Tibúrcio

Existem chefes que passam pela vida da gente que deixam marcas e outros vão mais além e deixam também cicatrizes. Tibúrcio foi um desses últimos.

Embora eu não me reportasse diretamente a ele na refinaria de alumina, era como se ele fosse o meu chefe. Aliás, na prática, ele era o chefe desde o operador ao superintendente da refinaria.

Ele literalmente não fazia distinção de gênero, raça e credo. Ele era o verdadeiro onívoro, almoçava e jantava todo mundo sem cerimônia.

Passou na frente dele, ele pegava…

Adonay, um colega engenheiro também, deverá com certeza se lembrar do constrangimento que passou ao encontrá-lo pela primeira vez.

Ao topar com ele na área da precipitação, ouviu dele:

Yield ( em inglês, produtividade) ?

“Não, eu me chamo Adonay , muito prazer ! Você deve ser o Tibúrcio, né ? ” respondeu ele ingenuamente sorrindo.

Não me lembro qual foi a resposta do Tibúrcio, mas sei que Adonay nunca mais foi o mesmo desde então ….

Com certeza até hoje naquela refinaria, passados 20 anos, esse episódio de contato imediato do terceiro grau ainda deve fazer parte do anedotario de lá, assim como outros causos dele.

Na época, passávamos na usina por um problema crônico de anos de não atingimento das metas de produção de alumina.

Havia uma grande expectativa dos acionistas e portanto muita pressão para que nós finalmente atingíssemos o novo plano operacional proporcional ao investimento de milhões de dólares já desembolsado. Embora trabalhássemos duro, sempre ficávamos abaixo das metas de produção e os decepcionava ano a ano.

Foi nesse cenário conturbado, que o malvado entrou na história. Entrou como um técnico de futebol de um time de bons jogadores, mas que há anos não ganhava um título, sequer um estadual.

Com certeza, a alta direção da empresa escolheu Tibúrcio a dedo para virar o jogo. Ele era ogro, tosco, mal educado e durão como Charles Bronson. Mas não havia como negar, ele entregara ótimos resultados nas unidades da empresa por onde passou !

Se os chefes “normais” não deram conta, quem sabe um fora da curva salvaria a pátria, deve ter sido o racional dela.

Para Tibúrcio valia aquela máxima:

” Se não for por amor será pela dor, mas não sei porque a primeira parte do ditado ele sempre pulava … ”

Teve até um colega que anonimamente utilizou o programa “Fale com o Presidente” da empresa para perguntar a ele como permitiu o Tibúrcio, que não tinha nada do perfil dos líderes da empresa, ocupar uma posição tão importante como gerente da refinaria.

A resposta do presidente foi curta e grossa: ” Ele deu resultado por onde passou e ele vai fazer o mesmo na refinaria, simples assim.”

Quando eu fui apresentado ao Tibúrcio, tentei quebrar o clima com um sorriso e estendi de praxe o meu braço direito para cumprimentá-lo, ansioso pela sua réplica.

Ainda bem que eu desisti de receber a contrapartida, porque senão estaria até hoje com meu braço e mão estendidos no ar …

Tibúrcio, de cara fechada, vestindo uniforme de cor de cinza da empresa, como qualquer engenheiro ou operador, foi direto ao ponto:

” Rui, você é um engenheiro de processo consultor sênior, portanto deve saber muito do processo Bayer, certo ? “

” Sim Tibúrcio, há 13 anos eu só faço isso na vida depois que saí da universidade”

” OK, eu por outro lado, não sei nada de alumina e ganhei no colo o desafio de ser gerente dessa refinaria e preciso fazer isso aqui dar resultado.”

Em seguida complementou à seco:

” Você tem uma semana para me ensinar o que você sabe do processo Bayer pra mim!”

“Mas Tibúrcio, uma semana é muito pouco, veja bem… eu estou estudando o processo Bayer há muito tempo e pouco sei ainda. ”

” Vejo que você é lento e não pega as coisas no ar, né ? Não tenho nenhuma pretensão ou interesse em ser um especialista em alumina como você, eu preciso apenas que você me ensine em pouco tempo os pontos chaves do processo Bayer para que eu possa cobrar o time pelo resultado e não seja enrolado por eles. Entendeu ?

“Sim, Tibúrcio ”

Então durante uma semana, eu fui diariamente à sua sala para as sessões de duas a três horas para entregar o ouro ao bandido.

Eu sabia que ao fazê-lo, eu estaria criando um monstro e tinha certeza que em breve eu provaria do meu próprio veneno…

Mas fazer o quê, qual outra opção eu tinha ?

Tibúrcio, muito astuto e aplicado às aulas, foi um aluno de processo Bayer dedicado. Pegava as coisas muito fácil.

Quando eu me animava nas explicações e ficava prolixo, ele falava pra mim curto e grosso:

” Rui, para de encher linguiça e vá direto ao ponto. Que saco! “

Já dei treinamento a muita gente na minha carreira, mas Tibúrcio sempre será lembrado como o aluno mais mal educado que já tive.

Ao final das sessões , eu lhe disse: ” Bom Tibúrcio, era isso ! Terminamos”

” Agora você está pronto para nos ferrar ” , foi o que pensei.

Sem nenhum obrigado, partimos juntos para a primeira reunião com o time da refinaria, seria o début dele.

A reunião começou relaxada, porque ainda naquele dia, boa parte do time da refinaria ainda não imaginava como o novo chefe funcionava.

Mas bastou um superintendente chegar atrasado à reunião, para o clima ir de céu azul de brigadeiro a tempestade grau 9:

” Sergei, porque você chegou atrasado à reunião ?”

“Tibúrcio, é que eu estava resolvendo um problema nas caldeiras, me desculpe… “

“Então, volta pra lá vai ! Tenho a impressão que o seu problema na área é muito mais importante que a nossa reunião. Na minha reunião ninguém chega atrasado”

Com o rabinho entre as pernas, o superintendente colocou novamente o seu capacete na cabeça e saiu da sala visivelmente abatido.

A mensagem nada subliminar já havia sido dada a todos… se ele jantou um superintendente de área na frente de todos, imagina quando ele me pegar, foi o pensamento de todos.

Em seguida pegou o Ricardo, também engenheiro de processos como eu, e começou a apertá-lo como uma cobra sucuri que a cada esvaziada do pulmão da presa aumenta um pouco mais a constrição até finalmente matá-la por asfixia.

A técnica dele consistia em deixar a vítima começar a discorrer brevemente sobre o problema, em seguida ele lançava o primeiro PORQUE e começava então a apertar o torniquete com argumentos até coerentes, depois vinha o segundo PORQUE. No terceiro PORQUE, a presa já agonizava…

Com o Tibúrcio, eu nunca vi ninguém chegar ao quarto PORQUE…. Ele era tão esperto que enganava muito bem, parecendo à primeira vista ser um grande conhecedor do processo Bayer, tinha o raciocínio rápido e fazia muito bem as correlações dos parâmetros de processo, como poucos.

Na saída da reunião, Ricardo me deu um tampinha nas costas e ironizou:

“Parabéns Rui, você foi um ótimo professor de Bayer ao Tibúrcio, ele aprendeu muito rápido”

Eu naquele momento me senti muito mal, como um Judas dos meus colegas.

Mas a minha primeira vez não tardaria a chegar …

Naquele dia havia um problema sério de performance dos floculantes nos espessadores que estava ocasionando perda de produção da refinaria.

Ao chegar à reunião diária de processo, ser sabatinado por ele e sobreviver somente até o segundo PORQUE , Tibúrcio me fuzilou sem dó nem piedade:

” Rui, você está boiando igual a merda na privada! Pare de me enrolar e encontre a solução, você está perdido igual a cachorro que acabou de cair de um caminhão de mudanças. Nos falamos à 5 da tarde na minha sala, sem falta ! ”

Interessante que quando Tibúrcio jantava alguém, a sua refeição era sempre em público com plateia e todos cabisbaixos se seguravam para não rir da desgraça alheia, porque sabiam que a próxima vítima poderia ser um deles.

Mas muitas vezes era difícil não rir do colega sendo comido vivo.

Uma vez, numa reunião, ele descrevendo um acidente em que a polia de um lixador se partiu e acertou em cheio a área de lazer do mantenedor, um participante da reunião deixou escapar um sussurro de uma risada discreta. Tibúrcio atento, no mesmo momento, interrompeu a sua fala e disse ao colega:

” Amigo, queria ver se o corte fosse nos seus testículos você acharia tão engraçado ” e voltou ao assunto para complementar o acidente, sem esboçar nenhum sorriso.

Ou quando ele falou irritadíssimo para um outro superintendente…

” Se você não conseguir encher o navio de alumina a tempo para o embarque no dia combinado, sabe que eu vou fazer… e abrindo os braços falou: Vou te amarrar na proa do navio como o Leonardo de Caprio em O Titanic e te mandar para a Europa” .

Mas a minha lembrança mais latente que tenho do Tibúrcio foi quando eu estava como coordenador de produção num domingo à noite e era responsável por toda a refinaria naquele turno.

Para quem não é familiarizado, a refinaria de alumina é um complexo fabril interligado com grandes equipamentos, que mesmo agrupados tem alguns quilômetros de extensão.

Lá pelas 2 horas da manhã, o meu operador da calcinação de turno do nada, simplesmente desligou os fornos, sem nenhum aviso prévio.

A parada dos fornos de calcinação na refinaria é um evento sério. Quando necessário, é muito bem planejado porque implica em parar em sequência toda a usina até a moagem de bauxita, que é o início do processo.

Quando fui informado pelo rádio da tragédia, imaginei inicialmente tratar- se de uma sabotagem, porque já tinha presenciado em outra refinaria, um ativista do sindicato desligar um forno de calcinação na minha frente. Então peguei correndo o carro e fui à sala de controle do forno voando.

Ao chegar lá, suando muito e arfando perguntei ao operador:

“Ribamar, pelo amor de Deus você tá louco, meu fio ? Por que você parou os fornos ? Já estamos parando toda a refinaria por sua causa.”

” Calma , Rui… ” , foi o que ouvi.

Sem dizer nada mais, ele sacou do bolso um comunicado com o timbre da empresa e me entregou. Nele estavam listados os compromissos dos colaboradores baseados nos valores da empresa. Num dos itens, ele tomara o cuidado de grifar com caneta marca texto amarela. Lá dizia mais ou menos assim:

” Eu nunca colocarei em risco o meio ambiente e a segurança em favorecimento da produção e o lucro”

Depois ele disse:

” Chefe, isso que está escrito aqui vale ou é para inglês ver? Os fornos estavam com a emissão de particulados de alumina pelo menos 50% acima do permitido. Não tive outra alternativa senão desligá-los, fiz certo ou não fiz ?”

Confesso que na minha carreira de mais de 33 anos de engenheiro químico, nunca recebi uma resposta tão consciente e coerente, mas dura ao mesmo tempo de um subordinado.

Depois de me sentar numa cadeira e respirar fundo, eu falei:

“Cara, cá entre nós eu acho que você está certo, mas será que o Tibúrcio achará o mesmo?

Em seguida complementei: “Mas você poderia ter me avisado para que planejássemos melhor essa parada, ah poderia. ..”

Puxei o ar mais duas ou três vezes, ainda tremendo, peguei o telefone fixo e parti para a missão mais difícil que era avisar ao chefe do ocorrido.

Interromper o sono de um chefe na madrugada já é ruim, imagina para contar-lhe que a refinaria está parada…

Naquele momento preferi a estratégia de aplicar a Benzetacil de uma só vez do que apertar o embolo da seringa aos pouquinhos.

