Pais e filhos

No poema Enjoadinho, Vinícius de Moraes escreveu:

Filhos, filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?

Quando vejo nas raras vezes que vou ao shoppping, meninos(as) mimados(as) dando piti e sendo gentilmente arrastados(as) pelos pais no corredor, eu me lembro de um outro verso do Poetinha em Cotidiano 2

Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural

A caçula, numa discussão feia que tivemos dias atrás me perguntou:

“Pai, porque você me gerou?”

Do fundo do meu coração respondi.

“Uai, não sei exatamente minha filha, talvez porque todo mundo que casa tem filhos, respondi. Todo mundo faz, então eu fiz também….”

Percebi que ela ficou muito decepcionada com a resposta à queima roupa, agora vai a minha resposta editada:

“Depois que Lucas nasceu e eu já tinha um companheiro para jogar tênis, pescar e curtir os carros antigos, pedi então a Deus uma menina. E você veio, a nossa flor de Maio para alegrar as nossas vidas e ser companheira da Virgínia. Queria chamá-la de Amanda, mas a sua mãe tinha uma amiga com esse nome que era muito triste, então ela lhe deu o nome de Mariana, que depois eu mudei carinhosamente para Fofa, de tão fofinha que você era. “

O caldo entornou mesmo, quando eu disse a ela que filhos são ótimos até os 10 anos, depois disso, eles deixam de ser bobinhos e percebem que os pais não são os seus heróis. Com a liberdade adquirida por usucapião, jogam na cara os nossos defeitos, que num ambiente externo é passível de processo por calúnia, injúria ou difamação.

“Então você queria era um pet, não uma filha?” continuou a esperta…

Nem respondi….

Onde eu errei com você Rui? Foi a pergunta que sempre ouvi do Seu Mário e da Dona Mariko, meus pais.

Minha mãe ainda rogou uma praga para mim dizendo:

” Rui, você vai saber exatamente o que estou sentindo, quando você tiver os seus próprios filhos!”

Não é que a minha mãe profetisa acertou!

Na canção, Como nossos pais, Elis Regina cantou:

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais

Mas o relacionamento entre pais e filhos hoje é bem diferente o dos anos 70. Se agora permitimos que o senhor e a senhora fiquem de lado. O pronome de tratamento você, não lhes dá o direito de dar um tapa na nossa bunda em cada discussão, mesmo porque o meu derrière e o da Virgínia, não está exposto na janela…

Difícil impor o respeito com tanta intimidade assim.

Mas o que é o respeito, se permitimos que a luta ficasse tão franca? É cada lado tentando achar o ponto fraco do outro, sem filtros e valendo dedo no olho e golpe baixo.

Se antes com meus pais eu ouvia o sermão calado e quando “respondia a eles” pisava em ovos em sinal de respeito, hoje meus filhos jogam pesadíssimo.

O pior dessa batalha, é que o meu oponente ocasional sabe como a mãe deles, os meus pontos fracos. E eles como acupunturistas experientes, sabem muito bem onde colocar as suas agulhas afiadas com precisão.

“Com o seu amigo ou amiga, você fala tantas verdades assim?” , eu pergunto a Lucas e Fofa nas nossas discussões.

“Porque se o fizer será uma vez só! Como aqui vocês sabem que sempre terão o nosso perdão, jogam o filtro no lixo.”

Engraçado que tem vezes, uma vez atacados, eles contra atacam me chamando para a minha responsabilidade de pai:

“Mas você como um pai, não deveria falar isso a um filho!”

É…, aquele bebê que te esperava de braços abertos sorrindo quando você voltava do trabalho, cresceu e te conhece muito bem.

Cada vez mais eu acredito no provérbio, já quase promovido a aforismo:

” Filhos criados, trabalho dobrado! ”

Para finalizar, os tempos são outros, mas com o amor sem fim que pais tem pelos filhos e vice-versa, haverá sempre lugar para o perdão para recomeçarmos e virar de página juntos. E eu sempre falo aos meus filhos para logo ficarmos de bem novamente, porque a vida é muito curta para ser perdida com bobagem.

Poderia ter dito para a minha Fofa também:

“Se você precisar do meu rim para ser transplantado em você, não conte comigo. Mas se precisar do meu coração, eu te dou com maior alegria. Porque um rim, é muito pouco para o amor que tenho por você!”

Aos leitores(as) que tem as suas crias ainda pequenas, aproveitem bem esses poucos anos que lhes restam, porque a partir do momento em que a primeira espinha surgir na carinha rosada do seu amado bebê, você irá ouvir muitas verdades secretas, eu te garanto!

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/22

https://aposenteidessavida.com/

10 comentários em “Pais e filhos

  1. Nossa Rui,essa falou tudo, dependendo do grau da educação,a discussão vai longe,as vezes nos pais tem muita momentos que acreditamos que somos de fato pessoas ruim e duro de lidar.
    Depois da discussão ficamos muito mau.
    Vamos ficar tranquilo Rui, porque o que vale mesmo é a opinião dos filhos.
    Ah quando você ficar velhinho, aí sim, não sabe nem quanto tem na sua conta bancária.
    Abraço Rui.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Hahaha seria comigo se não fosse trágico 😅
    Ainda tenho os meus sem espinhas no rosto, e já é jogo duro… não consigo imaginar o nível do jogo daqui um tempo.
    Bem, aprendi a duras penas com essa pandemia, que o que importa é o agora! Então planto neles diariamente as sementinhas do bem nas quais acredito e sigo minha vida regando elas e amando, sem esperar nada em troca. Apenas acreditando que um dia se tornarão pessoas de bem 🙏🏻

    Curtido por 1 pessoa

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