Este restinho de ano não dá mais nada…

Era com essa frase que o meu saudoso e querido amigo Agostinho Vallerini, o nosso Gustão, nos saudava no primeiro dia de trabalho do ano na CBA, deixando claro as suas enormes expectativas para o ano que ora se iniciava.

Se ainda estivesse entre nós, Gustão iria concordar comigo que o seu pessimismo cairia como uma luva para 2022.

Já começou pelo réveillon, nunca vi um tão chocho. Se bem que romper o ano no Sítio Duas Alegrias entre vacas, seriemas, jacus e cavalos, não é um programa nada sexy. Tenho certeza que quando o Galo ganhou do Bahia e sagrou-se campeão no campeonato Brasileiro do ano passado, teve mais foguetes nos céus de Desterro de Entre Rios do que na saudação a 2022.

Para piorar, desde o Natal só chove aqui nas Minas Gerais. Mas ainda continuo firme no mantra do meu amigo vizinho de roça Vicente, que diz que quem é sitiante nunca pode reclamar da chuva. Quando acordo para o meu terceiro xixi da noite, lá pelas 5 da manhã e chove, penso nele no curral molhado e mal iluminado chamando as vacas pelo nome para a primeira ordenha do dia.

Desde o final do ano passado, acho que o nosso São Pedro pegou o alemão e esqueceu as torneiras abertas. E com as chuvas vieram infelizmente muito sofrimento e perdas às famílias da Bahia e Minas.

Estou quase apelando para a simpatia que aprendi da minha vó branca, Dona Maria Pinto de Farias, uma mineirinha de 1,46 cm espigadinha que em vestido de chita me ensinou muitas coisas, entre elas, a simpatia de colocar um ovo num mourão da cerca da horta pedindo a volta do glorioso sol.

Difícil ser otimista num tempo cinza assim. Além da chuva, o Ômicron avança com força frustrando a tão desejada volta à normalidade e o Bolsonaro, continua sendo Bolsonaro, infelizmente.

A tão sonhada terceira via na próxima eleição, pelo menos para mim, que seria uma opção à dicotomia Lula / Bolsonaro , está nati-morta com candidatura do Moro, sim aquele quase herói que avançou o sinal e pecou ao escrever certo por linhas tortas. O Leite que seria uma eventual força do Sul, sucumbiu ao marketing do Doria falastrão. Minha única esperança seria o Zema, que tem feito um ótimo governo por aqui. Mas ele candidato a presidente, só em 2026, depois de ser governador de Minas mais uma vez.

Sempre ouvia dizer que política, religião e futebol, eram assuntos sem importância que separam os amigos, mas não acreditava. Mas no ano passado distanciei de amigos e parentes por conta de divergências políticas, todas sem importância…

Eu achava que seria possível tolerar Bolsonaristas e Lulistas, num mesmo ambiente. Mas descobri ser um intolerante incorrigível nesse assunto e saí brigado dos grupos de ZAP.

Mas como ser passivo com tanta MERDA sendo jogada na cara da gente? lembrando o querido e saudoso Paulo Gustavo que adorava usar esse termo chulo dado ao material restante após a digestão e absorção dos alimentos pelo tubo digestivo dos seres vivos.

Sem ter nenhuma bola de cristal nas mãos, em 2022 a inflação vai bater os mais de 10 % do ano passado e a Ibovespa B3 vai continuar a subir e descer como montanha russa, como em 2021, sobretudo em um ano eleitoral e com o Covid 19 longe de ser dominado, mesmo com as 3 doses de vacina em boa parte da população.

Num treinamento motivacional que fiz em 2016, um palestrante chamado Danilo, muito irritado com as minhas constantes intervenções, veio até mim, olhou nos meus olhos e disse na cara dura:

Rui, vai doer o que eu vou te falar, mas chegou a hora de você parar de olhar para o seu umbigo e perceber um pouco o que se passa no seu entorno!”

