão de 42, foi sem dúvida a melhor. Bom, pelo menos para mim.

Uma vez estávamos eu e Gino Duo, um italiano de Milão, no aeroporto da Pampulha, aqui em BH. Ao saber que o nosso vôo para Ipatinga atrasaria muito, Gino não teve dúvidas e decretou:

-Rui, nós vamos de carro a Ipatinga e você será o motorista!

Como chefe é chefe, eu apenas obedeci.

Infelizmente, o único carro disponível na locadora Localiza era um Uno… Novinho, mas era um Uno. Sem alternativas, Gino concordou.

Eu pensei cá comigo, coitado do meu chefe, acostumado só com carros possantes e confortáveis, viajar com um Unozinho deve ser bem frustrante para ele. Mas pelo menos, ele estará num carro italiano e ademais é vermelho como uma Ferrari deve ser.

O Gino era um sujeito muito elegante e refinado. Em todas as suas camisas, calças e gravatas haviam a sua marca bordada com as suas iniciais GD e ele tinha várias abotoaduras de ouro e pedras preciosas. Não me lembro de vê-lo sem uma delas pregada na manga de sua camisa.

Não foi à toa, que anos depois, ele se tornou o CEO da Zoomp e depois da Daslu.

Nas visitas aos clientes que fazíamos juntos, mesmo na ida às fábricas sujas e quentes, ele invariavelmente se vestia de terno, gravata e calçava sapatos de cromo alemão. Ninguém o convencia a calçar botas de segurança. Era escarradamente a Constanza Pascolato de calças, tamanha a sua elegância.

Durante a viagem de quatro horas de BH a Ipatinga, conversamos sobre muitos assuntos.

Ele me contou a sua indignação com o comportamento dos brasileiros num buffet, misturando comida japonesa, massas italianas, churrasco e feijoada, tudo junto num mesmo prato e para piorar, regado a muito refrigente, suco e cerveja. Para Gino haviam apenas duas opções de bebida, vinho ou água.

Uma vez num vôo que fiz com ele a Congonhas, num Fokker 100 da TAM, eu perguntei:

-Gino, se o piloto e co-piloto se sentirem mal, você assume a aeronave?

-Tranquilo Rui, até faço algumas acrobacias como bônus aos passageiros! Pilotar esse avião aqui é para iniciantes da aviação, exagerou.

Entendi que para um ex-piloto de caça e de testes como ele, pilotar um jato comercial deveria ser café pequeno…

Eu gostei muito, quando na conversa no Uno vermelho, durante a viagem a Ipatinga, ele deu mais detalhes da sua experiência como piloto de caça da força aérea italiana. Um universo que eu nem imaginava como seria.

Emendou o assunto falando sobre o filme Top Gun, o seu preferido. Confidenciou com orgulho me dizendo ter assistido mais de dez vezes ao filme, tamanha era a verossimilhança com um combate de verdade de caças.

-Rui, a atuação de Tom Cruise foi perfeita naquele filme. Ao vê-lo lá, voltei a me sentar no cockpit de um caça da força aérea italiana. Eu me senti fazendo as mesmas manobras de ataque e fuga, que eu fazia nas aeronaves que testava!

Sem nenhuma preliminar ou beijinho, me contra-atacou disparando um míssil do seu caça à queima roupa no meu peito:

-E você Rui, qual o seu filme preferido?

Depois de alguns segundos de silêncio, eu respondi:

-Sabe Gino…, na verdade, assim de sopetão, eu não me lembro de nenhum filme em especial, não!

Naquele momento, eu me senti muito mal traindo a minha querida Jennifer O’ Neill. Confesso que fiquei com vergonha de admitir ao meu chefe, que o meu filme preferido era Verão de 42, um filme romântico e até meio bobinho.

O que pensaria ele sobre mim, ao saber que eu já tinha assistido ao Verão de 42, mais dez vezes além do que ele assistiu ao Top Gun?

Esse texto, foi escrito em memória do meu amigo Gino Duo, falecido em 2021 pelo COVID 19.

RIP Maverick!

Rui Sergio Tsukuda – abril/24

www.aposenteidessavida.com

6 comentários em “Catarse

  1. Rui, você não está sozinho, o filme Verão de 42 é muito legal, e a música então, uma das eternas!

    Você que gosta de ler, recomendo os livros de Adam Grant, um psicólogo americano que deve ter menos de 50 anos. O cara escreve muito fácil, o que é difícil prá caramba!!!

    O primeiro que li foi o Pense de Novo, gostei muito, depois li o Dar e Receber, e estou procurando um terceiro, o Originais, são livros bem fininhos, rápidos de se ler e muito bons! OS 2 primeiros tenho uma cópia em pdf, se você quiser posso te enviar.

    O Crime e Castigo, li quando era adolescente (faz tempo…), mas hoje creio que não leria novamente.

    Acho que a gente vai ficando velho e vai ficando sem paciência. Deveria ser o contrário né!!!

    Um grande abraço.

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  2. Oi Rui, uma homenagem ao seu amigo Gino Duo num texto maravilhoso! Mas triste de saber que ele partiu pela Covid 19. É cruel demais! Repassei sua crônica pra vários amigos, espero que todos leiam! Abraços!!

    Em sex, 5 de abr de 2024 10:35, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa

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      1. Oi Rui boa noite.

        meu nome e Alessandra fui esposa do Gino

        adorei sua homenagem a ele até chorei de emoção pela sua lembrança e dedicação a sua amizade.um abraço no seu coração

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      2. Oi Alessandra, obrigado pelo comentário. De alguma maneira a crônica chegou onde deveria chegar. Fiquei feliz com seu comentário. Gino foi uma pessoa especial, sempre o admirei. Grande abraço.
        Lhe convido a se inscrever no blog e encaminhar a crônica aos seus amigos.

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