Não quero saber o preço, quero saber em quantas vezes que parcela!

Ser é mais importante do que ter.

Mas será que algum dia isso foi verdade?

Na semana passada, eu estava sendo atendido num caixa do supermercado Duarte em Desterro de Entre Rios MG. Aproveitando os minutos em que a Virgínia foi apanhar um pacote de orégano para a pizza daquele noite, perguntei a mocinha que estava operando a caixa registradora e ao rapaz que empacotava as compras:

“Estou fazendo uma pesquisa…. Vocês podem me ajudar?”

Sem que lhes desse tempo para responder, emendei:

“Entre um Iphone usado já quase obsoleto e um Motorola novinho do mesmo valor do primeiro, qual dos dois vocês prefeririam?”

Sem titubear os dois responderam:

“Claro que o Iphone!”

Então argumentei:

“Mas esse Iphone tem marcas de uso e logo não aceitará mais novos aplicativos nem atualizações e a tela tá bem riscadinha…”

Mesmo assim eles insistiram:

“Iphone!”

” Mas porque o Iphone é tão especial assim para vocês? ” , provoquei.

A mocinha então respondeu:

“De longe uma pessoa logo percebe que você tem um Iphone, mostrando a ela que você não é um qualquer Zé Ruela… ”

O outro colega completou:

” E um Iphone é um Iphone, né?”

” Ah , tá! “

Ouvindo esse depoimento, eu saquei do meu bolso o meu Motorola One Macro 2018 que ganhei dos meninos, olhei pra ele e pensei:

“Você não tá com nada, meu amigo.”

Uma resposta parecida obtive da Dara, nossa querida diarista e afilhada de casamento. Ela foi mais além, porque na semana seguinte materializou a compra de um Iphone usado que não carrega mais o Uber, deixando o Motorola ou Xiaomi zero km do mesmo valor na prateleira da loja.

Na minha vida passada, as empresas me davam Iphones para usar, mas nunca me toquei do status que este pequeno equipamento fornecia ao seu usuário. Mas depois que aposentei dessa vida e agora dirijo empresa de sonhos, não tive coragem de desembolsar 5000 reais ou mais num aparelhinho desse, tendo em vista que outros genéricos fazem o que ele faz por um quinto do seu valor.

Percebi nessa enquete, que para nós é tão ou mais importante a percepção do outro e nem tanto a satisfação que possuir um bem de consumo nos traz.

E eu infelizmente me incluo nessa tribo, porque se não dou bola para um Iphone 13, última geração, adoro carros super esportivos como Ferrari e Lamborghini.

Mas eu me pergunto:

“Será que eu ainda gostaria de ter uma Ferrari ou Lamborghini, se elas fossem acessíveis a boa parcela da população brasileira com preço, IPVA / seguro e custo de manutenção de um carro popular e topasse a toda hora com uma delas em cada esquina de BH, como se fosse um Golzinho 1.0 aspirado?”

Eu sinceramente confesso que não.

Porque uma vez perdido o apelo do status, um carro desses além da suspensão ser muito dura e inadequada para as estradas esburacadas de Minas, o porta malas dele mal cabe a minha raqueteira de tênis.

E para finalizar, com a minha agilidade comprometida devido a osteoartrose grau 4 do meu joelho direito, eu teria que chamar o SAMU ou os Bombeiros cada vez que precisasse sair do cockpit…. Além de que eles devem beber muito e só gasolina Podium da Petrobrás, que é caríssima.

A resposta de um jogador de futebol a uma repórter, que estava começando a ganhar seus milhões de reais ilustra bem a necessidade de ostentar e impressionar aos outros para deixar bem claro a todos que ele está vencendo na vida.

Ao ser perguntado por ela, porque preferiu comprar com o primeiro salário um carro de luxo alemão do que uma casa confortável, ele respondeu:

“Ué, o carro eu levo em todo lugar e mostro aos outros e tenho ” presença”, já uma casa…”

Do outro lado, o time dos que consideram mais importante ser do que ter, também exageram…

Em 2005, durante uma aula, o meu ex-professor de francês fluente em 6 línguas, que além de professor, é músico e regente de orquestra, mas que não tem onde cair morto, ao saber que o Ronaldo Fenômeno iria se casar com a modelo Daniela Cicarelli no castelo de Chantilly, ficou super indignado e comentou comigo:

“Rui, quem é o Ronaldo para casar no castelo de Chantilly?”

“Inclusive, tenho certeza que ele não sabe nem a pronúncia correta de chantilly, que no francês castiço se pronuncia chantiií e não chantili como a maioria fala.”

“Uai professor, o francês dele deve ser bem fraquinho mesmo e com certeza nem ele, nem a Cicarelli tem a linhagem exigida para se casar nesse castelo tão especial, mas os bilhões de dólares que ele tem de ativos, com certeza pagam a conta desse mimo.”

Não apenas quando envolve bens materiais, continuo ainda com a impressão de que vivemos para agradar e impressionar aos outros e muito pouco para nos satisfazer.

Tem uma piada que ilustra bem isso:

Tinha um rapaz que estava numa pequena ilha do Pacífico acompanhado da Gisele Bundgen perdidos e isolados do mundo. Pela situação que os dois se encontravam, ela acabou cedendo às investidas dele. Num certo momento, ele pediu para ela vestir a roupa dele, colocar o seu chapéu e dar a volta na ilha para que se encontrassem novamente no mesmo lugar depois de uma hora.

Mesmo sem entender o motivo, ela obedeceu. Ao se reencontrar com ela, ele falou bem baixinho no pé d’ouvido dela:

” Rapaz, você num sabe quem eu tô pegando! “

“A Gisele Bundgen, acredita? Não é demais!”

Um outro exemplo é a questão da sua satisfação com o seu salário.

Você pode estar muito satisfeito e feliz com seu salário, mas ao saber numa manhã que o seu colega da baia ao lado, que executa a mesma função que a sua ganha mais, você ficará provavelmente triste e desapontado com essa notícia.

Nesse átimo de tempo o que mudou? O seu salário foi reduzido? As suas despesas aumentaram?

Não nada mudou, apenas você ficou sabendo que o seu colega de trabalho ganha mais do que você …. Tão somente isso!

Quando a TV chegou nos rincões do Brasil nos anos 70/80, houve um problema sério de desajustes familiares porque o universo e valores que a TV mostrava do eixo São Paulo e Rio era muito diferente da vida no interior do Brasil, trazendo muita frustração aos seus habitantes locais.

Os maridos antes satisfeitos com suas companheiras, passaram a olhar para as suas divas, já caidinhas e compará-las com as beldades de biquini de Ipanema ou Leblon, gerando muita frustração. Por sua vez, as esposas buscavam nos seus maridos cansados da lida no campo, as virtudes e os dotes de um Tarciso Meira ou Francisco Cuoco, nos seus melhores tempos.

O fato é que somos seres gregários e precisamos do outro não apenas para nos ajudar e nos proteger. O outro é um espelho, uma referência e o reconhecimento da nossa própria existência, mas também para comparar e competir.

Admiro os poucos que conseguiram desapegar desses valores mundanos e vazios, como Chico Xavier por exemplo. Tenho a convicção que a vida desses seres especiais é muito mais significativa e leve do que a maioria de nós, porque eles vivem a verdade de que viemos nus neste mundo e partiremos apenas com a roupa do corpo, isso se a opção não for a cremação…

É dele a reflexão abaixo:

Para mim e outros ordinários que estão ainda na mesma vala comum dos involuídos, cabe como uma luva o bordão hit do momento do cantor Gusttavo Lima:

“Não quero saber o preço, quero saber em quantas vezes que parcela!”

Rui Sergio Tsukuda – junho/22

https://aposenteidessavida.com/

11 comentários em “Não quero saber o preço, quero saber em quantas vezes que parcela!

  1. Excelente reflexão Rui,pura verdade.
    Rui ,Elon Musk quer conhecer você,como você se apresentará a ele?
    É lógico que você vai tirar do fundo do baú todas as informações possíveis para mostrar a ele que mesmo vindo de família humilde fará excelentes perguntas relevante condizentes com seus ramos de negócios que se tornou um dos homens mais ricos do mundo.
    Na verdade todos nós temos essa tendência de querer causar uma boa impressão mesmo.
    Tal vez é aí que por algum meio podemos nós dar bem ou não.
    Boa sorte e grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Maravilha de crônica, meu amigo! Não tem um que passa ileso pelas suas provocações, hehehe.
    Eu comecei bem com a história do iphone, mas só foi você ir abrangendo o negócio que logo me vi ali.. esse texto do Chico Xavier, então, foi pra me escancarar o quanto deixamos de ver na nossa miopia da vaidade e da insatisfação, né?
    Parabéns!!
    Abraço pra você!

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