Rex e eu

Quando menino, eu passava as minhas férias de verão no sítio da minha batian ( vó em japonês) na Colônia de Lorena nos arredores de Londrina. Diferente das roças da minha região aqui de Minas Gerais, cuja vocação é o gado de leite, no sítio de Lorena, a plantação de café tomava conta da paisagem da propriedade de 20 alqueires.

Leite de vaca, quando tinha, vinha do sítio do Cabeça Branca, um vizinho rabugento que me metia muito medo. Me lembro de um dia de muito vento em julho, a minha pipa foi cair justamente na divisa com o sítio dele. Com muito medo, adentrei na sua propriedade para resgatá-la e dei de cara com aquele velho com cara de bravo já me esperando com um facão na mão dizendo para eu nunca mais pisar nas terras dele.

Não ter pasto no sítio da batian, significava também não ter vacas e cavalos. A exceção era o Rex, o cavalo do seu Adão, o patriarca de uma família de meiieros que morava no sítio de Lorena. Contrariando a minha batian, o seu Adão insistiu com ela em ter um cavalo no sítio. A minha vó só autorizou o seu Adão a ter o animal, caso ele ficasse preso a uma corda bem comprida amarrada a um toco na grama do jardim da casa dele.

O cavalo sempre povoou o meu imaginário de menino, influenciado pelo Zorro e seu lindo garanhão preto e do Mingo, índio amigo do Daniel Boone, que andava num cavalo pampa em pelo no Kentucky.

Rex era tordilho, não muito grande, nem muito pequeno, devia ter 1,50 m de altura, sem uma raça definida ou seja um vira-latas dos cavalos. Seu Adão nos contava, que comprou o Rex por uma barganha, porque ele tinha sido um cavalo de rodeios. Apesar de novo, já não tinha mais idade para derrubar os peões, por isso havia sido descartado.

A quem interessaria ter um cavalo chucro que desde potro foi judiado para ficar bravo e fazer os peões caírem? De tão selvagem, Rex era contido com um trecho de corrente de aço próxima ao cabresto, porque já tinha roído a corda azul grossa de nylon e escapado dela algumas vezes.

Para mim, ter o Rex no sítio ou não tê-lo não fazia muita diferença. De que adiantava ter um animal que eu não pudesse montá-lo? Mesmo o seu Adão, que tinha sido um peão na juventude, tinha receio de cair do lombo dele e já tinha levado não poucos coices e mordidas do cavalo.

Passaram – se alguns anos, acho que uns 10 anos. Nesse período, a terrível geada de 1975 caiu na região e matou toda a nossa plantação de café, como também de todo o Norte Pioneiro do Paraná mudando a paisagem da região.

Mas Rex sobreviveu.

Ao reencontrá-lo, percebi que ele não era o mesmo. O olhar altivo e arrogante do cavalo do seu Adão havia dado lugar a uma complacência e aceitação da sua condição cativa. Alguns pelos brancos finos já despontavam no seu queixo, cuja pele já começava a se enrugar. A corrente de aço na sua corda já não era mais necessária, pois o tempo havia esmagado o seu ímpeto da juventude.

Eu percebi que aquele era o meu momento de finalmente montá-lo e me imaginar como Zorro ou Mingo, como nos filmes da sessão da tarde, apesar de que agora, aos 15 anos, eu estava mais interessado em assistir aos filmes eróticos que passavam tarde da noite de sábado na TV.

O único traço que ainda restava da rebeldia de Rex, era a sua esperteza para escapar de mim. Colocar o freio no danado era um parto. Até que eu descobri a dica da espiga de milho. O primeiro passo, era esconder dele o cabresto com o freio atrás de mim com a mão esquerda e oferecer a ele uma bela espiga de milho com a mão direita. Quando ele vinha todo animado para comer o milho, eu trocava rapidamente a espiga pelo freio e o encaixava em sua boca. E o infeliz sempre caia nesse batido conto do vigário!

A Dona Maria, a minha vó branca que morava no sítio com a minha batian, dizia a todos que quando eu chegava para as férias, o Rex estava roliço de tão gordo e quando eu ia embora depois de dois meses, o coitado estava magrinho e relinchava de felicidade quando eu desaparecia no carreador do sítio.

Onde foi parar aquele cavalo de rodeios indomável de outrora, que metia medo nos peões da região; se agora, até eu, um cavaleiro inexperiente dava conta de montá-lo em pelo?

Hoje aos 58 anos eu me pergunto:

Será que eu me comportei como o Rex na minha vida, rebelde na juventude e agora dócil como um gatinho?

Para onde foi a minha revolta, que me dava fôlego para as longas discussões acaloradas com a minha mãe, Dona Mariko, que era socióloga, sobre como resolver a fome no mundo, por exemplo?

Será que hoje, eu me juntaria aos meus companheiros da UNE, como eu fazia no tempo da faculdade, empunhar com eles faixas de protesto nas ruas e gritar convicto: Arroz, Feijão, Saúde e Educação?

Apesar de conviver com os meus amigos camaradas vermelhos que moravam na Casa do Estudante Universitário ( CEU ), eu nunca fui reconhecido como um deles. Pelas minhas costas eu era chamado de japonês/pelego/burguês, depois que um deles descobriu que meu pai, era na verdade um empresário da cidade industrial de Curitiba.

Aquela minha indignação com as injustiças e desigualdades sociais e a minha determinação de lutar por um mundo mais justo, onde estarão agora?

Será que como Rex, eu fui subjugado pelo tempo e me habituei aos escândalos como disse um dia Simone Beauvoir?

A maturidade me trouxe certamente resiliência e o aprendizado de como lidar melhor com as frustrações e perdas, mas o preço a se pagar por isso é ser pateticamente conformado?

Quanto mais eu vivo, mais eu me convenço que Belchior tinha razão ao escrever a canção Como Nossos Pais:

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais

Rui Sergio Tsukuda – julho/23

https://aposenteidessavida.com/

8 comentários em “Rex e eu

  1. Meu amigo, essa música, ainda mais com a Elis, é nota 10! Sim, nós vivemos como nossos pais, que nos serviram de exemplo. Só que digo mais, como nossos pais e melhorados. Com toda tecnologia que nos favorece o acesso à informação, aos nossos estudos, que nossos pais não tiveram a oportunidade, nos propicia uma vida melhor que a deles. Pode ter certeza! E espero que nossos filhos e netos possam ter uma vida bem melhor que a nossa, apesar de que considero minha vida um privilégio, dados a poucos da minha geração! Passei maus bocados durante a universidade, sem dinheiro, mas o pouco que tinha era muito valorizado!!! Rui, você é um pouco mais novo que eu, mas vimos o século XX virar XXIç somos privilegiados. Grande abraço!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Quanta emoção né Rui,na época da nossa adolescência,você contando tudo,me lembro de muitas passagens um pouco assustadora que passei na época da adolescência .
    Uma vez meu irmão fez eu ir sozinho na cidade de Angatuba pra levar o milho e trocar pela farinha.
    Aquele tempo era saco de açúcar que amarrava um com o outro ,cada lado a mesma quantia pra equilíbrio do peso.
    Ele selou uma potranca nova muito ligeira.
    Rui foi sufocante pra mim,na volta dos quinze quilômetros formou um temporal com muitas nuvens negras e eu no meio de tanto vento não conseguia abrir o plástico que levei pra me cobrir e proteger farinha,também a barrigueira da potra se afrouxou e nas descidas foi aterrorizante.
    Foi pior do que assistir uma queda de energia e ver os tanques da área branca transbordar e nada poder fazer sem tanque pra estoque.
    Imagino esse vizinho bravo.
    Nos tínhamos um pior na época,depois da aula nos invadiamos o jaboticabal dele pra chupar,depois que todos estávamos lá encima,ele atirava com bodoque feito de pérola branca curvada no calor do fogo.
    Bons tempos né Rui.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Mário, bons causos você tem ! Fico imaginando você na potranca, de olho no tempo com medo de molhar a farinha. Hehehe 😂
      Obrigado pelo comentário!
      Abraço

      Curtir

  3. Quanta lembrança boa, Rui!! Me faz retornar também aos meus tempos de criança e adolescência já tão distantes, mas que foram bons demais!
    Rui, que a vida te conserve assim!! Abraços!!!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Olá! Rui adoro seus textos, principalmente os que falam sobre lembranças.

    Gosto de pensar que temos sempre dois caminhos para escolher e que ao se decidir por um deles, jamais saberemos o que teria acontecido se tivésssemos escolhido o outro. Acho que é a forma que encontrei para entender que fiz o melhor que poderia ter feito, quando a angústia me atormenta.
    Fique bem.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Josaine, obrigado pelo comentário, fico feliz que você esteja gostando dos meus textos.
      Essa questão que você colocou sobre uma vez tomada uma opção, nunca mais saberemos qual seria o desfecho caso tenhamos decidido pela primeira opção, me intriga também.
      Talvez por isso eu tenha gostado tanto do filme Um homem de família do Nicolas Cage, que retrata bem isso. Já assistiu a esse filme?
      Mas procuro não olhar para trás, para me poupar e evitar um sofrimento desnecessário e improdutivo.
      Afinal somos hoje fruto das nossas opções boas e ruins tomadas do passado… Mas ainda bem que o acaso ou serendipity pode nos surpreender com boas experiências que nós trará muita alegria.
      Abraço

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário