Sinal dos tempos

Há alguns meses, aprendi finalmente a “rolar” os reels do Instagram e stories do Facebook, aqueles vídeos curtinhos de alguns segundos de duração. Percebi em pouco tempo que esse hábito se tornou um vício na minha rotina diária, como se fosse uma coceira gostosa, mas incômoda por carregar um quê de culpa por “perder” meu precioso tempo com essa bobagem.

É como comer chocolate Bis… você tem consciência que só tem porcaria na sua formulação, mas que essa gordice é uma delícia, isso é. Falando em gostosuras, por um tempo o Kit Kat ocupou o lugar do Bis no meu coração, mas o danadinho do Bis logo recuperou o seu trono. Mas tem que ser o Bis tradicional, as variantes dele ainda não me conquistaram. Que Lindt ou Kopenhagen que nada, eu quero é o Bis!

Eles, os gestores do Instagram ou Facebook , são tão espertos, que basta você assistir a um vídeo de um carro super esportivo legal por exemplo, que aparecem em seguida “coincidentemente” outros tantos vídeos semelhantes ao primeiro. Então, quando acesso aos meus reels ou stories, aparecem uma sequência infinita de vídeos curtos de carros, motos, cavalos, jogadas de futebol e tênis, comidas de rua, cachorrinhos fofos, paisagens deslumbrantes e lindas garotas bundudas e peitudas…

Confesso que fico por horas pulando de vídeo em vídeo, que nem percebo o tempo passar. Um dia desses, me dei conta do mau uso que tenho feito do meu tempo acordado. O livro O Pintassilgo de Donna Hart tem ficado na estante esperando eu ler o seu último capítulo e o livro Os últimos melhores dias de minha vida de Gilberto Dimenstein e Anna Penido, aguarda pacientemente a sua vez de ser devorado por mim, ainda protegido pelo filme plástico dos Correios.

No começo, eu achava que um minuto de duração de um vídeo era pouco tempo demais, mas rapidamente percebi que um minuto na verdade é muito tempo. Me dei conta que não tenho paciência nem para um minuto mais. Bobeou, a fila já andou. O imediatismo que eu tanto combati me dominou, infelizmente.

Não é à toa que a leitura de textos, como os que eu escrevo se tornaram demodé hoje em dia. Se conseguir um minuto de atenção do espectador é muito complicado, imagine prender a atenção do leitor por longos 10 ou 15 minutos!

Me surpreendo comigo mesmo no que me tornei. Assistindo a infinitos vídeos curtinhos em sequência sem conteúdo nenhum e de antemão sabendo que em nada irá acrescentar na minha existência, como se fossem calorias vazias que engordam mas não alimentam… Às vezes tenho a impressão que ao assistir esses vídeos estou naquele momento pré-sono, quando as imagens vão passando na mente da gente numa sequência aleatória e aparentemente sem sentido.

Por conta desses videozinhos malditos, parei de assistir a sequência de filmes que eu me propus a assistir ao me aposentar, uma lista parecida aos 1000 lugares para conhecer antes de morrer. Dois dos últimos filmes cults que assisti foram do Tarantino Pulp Fiction e Django.

Mas me apaixonei mesmo pela trilha sonora de Parapluies de Cherbourg, cujo filme é de Jacques Demy e trilha sonora de Michel Legrand. O filme aliás é bem fraquinho, mas a canção tema é um deboche como diria o comentarista João Guilherme. Falando em Legrand, ele também musicou O verão de 42. Esse vale a pena assistir pela qualidade da película e ouvir a sua trilha sonora, que é magnífica.

Meu amigo italiano Gino que além de executivo, foi piloto de teste de caça na Itália, me confidenciou baixinho que assistiu ao filme Top Gun 15 vezes, pela sua verosimilhança à pilotagem de um caça! Eu, ao ouvir essa confissão fiquei com vergonha de assumir a ele que assisti ao filme Verão de 42 por pelo menos 10 vezes!

Aqui… O Maverick Cruise tá de volta. Bora esperar os cinemas esvaziarem um pouco…, isso se os reels e stories me deixarem.

Quando olho no meu entorno, seja aqui em casa ou na sala de espera do laboratório Hermes Pardini, aqui no bairro Mangabeiras, vejo que não só o meu benzinho, meus filhos e eu estamos nessa brisa. Tenho a impressão que todo mundo está cada qual no seu mundo autista rolando os seus reels e stories. Eita mundão estranho sô!

Em que planeta eu acordei meu Deus… Saudade do tempo em que a gente se amontoava na sala para assistir a novela Roque Santeiro, todos concentrados na tela da TV 20 polegadas em cores da Sharp, e corria rapidinho no intervalo para fazer o número 1, com medo de perder a próxima cena do sinhozinho Malta e da viúva Porcina.

Dedico esse texto a duas leitoras queridas, Josaine de Tramandai-RS e Neide de Maringá-PR , que gentilmente me lembraram que eu ainda tenho um blog, onde eu costumava escrever antes de aprender a rolar os perversos reels e stories.

Rui Sergio Tsukuda – maio/22

https://aposenteidessavida.com/

13 comentários em “Sinal dos tempos

  1. Opa, Rui, demorou, mas reapareceu!!! Mas no seu tempo de pausa aqui no seu blog aproveitei pra reler suas crônicas anteriores! Continuo “sua fã “e lembro como também gostava de outros escritores, também do Paraná, que escreviam para a Gazeta do Povo, como Cristóvão Tezza, Domingos Pellegrini, Miguel Sanches Neto, Luís Henrique Pelandra, entre outros .
    Sinal dos tempos, como tudo mudou, você tá certo! O que virá daqui pra frente? Abraços Rui, obrigada por lembrar de mim!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sensacional! Que saudades dos seus textos, Rui.. também ando parado, mas quase que por obrigação, sufocado pela rotina diária e clamando por férias para tomar um bom ar.
    Sua sinceridade, envolvência e sensibilidade voltaram a dar o ar da graça. Que elas não deixem os reels, stories e outras asneiras viciantes ganharem por muito tempo! hehehe
    Abração, meu amigo. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: