Você é honesto(a)?

Se alguém me perguntasse agora de chofre:

“Rui, você é honesto?”

Eu diria, “acho” que sim!

Eu acredito que nunca estarei convicto da minha honestidade ou integridade, porque tenho uma dúvida cruel desde menino se ela é digital ou analógica.

Se a honestidade for digital , 0 ou 1 ou ainda 8 ou 80, eu não sou honesto, porque me lembro de um dia cair em tentação e comprar um CD pirata na praia do Francês em Maceió, além de ter sido pego na malha fina do IRPF algumas vezes, que queimaram definitivamente o meu filme.

Agora, se a honestidade for analógica, como é o velocímetro do Akatian, meu fusquinha 68, aí eu diria que tô até bem e sou uns 95% honesto! Assim como o Ronald Biggs, o notório ladrão do trem pagador na Inglaterra poderia dizer, caso ainda estivesse entre nós, que ele seria 30% honesto segundo a regra analógica e totalmente desonesto pela regra digital.

Então quer dizer que caí na vala comum e sou tão desonesto quanto o pai do Mike do Balão Mágico, só pelo fato de ter comprado um CD pirata e caído na malha fina do IRPF? Infelizmente, sim!

Aprendi em casa que a honestidade é um valor moral importante. Minha mãe, dona Mariko levava isso bem ao pé da letra. Já o meu pai, seu Mário, que foi empresário, tinha cá seus deslizes…

Na declaração de imposto de renda, ele informava ter uma renda de um salário mínimo. Um dia eu perguntei a ele:

” Mas pai, nós sabemos que a sua renda é bem maior que essa, né? “

“Sim Rui, mas eu já pago tanto imposto ao governo, que onde puder eu sonego, senão como um empresário sobrevive no Brasil, que só tem políticos ladrões e corruptos?”

“Ah, tá … ! “

Ao saber que o seu Mário pagava a conta de telefone e a mensalidade escolar do filho do Jair, chefe de oficina de uma grande transportadora, eu perguntei?

“Pai, isso não é certo, é propina!”

“Sim filho, mas se eu não pagar as contas do Jair por fora, meu concorrente o fará e eu ficarei sem os serviços da transportadora. Quando percebo que durante a semana, ele não me manda nenhum motor para fazer, entendo que eu preciso pegar mais uma continha dele pra pagar…”

“Ah, tá … ! “

Uma vez na estrada perto de Londrina PR , o Corcel amarelo 73 do meu pai foi parado por uma blitze rodoviária por uma ultrapassagem em faixa contínua numa ponte. Lembro bem que seu Mario desceu do carro, ficou alguns segundos com os guardas e logo voltou.

Aí eu perguntei a ele:

“Quanto foi a ” bronca”, pai?”

“Nada… fui perdoado! A nota de 1000 cruzeiros que sempre deixo providencialmente na minha carteira de habilitação resolveu o problema. “

“Mas pai, isso não é certo, é corrupção!”

“Estamos perto do Natal meu filho, eles ganham pouco e merecem como a gente uma boa ceia com a família!”

“Ah, tá … ! “

Quando comecei a trabalhar na CBA em 1988 eu jurei pra mim mesmo:

“A integridade sempre será um valor para mim! “

Num domingo, na volta de Maringá – PR a Alumínio -SP, um guarda rodoviário me parou também por ultrapassagem em local indevido. Ao perceber que ele começou a conversa estranhamente reclamando do seu salário, eu lhe disse bem firme:

“Por favor seu guarda, faça o seu trabalho e comece a lavrar a multa. Eu reconheço que errei e assumo as consequências! “

Ao preencher a minha primeira declaração de IRPF em 1989 e já ter pago a primeira parcela do carnê Leão, perguntei aos meus amigos Zenko, Arthur e Ricardão, que trabalhavam comigo na CBA, quanto eles pagariam de carnê Leão. Poucas vezes fui tão troçado na vida…

” Rui, você é muito bobo! hahahaha. Aqui nós os engenheiros e o técnicos, ninguém paga o carnê Leão, pois já pagamos muito imposto retido na fonte durante o ano. Tem até um campeonato interno para ver quem consegue sonegar mais imposto. Neste ano, o Mourinha foi o campeão, ele recuperou quase 100 % do que pagou de IR. Se você quiser no ano que vem te passamos as “dicas” de como fazer um serviço bem feito e não ser pego na malha fina!”

“Ah, tá … ! “

Eu confesso a vocês que resisti por mais três anos na minha retidão. No quarto ano porém, já cansado de tanta gozação, eu chutei o pau da barraca e caí no crime! Por pouco não fui o campeão de sonegação do IR naquele ano!

Depois que Lucas e a Fofa, meus filhos, já estavam grandinhos, eu voltei a andar na linha nas declarações anuais de IRPF, porque eu como pai tinha que ensinar a eles o valor Honestidade e tinha ouvido dizer que o exemplo arrasta. Assim desde então, estou em paz com o Leão.

Durante o meu trabalho como Gerente de Novo Negócios, vi muita corrupção no Brasil.

Ao visitar uma grande construtora de estradas para vender insumos a eles, um diretor foi bem generoso comigo.

“Rui, você está tentando vender o seu produto para mim, mas você é o único que não sabe ainda que eu não vou ganhar a licitação de recuperação dos 50 km daquela rodovia no DF. Portanto, não perca o seu tempo comigo.”

“Mas como? Conversei com o seu gerente de projetos, ele está fazendo a proposta técnica e gastará por baixo dois milhões de reais nela. “

“Sua mocinha virgem e inocente! Eu não devia, mas vou te explicar como funciona o nosso esquema. Mas antes, me dê aqui o seu celular para garantir que nada será gravado.”

“São 10 grandes construtoras disputando essa licitação. Desta vez ganhará a empresa X. Para parecer tudo conforme a legislação exige, terão 10 participantes. Porém a empresa X que será a vencedora da licitação, pagará os custos das propostas das 9 construtoras que irão participar. Depois quando for a minha vez, eu faço o mesmo e assim por diante. Existem os grupos fechados de empresas grandes, médias e pequenas, de acordo com o tamanho das obras, assim cada um fica no seu quadrado e todas saem ganhando.”

“Entendeu?”

” Sim, mas assim o custo dessa obra já sai com uns 20 milhões de reais na frente só para bancar os custos das propostas, fora o lucro que empresa X achar por bem cobrar, lesando o Estado e os contribuintes, isso não está certo.”

“Desculpe a minha franqueza Rui, mas você não serve para esse jogo, você é honesto demais. Bem vindo ao mundo real deste país, meu amigo!”

“Ah, tá … ! “

“Anota aí o nome da empresa X e as pessoas com quem você deve falar. Boa sorte.”

” Obrigado ”

Mas a minha prova de fogo no quesito honestidade ainda estaria por vir.

Ao pousar em Curitiba, um “amigo” meu JPS, que trabalhava numa grande empresa também, me recebeu no aeroporto de CWB e juntos fomos até Joinville para visitar um cliente dele que fabricava grandes equipamentos de processamento de lixo urbano.

Depois da reunião, perguntei a ele onde entrariam os produtos fabricados pelas nossas empresas, já que na reunião isso não tinha ficado claro para mim.

JPS sem responder à minha pergunta, me devolveu com uma outra.

“Rui, qual o seu sonho de consumo atual?”

“Uai JPS, eu tô namorando uma HD Fat Boy amarela, mas ela tá cara uns 70 mil reais.”

“Pois é, nesse negócio aqui, a sua parte será inicialmente de 140 mil reais relativo à comissão pela venda de duas unidades de processamento, suficiente para você comprar a sua sonhada moto e ainda sobra um troco para você levar a patroa ao Japão numa viagem romântica nas próximas férias. Se eu conseguir vender mais unidades, mais dindin no seu bolso!”

“Puxa, 140 mil ! Que beleza, hein!”

“Mas onde eu entro nessa história?”

“Eu sei que você tem andado muito pelo Brasil e na Europa, portanto conhece muitas empresas e prefeituras que processam o lixo urbano e sabe quais delas vão precisar expandir ou mudar de tecnologia. Eu só preciso que você elabore um estudo com os nomes das empresas potencias que vão precisar de novos equipamentos e o contato dos decisores dessas empresas. Vez por outra, também você terá que ir comigo nas empresas para ajudar com seu conhecimento técnico a azeitar o negócio.”

Juro que fiquei tentado a aceitar a oferta do JPS. Antes porém, uma voz me disse para pedir 10 minutos a ele. Nesse tempo, fiz uma call com o seu Mário, que tinha falecido há poucos meses, para pedir a ele uns conselhos:

“E aí pai, bora entrar nessa?”

Meu pai sem titubear me falou:

” Cai fora Rui, isso não é sonegar IR, nem pagar propina pro Jair ou pro guarda rodoviário, é algo muito mais sério. Eu te ensinei muito bem o limite da honestidade, desse ponto não se pode passar!”

Então, respondi ao JPS:

“JPS, eu tô fora!”

“Mas como assim, Rui?”

“Porque não é certo. Primeiro, estamos aqui em Joinville custeados pelas nossas empresas às quais trabalhamos: esse carro alugado, nossas horas trabalhadas, o hotel, o celular, o almoço, tudo serão despesas pagas por elas.

O conhecimento que eu tenho desse mercado saiu muito caro e foi adquirido pelo investimento que ela fez em mim em cursos e viagens. Portanto, não seria justo eu usufruir dele para o meu benefício próprio enquanto estiver trabalhando para eles.

Se nós, por outro lado, tivéssemos saído das nossas empresas e formado uma nova sociedade com todas as despesas por nossa conta, aí seria diferente, porque intermediar negócios é uma atividade legal.”

“Rui, eu já fui honesto como você, mas agora eu complemento o meu salário ridículo que recebo, com as comissões que consigo por fora. ”

“Ah, tá … ! “

Nunca mais JPS falou comigo desde então.

Antes de partirmos para a enquete final, eu lhes pergunto:

” Será que o nosso grau de honestidade é suficiente para criticar os políticos e empresários que são corruptos no Brasil?

Enquete final: A sua honestidade está mais para:

a ) Ronald Biggs

b ) Diretor da construtora

c ) JPS

d ) Rui

e ) Seu Mário

f ) Madre Tereza de Calcutá

g ) NDA

“Ah, tá … ! “

Rui Sergio Tsukuda – setembro/21

https://aposenteidessavida.com/

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