Ontem 26 setembro, fui ao show do cantor Paulinho Moska e da orquestra Opus.
Quando ele cantou o seu hit, O Último dia, cujo trecho é assim:
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria
Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha
Eu pensei….
– Será que somente no último dia da minha vida, serei eu totalmente livre e inconsequente?
– E o restante da minha vida, porque me limitei a ser precavido, previsível e totalmente consequente?
– Bom, talvez por ter sido assim, eu esteja aqui hoje no teatro Brasil Vallourec no centro de BH, podendo aos 59 anos, assistir ao show do Moska, refleti.
Mas será que eu não poderia ainda estar aqui vivo, intacto e mesmo assim ter arriscado mais, ter tido mais experiências, enfim vivido mais?
Me lembro agora… o ano era 2005, eu estava passando três meses nos EUA no Texas. Hugo, que agora é casado com a minha querida prima Cris, tinha duas entradas para assistir à um jogo de basebol, uma experiência nova para mim.
Uma das entradas seria minha, caso eu me deslocasse por uns 150 km de Fort Worth até o estádio de basebol. O carro, o combustível e a faca, eu tinha.
Só me faltou mesmo foi a coragem para enfrentar sozinho à noite, a rodovia desconhecida e por isso temida. Naquele tempo, o Waze ou o antigo GPS de carro, ainda não havia sido inventado, o máximo que se tinha era o obsoleto Mapquest.
Hoje eu analiso com pesar: Que oportunidade de ouro eu perdi!
O que de pior poderia ter acontecido? Eu me perder pelo caminho? Sofrer um acidente? Ser assaltado, levar um tiro e morrer?
E daí? Não dizem que viver é um permanente risco?
Mas como o tempo não é resgatável como os cashbacks da Magalu, o leite que se derramou, logo se percolou pelas entranhas da crosta terrestre e se perdeu para o todo sempre.
Hoje em dia, quando a nostalgia quer bater à minha porta, eu me lembro do seu Mário, meu pai, o homem mais pragmático que eu conheci na vida, que me dizia:
– Rui, meu filho, o que foi , foi e pronto! Agora é passado, esqueça. Sofrer agora lamentando o que se passou, qual a ação efetiva disso, além de trazer a você um sofrimento improdutivo, que além disso, fará você perder tempo e energia?
Fica então aqui a minha dica a vocês a serem menos cagões, isso serve aos mais jovens e também aos mais velhos que eu, que ainda se cagam todos de medo de se aventurarem pela rodovia até o estádio de basebol.
Como ainda acho que tenho um tanto bom de combustível para se queimar, até que uma biópsia ou PET-scan me informe do contrário.
Estou fazendo hoje e nos dias que me restam, o que eu faria somente no último dia da minha vida, me expondo mais, sendo um sem noção assumido, com o foda-se ligado o tempo todo, cagando e andando pra tudo e todos e sempre calando a bigorna da auto-censura.
Mas sempre, sempre, sem nunca trair aos meus valores e crenças.
O grande psicanalista Contardo Calligaris, que eu tive a oportunidade de interagir um dia, disse repetidas vezes em entrevistas durante a sua vida:
–A traição que realmente importa é a traição a si mesmo, essa é imperdoável!

Mas acho que diferente do Moska, não vou sair por aí pelado na chuva, porque não vejo nenhuma graça em fazer isso, ainda mais com o meu shape atual e nem trepar sem camisinha, porque isso eu já faço em casa, excepcionalmente é verdade, apenas… when the Moon is in the seventh house and Jupiter aligns with Mars.
Também tenho me lembrado com frequência, da seguinte fala do escritor Luis Fernando Veríssimo:
– Mas eu desconfio que a única pessoa livre, totalmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.

Lucas, meu filho, trouxe em casa um dia desses, uma amiga chamada Amanda, uma loirinha mignon linda, que ao se aprontar para sair de manhã, apareceu para tomar café com a gente com as meias trocadas, uma de cada cor e estilo.
Como apesar de daltônico e míope, ainda não sou cego, percebi o engano da mocinha e a alertei disso. Na mesma velocidade da luz em que o Ifood prepara o seu pedido, ela me rebateu:
– Não tio, eu não me enganei não! Hoje acordei com vontade de usar meias trocadas, é só isso!

Eu achei essa pequena transgressão tão impactante e inédita na minha vida, que sempre me lembro da Amanda quando quero seguir o meu impulso primitivo do Rui sendo Rui, mas me vem aquela voz interna chata mono-tom, resquício do comportamento coletivo de manada, me dizendo que aquilo seria estranho ou chocante aos olhos dos outros.
Aliás, ontem, comprei para a minha próxima viagem, a mala de bordo com as medidas 55 x 35 x 23 cm aprovadas pela ANAC.
Foi amor à primeira vista, da minha cor preferida!

Quem não gostou, foda-se! , pois eu adorei!
Agora além da moto amarela cheguei, tenho a mala, também amarela cheguei, que orna com a moto.
Nos encontros da tribo, sempre tem um desgraçado infeliz que me provoca dizendo que hoje tem entrega do Mercado Livre ou dos Correios…

Como dizia um pica-grossa da Imerys ao final das reuniões:
O takeaway de hoje é:
“Fazer todos os dias o que você faria no último dia da sua vida, sem se trair e sem medo do ridículo, porque o máximo que poderá acontecer é você morrer, o que certamente ocorrerá um dia.
Mas antes de perder a consciência você pensará:
Pelo menos parto daqui feliz por ter vivido e não apenas existido e sobrevivido!”
Rui Sergio Tsukuda – setembro/24
www.aposenteidessavida.com
Rui, é aquela estória: Não deixe de beber aquele vinho que você está guardando para uma ocasião especial. A ocasião especial é hoje! Beba sem precisar de algo especial, isso não existe, celebre a vida hoje, não espere o seu aniversário prá convidar os amigos para uma festa! Deu vontade, faça a festa, os amigos não vieram, ou não vieram todos, celebre do mesmo jeito!
Grande abraço.
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Oi Montoro, isso mesmo. Pensar que hoje é o último dia de nossas vidas. Obrigado pelo comentário!
Abraço
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Eita Rui, saudades que eu estava das suas crônicas, sempre com a sua identidade!
Penso muito sobre o que discorreu, que a pior traição que podemos ter é com nós mesmos. Também faço de tudo para não tê-la.
Pude ver como você tem vivido intensamente na visita que nos fez e a todos os seus amigos e parentes aqui do PR. É isso que levamos, com certeza.
A propósito, também curto muito amarelo e por isso adorei sua mala e moto! Hahaha
Grande abraço, meu amigo!
Fábio
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Oiê Fábio, padrinho do blog.
Ainda bem que ocê arrumou um tempinho no fds pra ler a crônica.
Não trair à ocê mesmo tem a sua cara.
Abraço e obrigado pelo comentário
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oi Rui, tava sentindo falta das suas crônicas por aqui! Adorei seu texto, admiro quem ousa sempre mais, pois sou do tipo cagona mesmo! Com setenta nas costas tá na hora de não ter medo de nada, não é mesmo? Vou tentar seguir as suas dicas! Ah, veja só, agora eu e Álvaro resolvemos passar mais tempo em Sp ! Montamos nosso cantinho também aqui e aproveitando tudo que essa cidade tem de bom! Venham nos visitar, abraços!!
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Oi Neide, obrigado pelo comentário. Te mandei mensagem no ZAP.bjus
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