Relato de um obeso crônico

Sou gordinho desde que me conheço por gente … Eu fui magro somente até os oito anos, quando eu tive a hepatite tipo A (daquele tipo que a gente faz xixi da cor de conhaque), que me obrigou a ficar num quarto isolado de tudo e de todos por dois meses. Nesse período, eu só comi e não fiz nenhuma atividade física.

Ao sair da quarentena, voilá : Eu havia me transformado num gordinho! Gordinho aliás, é um diminutivo simpático para amenizar o adjetivo gordo. Porque gordo choca muito, né?

Já a minha mãe, sempre culpou a farinha láctea Nestlé pela minha obesidade, que eu ingeri diariamente desde pequeno.

Muitas vezes ao me ver, ela dizia:

” Onde foi que eu errei, meu Deus ?” deve ter sido aquela maldita farinha !

Ah … como eu adorava a minha farinha láctea Nestlé com leite integral bem gelado e muito açúcar ! Comer então as bolinhas de farinha que se formavam sobre a emulsão, pastosas por fora e durinhas por dentro, que boiavam na superfície do copo, não tinha preço.

Naquele tempo, nos anos 70 / 80, ninguém falava em low carb ou calorias vazias, o inimigo da vez era a gordura saturada.

Um dia desses, meio chateado da vida, decidi chutar o balde e me dar de presente uma lata de farinha láctea Nestlé e voltar no tempo à minha querida e velha infância.

Para a minha decepção, logo percebi que as deliciosas bolinhas boiando no copo não se formaram. Ao ler o rótulo do produto estava escrito: ” instantâneo” . Que tristeza meu Deus, mataram o meu produto !

Ser obeso desde a infância, foi sem dúvida um componente importante e decisivo para a formação da minha personalidade e ser o que sou hoje. Como de alguma maneira eu consegui lidar com essa questão, acredito que sou um gordinho sem traumas, até bem resolvido.

Ser chamado de baleia sistematicamente pelo meu irmão mais velho e colegas de infância, ser deixado de lado ou ser escolhido por último para jogar no máximo no gol ou de zagueiro nas peladas dos colegas, embora isso tenha doído na minha alma na época, contribuiu para no meu caso, formar um couro bem resistente às intempéries.

Aqui não, neném, não vem de garfo que hoje é dia de sopa! Depois de um tempo, ninguém da escola me chamava mais de baleia, gordo e nem gordinho, porque eu reagia e partia pra cima da molecada.

Só não dava para obrigar os meninos bons de bola a me escolherem primeiro nas peladas. Não tinha jeito: Ou eu era o último ou o penúltimo a ser escolhido…

Teve uma vez que até se esqueceram de mim e de outro gordinho, meu amigo. Ao reclamar, eu ouvi deles:

“Hoje você fica com o Marcos ou com o Rui? Vai, hoje eu fico com o Rui e você com o Marcos. No próximo jogo a gente troca …

Tanto faz mesmo… eles não jogam nada de tão gordos e lerdos que são.” kkkk

Quando se vêem crianças brincando num pátio de escola, não se tem noção o quanto aqueles lindos seres inofensivos podem ser naturalmente perversos.

Lá o respeito e o cuidado com as diferenças, ainda não foi aprendido ou sequer ensinado e qualquer coleguinha que foge do padrão estabelecido sofre e muito !

Os gordinhos(as), coitados(as) talvez sejam as primeiras vítimas.

Bastou um deles chamar o amiguinho de baleia, porque ouviu um dia, o pai ou mãe chamar um amigo carinhosamente pelo maior animal marinho, todos os outros da sala de aula repetem em coro:

” Baleia, baleia , baleia !” Infelizmente acredito ser esse um comportamento universal da petizada que vale aqui, na Jamaica, Nova Zelândia ou no Japão.

Os pais do filho cetáceo, a princípio, nada podem fazer, pois os algozes são apenas crianças, seres inimputáveis e sem maldade.

Entretanto, quando a minha caçula chegou em casa chorando, porque um amiguinho havia zombado do sotaque nordestino dela (Não, graças a Deus nenhum dos meus filhos é obeso. Ufa, dessa eu escapei ! ). Não tive dúvidas, liguei para o moleque e dei um sermão nele de dez minutos.

Curiosamente, ele nunca mais fez bullying com ela e fugia de mim ao me ver na escola como Superman evita o mineral kryptonita.

Esperei ser chamado pela direção do Marista, acionada pelos pais dele, eventualmente indignados com a minha atitude intempestiva, mas até hoje ainda o telefone de casa não tocou…

Confesso que me arrependo por ter agido como uma galinha de pintinhos novos. Hoje melhor acabado, teria adotado outra estratégia, talvez conversando com os pais e preservando o menino.

A única vez na vida que consegui ficar magro, foi quando me apaixonei perdidamente por uma garota. E por ela me desapaixonei pela primeira vez da comida ! Foi um período inesquecível de alguns meses em que eu comi luz, literalmente, como na canção O Brejo da Cruz de Chico Buarque de Hollanda.

Fiquei até 3 dias sem comer nada, sem um pingo de fome, sem ajuda de nenhuma droga e feliz ! Eu só pensava e vivia por ela, consequentemente, perdi 16 quilos em poucas semanas.

Ao atingir o peso de 80 quilos, tinha a ilusão de que ao chegar na minha meta, alguma coisa grande e significativa aconteceria na minha vida.

Mas para a minha surpresa e decepção, nada mudou e eu continuava a ser o mesmo. Apenas as minhas calças estavam bem frouxas e a pele ficou um pouco flácida. Então pensei:

” Caramba, isso é ser magro ?” Então, logo me desapaixonei da garota e voltei ao meu amor antigo, a comida. Recuperei todo o peso e mais um pouco, assim fui apresentado pela primeira vez ao efeito sanfona ou iô-iô.

Se alguém me perguntasse agora se alguma vez na minha vida ser gordo foi uma vantagem, eu responderia que apenas uma vez isso aconteceu…

O ano era 1985, eu era estagiário de engenharia química no Grupo Duas Rodas em Jaraguá do Sul – SC, que fabrica essências e aromas de alimentos, entre outros produtos.

Depois de alguns meses trabalhando lá, fui convidado para fazer parte do grupo de degustadores da empresa, apenas por um dia, substituindo um integrante da equipe que naquele dia faltara ao trabalho.

Para quem não sabe, numa fábrica de alimentos, o controle de qualidade com testes físico-químicos é complementado com a degustação de produtos, cujo nome técnico é análise sensorial, que consiste em comparar um lote recém fabricado de um produto, com um lote padrão aprovado, chamado de referência.

Naquele dia, foi degustado milk shake de chocolate, panetone e sorvete de creme, preparados com os produtos da empresa. Após provar as delícias e dar as minhas notas e impressões, inesperadamente eu fui chamado à sala da diretoria.

” Ué, será que eu fiz algo de errado? ” foi o meu pensamento inicial.

Fiquei mais tranquilo quando me informaram que o Sr Hufenussler, proprietário da empresa queria apenas me conhecer pessoalmente.

Ao chegar na sala dele, que era muito imponente, rica em diplomas, fotos e certificados pregados nas parede, ele me cumprimentou educadamente e depois me perguntou com forte sotaque alemão:

” Rui, não sabíamos que o senhor era um degustador experiente, em qual instituição se formou ? “

“Desculpe senhor, mas não sou um degustador. Hoje foi a primeira vez que tive essa experiência e gostei muito, viu ? “

” Incrível, o senhor sabia que tem um talento nato ? A sua análise sensorial de hoje dos nossos produtos foi perfeita, as notas e observações foram precisas e ricas, parecidas às minhas.

E note que eu há mais de 40 anos faço a degustação dos produtos daqui e quando jovem fiz curso de análise sensorial em uma universidade da Alemanha. Qual é o seu segredo ? “

Sr Hufenussler, não tenho nenhum segredo, não. Ou melhor, talvez o meu segredo seja ser gordo ! Como eu gosto muito de comer desde pequeno, devo ter aprimorado o meu paladar pela comida ao longo dos anos, talvez seja isso.

No código de ética informal dos obesos, só um gordo pode falar de outro fofo. Se um magro falar mal de um gordo é gordofobia e todos caem matando !

Quem já encostou ou bateu o carro numa moto de motoboy na rua, sabe como isso funciona muito bem. Do nada você é cercado por alguns motoboys na rua e é intimidado.

Mexeu com um(a), mexeu com todos(as) ! é assim como todas as tribos de hoje funcionam.

Apesar de ter simpatia pela nossa causa, discordo da pauta do movimento plus size, naquela parte em que se faz nas entrelinhas apologia à gordura.

Uma coisa é lutar para que se tenham roupas descoladas tamanho XXG ou maiores expostas nas vitrines, cadeiras tamanho classe executiva exclusiva aos nossos semelhantes nos aviões e cadeiras de plástico de boteco robustas o suficiente para resistir sem gemer a mais de 150 quilos de peso, outra coisa porém, é fechar os olhos e dizer que o excesso de peso não faz mal à saúde.

Fat não é beautiful ! Seria como o fumante insistir que cigarro não faz mal ao pulmão, traqueia, esôfago, boca, laringe…

Obesos com todas as taxas de sangue normais sem medicamentos, caso existam, seriam provavelmente falsos-negativos. Sempre seremos uma bomba relógio pronta para explodir a qualquer momento, como a Dona Redonda em Saramandaia.

Não tem como negar, a obesidade é uma doença multifatorial e complexa que precisa ser tratada e enfrentada de frente. O primeiro passo porém, é reconhecer que o problema existe.

Gostaria de passar aqui gratuitamente a vocês a minha receita vencedora para emagrecer, mas embora tenha tentado de quase tudo durante 46 anos, desde dietas a medicamentos de ponta caríssimos, nada para mim se mostrou sustentável ao longo do tempo, infelizmente.

Apesar disso, depois de muito esforço, tenho me mantido na faixa da obesidade 1, o que é um pequeno consolo…

Mas continuo na luta, não desisto nunca !

A inveja é um pecado capital odioso, mas hoje foi suavizado pelo termo inveja branca, que me permito usá-la desta vez … Pois bem, estar em dieta sem fim e sentar-se numa mesa de lanchonete ou restaurante ao lado de um ser longilíneo e magro por natureza como o meu grande amigo Fábio Oliveira é de dar uma inveja branca desgraçada !

No Café dos Motoristas, parada tradicional de BH em direção a Arcos e Capitólio, ele comia até três pães de queijo ou de sal recheados com linguiça ou pernil com guaraná com açúcar. Eu por outro lado, ficava com o meu pão de queijo magro e pobre, sem nenhum recheio e um café com adoçante super sem graça.

Não bastasse isso, o pior era ainda ter que ouvir ele me perguntar:

” Só isso, Rui ? ” e depois dele se empanturrar, ouvir também:

” É, hoje exagerei … preciso compensar no almoço e jantar, senão vou engordar, já estou no meu limite ! ”

Eu nesse momento olhava pra ele e pensava:

” É o mundo é muito injusto… eu só de olhar para a comida, já engordo. Outros afortunados como ele podem comer o que e o quanto quiserem que sempre serão magros ! “

Quando passava nos anos 90 a famosa propaganda do guaraná Antártica da DMPDDB do Nizan Guanaes, em que mostrava um pedaço de uma pizza sendo abduzido da forma por uma espátula, esticando sensualmente os fios da mussarela derretida, parecendo a ponte estaiada do rio Pinheiros em São Paulo e um jingle poderoso ao fundo embalando o vídeo, eu confesso que a minha boca imediatamente se enchia de saliva, ansiando pelo alimento, já iniciando a pré-digestão e eu sentia o sabor da pizza já harmonizando com o guaraná na minha boca .

” E-eu não vejo a hora, de te cortar
Te ver mais uma vez, te saborear
Meia mussarela, meia aliche ou calabresa
Romana, 4 queijos, marguerita e portuguesa
Como é bom te ver você chegou na hora H
Adoro pizza com Guaraná”

Aí eu lhes pergunto: Como manter a dieta com uma propaganda dessa na cabeça da gente?

Diferente de um alcoólatra que na primeira reunião do AA é convidado a resistir ao primeiro gole e pode ser gabar pela vitória de ficar pelo menos um dia sem beber, nós obesos dormimos com o inimigo e precisamos dele para viver, simplesmente não podemos prescindir da comida, ela sempre fará parte das nossas vidas.

Ao movimento body positivity ou body acceptance, na parte em que toca os fofinhos, eu sugeriria para aceitarmos os nossos corpos roliços somente “enquanto” formos gordos(as).

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é sem-titulo0jkjj.png

Assim nos livramos do compromisso de sempre termos as formas arredondadas e podemos tentar calados(as) emagrecer e depois manter a silhueta esbelta, o que é mais difícil ainda.

Parece piada, mas tem muita modelo plus size que sofreu bullying das gordinhas somente por ter emagrecido.

Vai entender, né ?

Rui Sergio Tsukuda – setembro/21

https://aposenteidessavida.com/

4 comentários em “Relato de um obeso crônico

    1. Olá Léo, a ideia é falar de coisa séria com leveza. O humor é uma boa ferramenta para alcançar esse objetivo. Por exemplo …Ao ler o texto, quem sabe mães e pais não tenham inspiração para perceber o que se passa com suas crias e agir. Obesidade não é só perigosa do ponto de vista físico, mexe muito com a cabeça e autoestima.
      Obrigado pelo seu comentário, como você exalta, é a troca com os leitores, embora rara, que nos estimula a escrever. Abraço

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: