A Tecnologia na minha vida

Em 1972, eu tinha apenas oito anos. Lembro como se fosse hoje, o tio Kentian trazendo um gravador / toca fitas Panasonic para ser apresentado à família. Ficamos todos eufóricos, porque até então tínhamos apenas o rádio AM e OC e a televisão preto e branco nas nossas vidas.

Na sala da casa da minha batian em Londrina na rua Santos 264. Sentamos os tios, tias, primos, primas e ela, em cadeiras dispostas num círculo, enquanto meu tio preparava cuidadosamente o gravador colocando uma fita cassete Sony virgem nele.

Ao terminar o ritual, meu tio finalmente apertou as teclas PLAY e REC e passou o aparelho para a minha batian, a matriarca dos Hamadas, falar alguma coisa. Depois, em seguida, o aparelho foi passando de colo em colo e cada um dava o seu recadinho. O que mais saiam eram risos vergonhosos e sem graça. Eu me lembro de ter dito apenas: – Aqui é o Rui de Londrina! hahahaha!

Ao final da gravação, aguardamos o tio Kentian apertar o STOP e depois o REW, voltando a fita ao seu início, para em seguida apertar o PLAY. Até este instante, o silêncio imperava na sala, todos estavam absortos com aquela situação nova aguardando o grand finale. Foi quando de repente, as nossas vozes começaram a surgir do nada daquele mágico equipamento.

Como os índios de tribos isoladas, a quem são apresentados espelhos pela primeira vez, rimos muito e ficamos em êxtase! O espanto era visível no semblante de todos: – Nossa, como a minha voz é feia e estranha … foi o comentário mais falado naquele dia.

Quatro anos depois, apareceu na minha vida a TV colorida. Não tenho ideia do seu preço na época, mas devia ser muito, mas muito caro! Em casa, ela demorou mais uns três anos para chegar, apesar dos nossos pedidos quase que diários ao seu Mário, meu pai, para que comprasse uma para a gente.

Então, meu pai pressionado pelos filhos, tentou nos ” enganar” colocando uma tela de acrílico verde adaptada à frente da tela da nossa velha TV preto e branco Telefunken. Essa tela era um consolo barato aos que não podiam comprar a novidade, cuja ideia – falsa- era nos dar a ilusão de ver ou imaginar cores na telinha da TV. Mas nem eu, que já era daltônico naquele tempo, caia nessa conversa…

Esse truque do meu pai não colava porque TV colorida é uma TV colorida, uma telinha verde mixuruca, era no máximo uma TV preto e branco melhorada. Duas vezes por semana mais ou menos, íamos na casa do tio Otoiti e ficávamos maravilhados com uma TV Sharp colorida de verdade, que maravilha!

Naquele tempo, possuir uma TV colorida conferia status ao seu proprietário e à sua família, igual a um Opala ou um Galaxie Landau na garagem. Sabíamos de cor e salteado quem dos amigos e da família possuíam essa joia no meio da sala. Quando surgia alguma dúvida, alguém logo falava: – Não, os Yassuda são como a gente, eles só tem TV preto e branco … coitados. O mundo para nós crianças, era dividido entre os que tinham TV em cores e os que não tinham esse privilégio.

Quando meu pai, em meados dos anos 70, conseguiu finalmente comprar uma TV colorida para nós, já não tinha muita graça porque a maioria dos lares do nosso entorno já tinham essa novidade. A TV em cores ficou carne de vaca! Tecnologia é assim, só tem graça quando poucos tem, depois fica lugar comum e ninguém dá mais bola.

Numa aula do cursinho pré vestibular do Colégio Positivo em Curitiba em 1981, um amigo japonês patrício gordinho, chegou todo metido na sala tipo auditório de 300 alunos, portando o seu WALKMAN SONY recentemente comprado no Paraguai. De propósito, o desgraçado chegou atrasado à aula, apenas para exibir a sua mais nova aquisição.

Todos se cutucavam dizendo: – O que é isso meu Deus? O aparelho era um toca fitas e rádio ao mesmo tempo, o diferencial dele eram os fones de ouvido que eram pequenos e muito potentes na época. Outra vantagem era sua portabilidade pelo seu tamanho “pequeno” e uma alça nada discreta que podia ser colocada no ombro, levando-o a qualquer lugar. As quatro pilhas AA one way duravam pouco, mas fazer o que, né?

No recreio, fui pedir a ele para testar a novidade. Uma grande fila imediatamente se formou atrás de mim. Quando eu coloquei o fone de espuma macia nos meus ouvidos e ouvi uma canção da FM Caiobá, percebi que estava numa outra dimensão de qualidade de som, nada se comparava àquilo até então.

No primeiro ano de engenharia química em 1982, meu pai muito feliz e satisfeito em ter um filho engenheiro, me presenteou com uma calculadora HP 34 C. Na época, essa era a calculadora de entrada da marca Hewlett Packard -que me ajudou muito nas provas de cálculo numérico – mas em nada se comparava com a HP 41 CV que era a Ferrari das calculadoras. Os seus felizes e metidos proprietários exibiam as suas reluzentes e desejadas calculadoras nas carteiras da sala de aula. Hoje qualquer aplicativo de smartphone, deve fazer com os pés nas costas o que a 41 CV fazia na época…

Lembro também na escola de engenharia, levar centenas de cartões em papel para rodar os programas na linguagem FORTRAN que a gente fazia no computador da UFPR e sofrer muito para ao final receber decepcionados a mensagem JOB ABORTED e ter que começar tudo de novo.

Era um sacrifício também, levar na minha moto Yamaha TT 125 branca aquela enorme e desajeitada régua T, os esquadros, escalímetro. Além do tubão de PVC, em que levava enrolado os desenhos em papel de seda para as aulas de desenho técnico. Ao errar o desenho, normalmente era necessário trocar a folha de papel. Em alguns erros leves, a borracha verde da Mercúrio ainda dava conta de apagar o grafite, mesmo assim, deixava marcas no papel. Hoje com um programa AUTOCAD piratão gratuito, você faz qualquer projeto que quiser. Se errar, basta apertar o DELETE e refazê-lo num piscar de olhos e ainda em 3 D!

Notaram como o papel de imprimir e escrever está démodé hoje em dia ? Imprimir no sulfite CHAMEX , só se for um documento para reconhecer firma no cartório. E quanto aos jornais ? Quem hoje em dia tem coragem de ir a uma banca de revistas, que by the way são raras, e comprar o Estadão para ler?

Com a redução do uso do papel utilizado no printing & writing, a indústria de papel busca alternativas de consumo nas embalagens impermeáveis a gordura e água aproveitando o boom dos deliveries. Por exemplo … Aqui em casa eu uso jornais velhos como forro das gaiolas dos meus curiós. Com a mudança do seu Zé Antônio, nosso vizinho do prédio, estou perdido, pois foi embora o meu único fornecedor de jornal velho. Ele era o único morador do prédio que consumia jornais de papel …

O desktop ou PC como conhecemos hoje , apareceu na minha vida já no segundo ano de engenharia. Fernando e o Xime, os mais antenados em tecnologia da nossa turma nos apresentaram o PC 500. Este moderníssimo equipamento era para nós uma coisa do outro mundo porque até então, só tínhamos as calculadoras da HP e da Texas Instruments. A internet só chegaria ao Brasil em 1988 quando eu já havia saído da universidade.

No casamento do Caio, meu irmão, em 1993. O meu tio Delfino chamou a atenção de todos ao atender na catedral de Maringá o seu novíssimo telefone celular Motorola. Enquanto aguardávamos o Caio e a Josi entrarem na igreja, o silêncio foi quebrado por um som de alarme. Todos se entreolharam tentando entender do que se tratava aquele ruido estranho. Nisso, meu tio, calmamente sacou o seu tijolinho que estava pendurado no seu cinto da calça. Puxou a antena de 10 cm e falou: – Alô, alô ! Todos ficaram espantadíssimos com tudo aquilo, como é possível falar com um telefone sem fio longe de casa? Quem tem um olho em terra de cego é rei, mesmo que seja um tijolinho da Motorola com 0,5 G!

Esses são alguns exemplos de como a tecnologia evoluiu nos últimos 50 anos. Sem ninguém pedir licença, ela invade sua vida e você é obrigado a acompanhá-la sob pena de ficar obsoleto. Eu acho que mesmo os mais resistentes à ela, devem ter pelo menos hoje em dia um celular para telefonar e receber ligações e um carro com injeção e ignição eletrônica.

Agora, estar antenado à tecnologia não é privilégio dos Millennials. Meu tio Masao de São Paulo, que também é engenheiro como eu, é ligadíssimo em tecnologia e ele tem apenas 80 anos! Eu com os meus 56 anos, pertenço à mediana, ou seja só quando a tendência é irreversível eu me converto. Por exemplo, com relação aos carros elétricos eu ainda os olho com muito desdém, mas acredito não ter jeito de escapar deles num futuro próximo. Já os carros autônomos, vou espernear bastante e dar piti, pois adoro dirigir.

Tomei a decisão recentemente de colocar o meu fusquinha 68, o Akatian, para rodar no trânsito pesado da semana de BH. Pela primeira vez pego um carro antigo para bater no dia a dia. Antes só dava uma voltinha com eles nos finais de semana e nos encontros de carros antigos, que eram comuns em BH antes da pandemia do covid 19.

Como meu carro é bonitinho e nostálgico, não tem uma só vez em que eu não seja abordado nos sinais por crianças, idosos, cinquentões como eu e até pelos millennials. Ouço com atenção relatos sinceros de pessoas que amam o fusca e sempre tem uma história interessante para contar. Uma vez um senhor me falou que se não fosse o fusca ele não teria nascido, pois foi gerado nele. Eu pensei cá comigo: – Meio apertadinho, né?

Mas deixando de lado o amor que tenho pelo fusca. Tenho que reconhecer que ele é um carrinho ultrapassado. Ele não é econômico, faz apenas 10 km/l, é também super desconfortável, barulhento, o motor de 46 CV é fraquíssimo, não tem equipamentos de segurança – além do cinto abdominal que adaptei – o freio a tambor não funciona com chuva, o volante pesa muito nas manobras dos estacionamentos e sempre que ando com ele a minha camiseta volta cheirando à fumaça.

Só percebo o quanto a tecnologia dos veículos melhorou nos últimos 50 anos quando viajo com o meu carro “normal” um SUV da Honda. Eu penso comigo: – Rui , você e o Lucas (meu filho) gostam de sofrer, só pode ser isso! Que diferença do Akatian, que silêncio, que potência e que conforto!

Mas os milhares no Brasil que gostam de antigos como eu, foram infectados pelo vírus da ferrugem e infelizmente o transmiti ao Lucas. Coitado!

A tecnologia, embora reconheça que tenha mais vantagens do que inconvenientes, acho que tem havido um desvio na sua utilização que não é positiva…

As apostas entre amigos nos botecos que eram tão salutares em caso de alguma dúvida em cinema, história, música ou futebol acabaram-se. Logo um espertinho saca um celular e faz à queima roupa uma busca no Google acabando de vez com a brincadeira.

Um dia no aeroporto de Confins, reparei num casal jovem que estava sentado bem à minha frente. Cada qual estava no seu universo particular à bordo do seu smartphone. Como me interesso por gente e seus comportamentos, aproveito essas ocasiões para observar as pessoas como um voyeur assexuado. Em lugares públicos -não leio livros ou revistas e tampouco acesso o meu celular (que tem zero de notificações) – apenas observo as pessoas.

Reparei que em meia hora o casalzinho continuou cada um concentrado no seu aparelho. Um ignorando a presença do outro. Nem um comentário foi dito, nenhum beijinho foi dado. – Que mundo gente! Tão juntos, mas ao mesmo tempo tão distantes. Só poderiam estar brigados, foi o que pensei.

Não sei se vocês lembram do TAMAGOTCHI … Um chaveirinho eletrônico japonês em cuja tela aparecia um bichinho virtual. Você ao comprá-lo era nomeado o seu tutor, com a obrigação de acessá-lo num intervalo de duas horas ou mais e alimentá-lo sob pena dele morrer de fome. O seu prêmio era vê-lo crescer. Em troca, ele todo feliz, sorria para você. Era a febre da petizada nos anos 90 e 2000.

Muitos pais, inclusive eu, compraram dúzias deles para seus rebentos porque o racional era: Muito melhor ter um bichinho virtual, que um de verdade que come, faz cocô e xixi, precisa ir ao pet shop e veterinário. Hoje faço mea culpa e não daria um TAMAGOTCHI a Lucas e a Fofa. É desumano!

Tem uma outra situação que eu presenciei na rua há um tempo atrás que achei muito estranha … Uns abobados, incluindo crianças, adolescentes, adultos caçando Pokémons. Naqueles dias eu percebia que haviam caçadores em todos o lugares aqui em BH.

Até alguns atropelamentos houveram por aqui nessa febre. As pessoas perderam a noção do ridículo. A que ponto chegamos meu Deus, caçando bichinhos invisíveis nas ruas, para o busão que eu quero descer no próximo ponto!

Agora o crème de la crème é uma passagem que vou lhes contar a seguir …

Estava um dia trabalhando no escritório da empresa, quando fui abordado pelo responsável da manutenção do ar condicionado, de nome Antônio. Após autorizar o serviço, resolvi puxar conversa com ele para espairecer um pouco.

Percebendo que Antônio havia engordado bastante desde o nosso último encontro, lhe perguntei se ele tinha alguma dica de algum novo regime na praça. No código dos gordos, um gordinho tem a liberdade de perguntar a outro, também obeso, sobre dietas e regimes. Se é um magro nos perguntando, aí já é gordofobia e patrulha!

Ele sorridente respondeu: – Não Rui, eu não procuro mais por dietas, desisti de vez de emagrecer. Sabe por que?

– Não, respondi. Esperando que viria em seguida uma explicação de aceitação do corpo roliço, por exemplo.

Ele então respondeu: – Agora estou no Second Life , lá meu avatar é magro e sarado. Então não preciso mais emagrecer!

Eu super surpreso com a resposta, retruquei: – Second Life?

– Sim, Rui. Second Life é um ambiente virtual onde eu posso ser o que quiser. Chegando em casa depois do trabalho, eu entro lá e só saio tarde da noite… Lá eu sou o Antony. Além de esbelto, eu sou jovem, alto, loiro, olhos azuis e rico! Pego todas, precisa ver, todos os dias tem garotas querendo sair comigo, ele respondeu todo orgulhoso.

Eu ainda mais interessado naquele papo muito doido, perguntei: – Uai Antônio , e a sua esposa, como ela fica nessa estória toda?

– Uai Rui, ela também está lá comigo no Second Life com o avatar Mary, na vida real ela se chama Maria. Precisa ver como ela é linda e gostosa Rui, tem bundão e peitões empinadinhos! Muito top mesmo! Ela também tem os seus casinhos por lá, confessou meio sem graça…

Eu que já tava achando esse papo pra lá de esquisito, perguntei: – Mas Antônio ou Antony, você não se importa de levar um chifre na cabeça não, sô?

– Não Rui, como é uma fantasia, tá liberado. Nós estabelecemos o amor livre sem culpas ou remorsos no Second Life. Só tem uma coisa, ela precisa me falar com quem está saindo e eu a mesma coisa, senão o bicho pega! complementou.

Em seguida, ele muito simpático, me convidou a aderir ao Second Life também:

Eu respondi dizendo: – Não, obrigado Antônio. Vou preferir ficar aqui na minha vidinha chata de gordinho mesmo pulando de dieta em dieta, emagrecendo e engordando…

Depois que ele terminou o serviço e saiu da sala, refleti: – Credo meu Deus, esse mundo tá perdido mesmo. Vivendo duas vidas numa só! Eu hein!

Neste instante, me lembrei do Tatoo da Ilha da Fantasia gritando: Olha o avião, patrão! O avião, patrão! O avião!

Me perdoem a todos, em especial ao meu querido primo Ernesto e ao finado mestre Ariano Suassuna, por abusar do anglicismo e do estrangeirismo neste texto.

Mas foi de propósito mesmo. Qualquer dificuldade é só ir no Google, ou Gugle como meu pai falava.

Olhem aí outra coisa boa da tecnologia!

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/21

https://aposenteidessavida.com/

9 comentários em “A Tecnologia na minha vida

  1. Parabéns querido amigo, muito boas as histórias e lembranças. Ainda tenho um walkman igualzinho da foto e um motorola tijolão com 2 baterias, guardados como recordação.

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  2. Oi Rui, já carreguei muitos cartões dentro do ônibus para ir na faculdade e ir rodar os programas em Fortran, Cobol e tomando cuidado para não derrubar, para nao sair da ordem para processar….rsrs
    E sobre os jornais, agora vc tem que comprar no Sebo.
    Esses dias passei na frente da loja e tinha cartaz: Vende jornal velho.
    Estou lendo tudo e gostando muito, parabéns!!

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    1. Oi Verinha , eu sabia que você ia se identificar com os velhos cartões. Mas eu ficava só no Fortran mesmo, Cobol e Algol eram para os especialistas. Veja como tudo tem mudado e a gente tem que acompanhar né? Fico feliz que você esteja gostando dos textos ! Você me animou a escrever mais um texto hoje . Obrigado 😊

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  3. Boa tarde Rui, gostei da linha do tempo, é um registro verdadeiro.
    Eu e minha família não tinhamos tv,me lembro que tinha oito anos cavalgava 15 km na garupa do meu pai Bonilho pra fazer os arranjos como falavam na época.
    Minha mãe levantava bem cedo pra fazer bolinho pingado ou vez e outra virado de ovos para evitar de gastar o dinheiro que estava contado pro compromisso da lista.
    Chegando em Angatuba,meu pai ia visitar sua sobrinha minha prima que na época tinha tv preto e branco,ficava muito feliz de poder assistir e contar pro meus coleguinhas.

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