Seguindo a reação normal em ” U ” , num primeiro momento, neguei a paternidade da criança, mas passados seis anos, eu agradeço a ele esse choque de realidade, que me fez rever muito as minhas atitudes e comportamento desde então.

” Danilo, mas precisava ser assim com platéia?”

Para esse comecinho de ano bem cinzento e molhado, acho que vale relembrar as palavras desse indigesto palestrante e parar de olhar no meu umbigo. Há muita gente ao meu redor a quem eu posso fazer a diferença na vida delas, sem modéstia alguma. Uma palavra bem encaixada ou um sorriso bem dado no momento exato, pode ser transformador na vida de alguém. Cada dia a mais que eu existo, fica claro pra mim que a minha felicidade só será plena se um dos pratinhos girando ao meu redor for o de ajuda ao semelhante, isento de interesse.

Fazer o bem sem olhar a quem!

Fui voluntário do CVV ( serviço voluntário de apoio emocional e prevenção de suicídio ) há uns 20 anos atrás. Essa minha primeira experiência de trabalho voluntário foi muito dura algumas vezes porque suicidas já decididos do seu ato, queriam apenas alguém ao telefone para não partirem sozinhos e isso era muito cruel para o voluntário.

Por outro lado, tantos outros me deram a possibilidade de viver várias vidas numa só, como nos filmes e livros. Com a diferença que eu estava lá fazendo o meu papel, certamente pequeno de figurante ou ator coadjuvante iniciante, mas com a certeza de estar nas coordenadas corretas no espaço / tempo como quem realiza uma missão de resgate.

Tive um atendimento emblemático de uma senhora muito solitária com depressão crônica que todas as semanas repetia para mim as mesmas histórias, mas um dia ela me surpreendeu com uma nova, me contando que havia levado uma das suas cadelinhas para cruzar na casa de uma amiga porque na casa dela não entrava nenhum cão macho. Aproveitou para confidenciar que nenhum animal ou pessoa do sexo masculino entrava na sua casa, inclusive ela só conversava e se relacionava com pessoas do sexo feminino.

Não aguentando de curiosidade, deixei o protocolo do CVV de lado e peguntei a ela:

” Mas a senhora percebeu pela minha voz que eu sou um homem? “

Para a minha surpresa, ela respondeu:

” Não, Rui eu discordo! Você não é um homem, é um anjo sem sexo que escuta pacientemente as minhas repetidas histórias todas as semanas. Sou muito grata a Deus por você existir, muito obrigada! “

Essa é apenas uma pequena recompensa, das muitas que recebi de coração das pessoas que atendi e para outras, espero ter sido protagonista para que elas resistissem por aqui por mais um tempo. Para que eu não sei… não tenho ainda a resposta para isso.

No meu retorno ao serviço voluntário aos 57 anos, agora mais experiente e com mais tempo disponível, avaliei outras opções de voluntariado além do CVV, como cortar cabelo de idosos nos asilos, participar do sopão que é distribuído aos sem teto do centro de BH ou ser leitor aos deficientes visuais da biblioteca pública de Minas.

Mas a recente depressão que tive no ano passado, foi uma oportunidade de ouro que tive para entender melhor o que se passava no outro lado da linha dos meus atendimentos e sentir na pele o sofrimento de um eventual suicida. Isso foi decisivo para eu me decidir pelo CVV e encarar de novo o curso preparatório de três meses e cumprir pacientemente todos os testes para voltar a ser um voluntário da ativa.

Ao finalizar esse texto, percebi que o sol que estava muito escondidinho deu as caras na minha janela.

Será um sinal?

E você, vai como eu tentar fazer de 2022 uma limonada ou esse restinho de ano não dá mais nada, como dizia o Gustão?

Dedico esse texto a escritora gaúcha Lya Luft, que nos deixou há pouco, cuja sensibilidade para perceber o que se passava no seu entorno e traduzir em palavras era impressionante e nos fará muita falta.

Rui Sergio Tsukuda – janeiro/22

https://aposenteidessavida.com/

8 comentários em “Este restinho de ano não dá mais nada…

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