Finalmente me aposentei e agora?

O “finalmente” no título acima soa como um peso que é deixado para trás, mas há quem lamente ter que se aposentar um dia, por amar tanto o que fazem. Eu admito sentir uma inveja danada de quem é deste grupo. Puxa, servir à sociedade, ser útil e reconhecido por ela, ganhar dinheiro e de quebra, fazer o que gosta? Isso é para poucos.

O Jair, meu mestre e querido amigo é um desses privilegiados. Lembro um dia que já passava das 21 hs, já nos preparávamos para sair da fábrica em Arcos – MG, ele olhou nos meus olhos e falou assim:

” Rui, vamos subir lá no topo do forno 6 agora, tenho algo a lhe ensinar!”

Eu como um discípulo aplicado não titubeei:

“Claro, Jair!”

E lá fomos nós degrau por degrau subindo os cinco andares do forno em construção. Chegando ao último andar, como não havia lousa nem giz, ele pegou um toquinho de madeira e passou a desenhar no pó do chão mesmo, explicando para mim o esquema da alimentação sanduíche de calcário no forno de cal. Naquele momento, eu morto de cansado, porque desde às 7 horas da manhã eu estava trabalhando com ele, pensei:

“Puxa, como o Jair é feliz com o que faz, que inveja!”

Eu, no extremo oposto do meu amigo, não via a hora de pendurar o capacete. Nos últimos anos da minha vida passada, eu confesso que depois de 30 anos de trabalho, estava cansado do mundo corporativo. No ano de 2016, eu constatei estarrecido que das 52 semanas daquele ano, eu havia passado 43 semanas viajando, dormindo mais em hotel do que em casa. Nos hotéis eu chamava as recepcionistas, garçons e camareiras pelo nome.

” Uai o que aconteceu com a Josiane, hoje não é dia de folga dela não… Ela tá doente?”

Não via mais sentido também em participar de tantas reuniões, onde na maioria das vezes, só o meu corpo estava lá. A minha participação nas reuniões se restringia a ficar atento ao que era discutido, para finalmente eu achar uma brecha para entrar com uma ou duas falas para justificar a minha presença no encontro.

Ou ainda fingir mostrar entusiasmo de criança ao chefe, quando ele ao final na avaliação anual sempre me perguntava onde eu queria chegar na minha carreira na empresa. Invariavelmente, eu respondia que a minha meta era chegar a CEO, nada menos que isso. Mas depois de duas décadas, já muito manjado, passei a dizer que o cargo de Diretor de qualquer coisa na matriz já estava de bom tamanho.

A vida de um low ambition não assumido como eu não era fácil. Era como a de um gay que fica quietinho no seu armário. Pisa em ovos o tempo todo. Até no cafezinho com os colegas de trabalho, tem que se policiar para não se trair e soltar sem querer que o cargo de gerência média que eu estava já estava bom demais, com um bom balanço entre qualidade de vida versus salário e benefícios. Em casa todos já estavam avisados, de que o dia que eu chegasse triste, calado e cabisbaixo do escritório, era porque eu havia sido promovido e não havia motivos para comemorar…

A minha lógica de low ambition era:

Promoção = > responsabilidades > salário e benefícios > chance de dar MERDA < tempo livre e < paz.

Enfim, < qualidade de vida, que o dinheiro a mais, mais status, mais poder, um carro corporativo mais chique e passagens aéreas em classe executiva não compensavam, pelo menos para mim, que fique bem claro!

Uma vez ouvi de um executivo de RH :

” Rui, estas são as algemas de ouro que eu te ofereço, em troca você me dá o seu tempo e sua paz para mim!”, brincadeira, viu!

Teve uma vez numa avaliação anual com um chefe, que eu devia estar de bode naquele dia e agi como um típico sincerão:

“Rui, quais BUs da empresa você gostaria de trabalhar? Plantas do Suriname, Jamaica, Espanha, Austrália ou Estados Unidos?”

“Então chefe, para ser sincero, na verdade, eu queria ficar no Brasil mesmo, mais especificamente na planta de Poços de Caldas.”

“Eu ouvi direito? Poços de Caldas, a menor refinaria do nosso grupo? Você tá doido?”

“Na nossa empresa, só se olha para frente meu amigo e você tá como galinha ciscando para trás!”

Sem eu perceber, saí daquela sala com um X enorme marcado nas minhas costas.

Mas tudo isso é passado…

Quando tive a primeira oportunidade, entrei com pedido de regressão da pena ao juiz e uma vez deferido, saí pela porta da frente da penitenciária ao 53 anos de mala e cuia.

Sem exageros, até eu que nunca amei trabalhar como engenheiro, ao sair da última empresa em que trabalhei, acusei o golpe, porque deixei não somente o meu cargo, salário, carro, notebook e celular. Mas ficou lá também um pouco da minha identidade de como eu era percebido pelo mundo exterior.

A partir daquele momento você está nú como veio ao mundo. O Rui da Imerys, Lhoist, Alcoa e Votorantim, não existe mais. Me senti como o Kwai Chang Caine, o gafanhoto, deixando o templo Kung Fu na China.

Interessante que mesmo consciente, que lá dentro da empresa você era apenas peça de uma engrenagem perversa que visava o lucro e nada mais que isso. Você passa com o tempo a acreditar num falso pertencimento àquele teatro de bonecos, meio parecido com a síndrome de Estocolmo.

Por outro lado, ao se aposentar, há um sentimento de leveza indescritível. Chegar domingo de tarde e não precisar revisitar a agenda da próxima semana, nem ter que marcar os assentos na Latam ou Azul ou ainda não precisar acertar o despertador para acordar às 4:30 horas de segunda feira para não perder o vôo em CNF cedinho, não tem preço.

Mas aposentar significa também reaprender a andar. É você com você!

Para quem está próximo de trilhar esse caminho, eu diria que é como nascer de novo. Você tem a oportunidade em vida de pegar uma folha A4 em branco, escrevê-la e somar a outra que já está escrita. Isso pode ser muito bom, mas pode ser frustrante e decepcionante também.

Mas é claro que o primeiro passo para essa experiência fantástica é sem dúvida ter uma condição financeira mínima, que lhe permita dirigir a sua empresa de sonhos sem se preocupar com boletos. Sem dinheiro, não tem nenhuma graça e ele ainda não dá em árvore…

Para aqueles que não cultivaram hobbies ao longo da vida, alguns anos antes da aposentadoria é o momento de começar a desenvolvê-los e já está atrasado. As 16 horas do dia em que você passa acordado, passam a ser um convite para o tédio ou para alguma neurose se instalar. Hoje valorizo cada passatempo que inventei, que o seu Mário, meu pai, só chamava de fogo de palha, como tênis, natação, viagens, violão, pesca, curiós, cavalos, carros antigos, leitura e é claro a escrita, que dou vazão através desse blog.

Eu também estou aproveitando o tempo de ócio para resgatar os amigos, que deixei pelo caminho perdidos na correria do dia a dia. Bem como também, distingui-los de colegas e conhecidos, que não me toleram mais sem o cargo e posição que eu tinha. Outra grande dica, é se ocupar fazendo algum trabalho voluntário, que eu garanto dá uma satisfação muito grande de ser gente.

Estou levando tão a sério essa minha nova identidade, que até ENEM vou fazer em 2022! Pensei em fazer Medicina, mas 6 anos + 3 de residência é muito tempo, além de que, tirar a vaga de um(a) jovem não seria justo. Então vou de Filosofia mesmo, que é bem parecido ( sic ) e ainda sobram algumas vagas.

Já estou trabalhando internamente a ideia de ter colegas de classe na faculdade com um terço da minha idade. Com certeza, será uma troca muito interessante. Já me vejo com beca recebendo o meu segundo canudo, com meus filhos e a Virgínia, minha esposa, segurando na plateia uma faixa:

” Rui Tsukuda, o mais novo filósofo desempregado de Minas Gerais!”

Mas nem tudo são flores. Eu confesso que tem momentos que eu tenho umas recaídas e fico com muita saudade da vida agitada que eu tinha, principalmente do bate papo com os colegas no cafezinho, jantares e viagens. Nesses momentos, eu pego a traia e vou pescar, ou ainda, tiro uma soneca na rede da varanda na casa da roça, que logo esse sentimento passa!

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/22

https://aposenteidessavida.com/

11 comentários em “Finalmente me aposentei e agora?

  1. Rui, há um tempo estava com vontade de te pedir pra falar da aposentadoria! Muito porque, como você, estou longe de ser um workaholic! hahaha
    Legal ver a sua visão, e fiquei muito feliz com a notícia do curso de Filosofia!! Muito show, você vai curtir demais e seus colegas, então, nem se fala! Parabéns!!
    Acrescento ao seu final um dos “10 mandamentos do baiano”: “se der vontade de trabalhar, espere que ela passa.”
    Abração!!

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  2. Rui, adorei o compromisso assumido em público: formar-se Filósofo. Lembro de quando resolveu aprender Francês. Você me disse que em determinado estágio ficava se indagando se deveria realmente aprender essa língua. Mas tinha prometido ao filho e japonês quando assume um propósito precisa ir até o
    Fim. E você foi, rsrs!

    Rui, quem lê seus blogs tem a impressão de que você era um gestor sereno, leve, da paz. Só quem trabalhou com você conheceu aquela ansiedadezinha com prazos, a sinceridade ácida, kkkkk. Lembra daquela brincadeira em francês ? “Tu n’est pas quarré, donc te debrouille”!

    Rsrsrs, saudade de você meu amigo !

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Alysson, obrigado pelo comentário!
      Para formar em filosofia na UFMG primeiro preciso passar no Enem, vou começar a estudar assim que me inscrever na prova.
      Se passar na prova eu te aviso, viu!!
      É difícil não ser duro no mundo corporativo, cê sabe bem disso. Lá fazemos um personagem que precisa dar resultado!
      O ditado ” Você não é quadrado se vira”, aprendi com o Valentino diretor da CBA que me falava isso toda vez quando me dava um projeto difícil.
      Você me inspirou agora a escrever uma crônica: “Como o francês entrou na minha vida…” e você logicamente estará nela.
      Saudade do cê também.
      abraço

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