“Se for para sentir dor , que seja de uma vez só” , foi o que pensei.

Ele atendeu ao telefone com voz de sono e eu sem boa noite sem nada, disparei.

Tibúrcio, a refinaria tá parada ! “

No mesmo instante, do outro lado da linha, eu ouvi um grito que eu me lembro até hoje, que com certeza acordou toda a sua família e os vizinhos de sua casa.

E continuou gritando completamente transtornado….

” Rui , você tá louco. Quer ser demitido por justa causa agora no meio da noite ? “

” Calma Tibúrcio… Foi Ribamar, o operador do forno parou os dois fornos porque a emissão de particulados de alumina estava muito alta, ele me trucou me mostrando aquele comunicado que demos a eles com os compromissos dos colaboradores baseados nos valores da empresa , lembra dele?

E frisou aquela parte que nós nunca iríamos comprometer o meio ambiente e a segurança em favorecimento do lucro e produção. ”

Em seguida eu descarreguei a banca** colocando-o contra a parede:

“Ele agiu certo, ou não Tibúrcio ?

**Para quem não é familiarizado com o jogo do bicho, o termo descarregar a banca é uma estratégia utilizada pelos bicheiros, quando se recebe uma aposta vultuosa numa milhar seca, por exemplo de 5000 reais.

Como o prêmio é muito grande de até milhões de reais, caso a aposta seja premiada, se faz por prevenção a mesma aposta idêntica de mesmo valor em outra banca numa cidade vizinha normalmente maior, esta banca por sua vez descarrega em outra e assim sucessivamente ….assim reduz-se o risco de “quebrar a banca” das cidades menores.

Em seguida, aguardei em silêncio a sua resposta.

Curiosamente, Tibúrcio baixou o tom da sua voz como eu nunca tinha visto até então e voltou falando como um gatinho.

Sim , Rui ele agiu certo, nunca vamos prejudicar o meio ambiente e segurança pela ganância do lucro ou produção. É um compromisso da empresa que reafirmo aqui com você”

Logo depois, voltou a ser o leão de sempre e voltou a gritar:

” Agora a bola tá com você Rui, resolva isso logo acorde todo mundo pra ir aí para resolver logo essa MERDA para gente religar ASAP a refinaria e me mantenha informado!”

” Sim chefe! ”

Tivemos sorte, ainda na manhã daquele dia a refinaria e os fornos já haviam voltado a operar com a emissão de particulados de alumina na faixa de trabalho aceitável.

Ao final daquele ano, depois de muito sofrimento e dor, entre mortos e feridos, finalmente conseguimos atingir a nossa meta de produção anual de alumina.

Logo depois, para a nossa felicidade, Tibúrcio foi promovido e transferido para outra refinaria da empresa no Caribe, com certeza para arrumar outra casa por lá.

Todos nós o parabenizamos muito pela sua promoção com “sinceros” tapinhas nas costas. Houve até banda comemorando a sua saída !

Apesar de termos atingido o inédito plano operacional da refinaria naquele ano, um líder como o Tibúrcio não seria aceitável no mundo de hoje.

Seria um ser anacrônico. Mas caso ainda existam Tibúrcios soltos por aí ainda perdidos nas selvas corporativas, é com certeza uma espécie em extinção e um prato cheio para advogados ansiosos para se enriquecerem com os processos de assédio moral que existem por aí aos quilos tramitando na justiça.

Ainda hoje, passados mais de 20 anos, me pego pensando se Tibúrcio era assim mesmo ou ele encarnava um personagem de ficção muito bem bolado.

Prefiro pensar que embaixo daquele uniforme cinza, tinha um grande ator de bom coração que atuava muito bem e que mereceria uma estatueta do Oscar, pois sou antes de tudo, um otimista por natureza.

Rui Sergio Tsukuda – setembro/21

https://aposenteidessavida.com/

4 comentários em “Tibúrcio

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