No filme Hiroshima, meu amor de 1959, produzido pelo francês Alan Resnais e escrito pela também francesa Margueritte Duras, se passa em Hiroshima no periodo pós-devastação da bomba atômica, retrata a história de um caso de amor entre um arquiteto japonês e uma atriz francesa, que visita o Japão para fazer um filme sobre a paz.

O filme apresenta duas abordagens: uma íntima e uma histórica, que se misturam através do chamado à memória, ao passado, ao esquecimento e ao trauma, a partir da premissa de que isto seria impossível após os horrores da bomba atômica.
E nessa tentativa de captar algo que testemunho nenhum pode comunicar, eles realizam uma obra-prima única, de um lirismo incomparável numa película, que consiste apenas de um longo diálogo entre os protagonistas.
Os flashes desse filme cult que assisti há muitos anos atrás, vieram à minha mente, enquanto caminhava ontem ao visitar o Museu Memorial da Paz de Hiroshima e o Domo da Bomba Atômica, que foi preservado destruído desde 1945.

Junto às lembranças do filme, cantarolei bem baixinho a canção a Rosa de Hiroshima somente para eu ouvir. Esse poema belíssimo escrito em 1946 por Vinícius de Moraes e musicado bem mais tarde por Gerson Conrad em 1973, ficou imortalizado na voz de Ney Matogrosso.

Na entrada da exposição, uma maquete da cidade de Hiroshima, turbinada por um áudio visual high-tech, mostra aos visitantes a tragédia como um filme 3 D. A Hiroshima antes e depois da explosão da bomba atômica é incrivelmente verdadeira.

Da visão do coronel Paul W. Tibbets Jr no cockpit do avião Enola Gay, é possível ver a bomba Little Boy caindo no epicentro da explosão, que fica localizado bem ao lado do museu. No local, há um monumento com uma chama sempre acesa ressaltando esse marco histórico.

A explosão que se seguiu pouco antes do contato ao solo é muito impactante. A maquete da cidade, que antes era verde e cheia de vida, de repente, fica cinza, imóvel e triste.

Após essa sensibilização inicial, fotos gigantescas de vários metros que acompanham toda a sinuosidade do circuito, retratam a cidade antes e depois de 6 de agosto de 1945.
Um relógio de parede recuperado dos escombros, mostra 8:15 h. O exato momento da explosão da bomba que marcou o mundo pelo ineditismo do uso de uma arma atômica contra civis e selou o fim da Segunda Guerra Mundial, junto com a explosão da bomba Fat Man, três dias depois em Nagasaki.

Impressionei-me com uma soleira de um prédio próximo ao epicentro da explosão recuperada e recolhida ao museu, onde as sombras escuras marcadas no granito, são os restos mortais de uma pessoa, que poderia estar ali sentada pensando na vida ou apenas descansando da caminhada da manhã, que foi instantâneamente pulverizada pela explosão da bomba.

Na penumbra proposital dos labirintos dos corredores do museu, uma multidão de turistas de todas as cores e credos, acompanhavam silenciosamente com olhar de espanto e indignação a sequência de fotos das vítimas e seus objetos pessoais, tudo perfeitamente focado e iluminado por uma luz branca.
Assim como num trem de horrores de um parque de diversões por aí, que no trajeto somos surpreendidos por uma caveira ou fantasma que surge do nada e nos assusta.
No trajeto da exposição, mais aterrorizado eu ficava principalmente com os filmes em preto e branco, mostrando as vítimas nos hospitais improvisados, em sua maioria com queimaduras horríveis e corpos multilados, com a única diferença do parque Guanabara de BH, que tudo aqui é muito real e tristemente verdadeiro.
Fiquei com desejo de trazer o físico Oppenhemer, Einstein, Truman e também o piloto do avião Enola Gay de volta para o futuro de 6 de agosto de 1945 para 12 de outubro de 2024, através do DeLorean do professor Brown e lhes confrontar:
– Viram a merda que vocês fizeram?

Mas depois mais calmo refleti:
– Não, ninguém tem culpa. Guerra é guerra e tampouco os japoneses foram santos, haja visto o ataque à Pearl Harbour e as atrocidades incluindo estupros e genocídios, que os meus patrícios fizeram com os coreanos, chineses e o tantos outros povos da Ásia nos anos de ocupação nesses países.
Apesar do final da exposição culminar com um clímax bem elaborado, para que a tragédia de Hiroshima nunca mais se repita no mundo, sou cético com relação a este tema.
Infelizmente, penso que estamos tão próximos de repetir o uso de um artefato nuclear, quanto estivemos em 1961 durante a Guerra Fria, no evento da Baía dos Porcos em Cuba, que parecerão as explosões de Hiroshima e Nagasaki bombinhas de festa junina de São João.
Os circos atômicos já estão armados pelos inimigos Irã x Israel , Ucrânia x Rússia, Coreia do Norte x Coréia do Sul, China x Taiwan e China x Hong Kong, sempre com o todo poderoso EUA permeando todos os conflitos e uma ONU inoperante e cada vez mais inútil.
O meu racional é que se os EUA, um país democrático, tiveram a triste decisão e o atrevimento para fazer uso da bomba atômica contra civis um dia, como última opção para a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, que insignificantes justificativas precisarão loucos como Putin, Kim Jon Il, Kamenei e Netanyahu, para apertarem os seus botões vermelhos?
Rui Sergio Tsukuda – outubro/24
www.aposenteidessavida.com
Rui, no dia da bomba de Hiroshima meu pai completou 22 anos de idade e acho que desde então ele nunca mais comemorou seu aniversário com alegria e tranquilidade. Nós, seus filhos e nossa mãe sempre nos lembrávamos dessa data como o dia das badaladas de um sino, triste e melancólico anunciando que nesse dia houve muito sofrimento do outro lado do nosso planeta azul!
Qdo eu for ao Japão vou me lembrar de sua crônica e da canção emocionante de Gerson Conrad e Vinícius de Moraes na voz de Ney Matogrosso! Fica aqui o meu protesto: – parem com as guerras, queremos viver em paz, no mundo inteiro!
Abraços Rui, obrigada!!
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Oi Neide, eu não sabia dessa informação sobre o tio Otoiti. Obrigado viu!
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