Qual a maneira certa de enterrar a sua sogra?

Com o caixão de ponta cabeça… porque vai que ela tenha catalepsia, acorde e consiga sair do caixão, pelo menos ela cavará terra abaixo em direção ao Japão!

A sogra normalmente habita o imaginário de genros e noras, como aquele ser que veio de contra-peso no combo só pra fazer volume, que insiste em arruinar o casamento do casal e de tabela estraga a educação dos netos.

Coca Cola, Kit Kat ou jujuba? Aqui na casa da vovó pode!

Embora a relação sogra-genro seja a mais folclorizada, eu acho que a relação sogra-nora é onde o bicho pega ainda mais, porque na mente da sogra, a nora sequestrou o seu adorado filhinho. Daí aquele ditado em que a sogra diz que quando a filha casa, ela ganha um filho. Mas se for o oposto, perde-se o filho…

A relação da Virgínia com a minha mãe, dona Mariko, foi complicada no início. A ponto de antes de eu me casar, a minha mãe enviar uma carta para mim listando os motivos pelos quais eu não deveria casar com a minha noiva goiana.

Mas depois que Lucas e Mariana nasceram, o coração da dona Mariko amoleceu e a relação das duas começou a melhorar até o ponto de quase se tornarem confidentes, com idas e vindas logicamente.

Já a minha relação com a dona Laurinda, a minha sogra, sempre foi muito boa desde o começo. Apesar dela provavelmente ter me achado meio exótico no início, pois ainda hoje são poucos os orientais em Catalão, ela deve ter caído no conto do vigário de que todo japonês é honesto, inteligente e trabalhador. (Não deixem de conferir a crônica: Como é ser um nikkei no Brasil, aqui no blog).

Eu via na minha sogra uma pessoa marcada pelo sofrimento de ter perdido precocemente o esposo aos 40 anos, ter reagido e assumido a administração da fazenda da família. E com a renda da propriedade ter criado os seis filhos sozinha.

Eu a admirava muito pela sua vida exemplar e ainda mais porque apesar das dificuldades, ela nunca perdeu a candura e a doçura. Há pessoas que diante do infortúnio se tornam amargas e frias, mas a Dona Laurinda conseguiu assimilar muito bem o revés e fez das tripas, coração.

Um dia, a dona Laurinda me contou emocionada, que após a morte do seu marido, ela estava deitada na cama chorando e sem forças para recomeçar, quando recebeu a visita do irmão dela, seu Bento, que lhe disse duramente ao pé do ouvido:

” Laurinda, eu não vou criar os seus seis filhos, nem meus irmãos e tampouco nossos pais, que já estão velhos. Portanto, levante desta cama agora e lute!”

A partir desse choque com a realidade, ela reagiu e enfrentou o mundo como uma leoa.

A sua condição de viúva com seis filhos não a pouparia dos espertos que tentariam lhe passar a perna, lhe vendendo um gado doente ou depreciando na venda um animal seu de boa qualidade.

Mas com o tempo, ela foi ficando uma zootecnista de mão cheia. Eu ficava impressionado com a sua precisão em prever os lances dos leilões de gado nos leilões virtuais da TV. Ela sabia como ninguém a identificar um novilho com tendência para ganho de carcaça ou uma novilha com bom potencial leiteiro.

Aos poucos, a dona Laurinda foi pegando o jeito e usando a fragilidade ao seu favor e fazendo bons negócios.

“Eles acham que me enganam, mas de boba eu só tenho a cara.”

Com ela aprendi também que:

” Quanto mais você abaixa, mais o seu bumbum aparece. “

” A vida é luta, Rui! sempre lembre-se disso!”

Mesmo nas agruras da vida, ela tinha um olhar atento para a beleza da natureza:

” Rui, espia! Veja que primavera florida linda. ” , era sempre assim a sua fala ao notar uma flor, uma árvore ou um bicho do mato.

Agora, como o Superman, ela tinha a sua criptonita. Os seus queridos seis filhos!

Uma vez eu estava com a Dona Laurinda na sua casa, quando ela soube que o André (o quinto filho) havia se acidentado num jogo de futebol e quebrado o antebraço esquerdo.

Fiquei impressionado com a transformação dela. Aquela senhora forte e sempre dona da situação, ao saber do acidente do filho, se desmanchou em lágrimas. Sem forças nem para andar teve que se deitar no sofá, ficando sem ação.

Eu presenciando aquela cena exagerada, tentei trazê-la para a realidade dos fatos:

” Mas Dona Laurinda, foi só um braço quebrado. Ele vai ficar bom e com certeza não vai morrer por isso, fique calma por favor e confie em Deus!”

” Mas é o meu André, Rui! Ele deve estar sofrendo muito com a dor. Me lembro dele ainda pequeninho trazendo de presente para mim um sorvete já derretido na palma da sua mão, precisava ter visto, uma gracinha …”

“Mas Dona Laurinda, o André vai fica bom, foi só um braço quebrado. Ele tem mais de 30 anos e é muito forte.” , insisti novamente para acalmá-la.

Outra coisa que deixava a Dona Laurinda fora de si era alguém mexer com os seus pintinhos. Mas até chegar ao ponto de explosão, ela engolia muito sapo, mas quando a válvula de segurança da caldeira abria, a coisa era feia, muito feia. Eu senti na pele isso só uma vez e jurei para mim mesmo nunca mais provocá-la. Ela parecia uma galinha de pintinhos novos que abre as asas e avança não importando o tamanho do oponente para defender a sua cria.

Mas a situação mais delicada que eu passei com a minha sogra e me lembrarei até o meu último suspiro, foi quando eu ingenuamente levei uma espingarda de pressão emprestada para caçar na fazenda dela.

Lá chegando, me vi obrigado a pedir autorização à matriarca da família. Como aos 10 anos eu ganhei uma espingarda do meu pai, caçar sempre foi para mim um lazer normal como pescar. Hoje é impensável dar uma arma a uma criança, mas na minha infância, a espingardinha de pressão estava para um smartphone hoje.

“Rui, mas porque você quer matar os bichinhos?”

“Uai Dona Laurinda, é que eu sempre fui caçador desde pequeno …. Mas eu só caço para comer.”

“Vem cá comigo, meu filho.”

Então, eu a segui até o curral,que tinham uns 50 animais reunidos entre bois, vacas e novilhas. Ao chegar num ponto alto onde se viam todos os animais, ela me perguntou:

“Escolhe qualquer um Rui!”

Sem entender aquela colocação, preferi ficar calado, então ela complementou:

Escolhe qualquer animal, que eu mando matar agora e preparo um churrasco pra você, porque o seu problema é fome, muita fome e eu vou resolver isso agora!”

“Deixa os meus bichinhos da natureza em paz! Aqui na minha fazenda ninguém caça, viu?”

Ao ouvir o maior sermão da minha vida, coloquei a espingarda no saco e nunca mais pensei em caçar na fazenda Rancharia…

Em setembro, no início da primavera, quando noto que os ipês amarelos aqui em Minas estão exuberantemente floridos, eu lembro da minha querida sogra me dizendo assim:

“Espia, Rui! Que lindo!”

“Dona Laurinda, aonde estiver, aceite essa pequena homenagem do seu genro que sempre a admirou muito. E desculpe mais uma vez, ter lhe contado aquela piada de muito mau gosto sobre a maneira certa de enterrar a sogra… Foi mal, viu?”

Rui Sergio Tsukuda – outubro /21

https://aposenteidessavida.com/

7 comentários em “Qual a maneira certa de enterrar a sua sogra?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: