As redes sociais

Depois de quase 5 anos, voltei ao aeroporto de Confins em BH. Desta vez não era para embarcar nos vôos CNF – VCP e CNF – CGH que eu estava acostumado a pegar toda santa semana, e sim para uma viagem de férias ao Nordeste com a família.

Pouco ou quase nada mudou no saguão do aeroporto, principalmente com relação ao comportamento das pessoas. Quase todas continuavam ensimesmadas a olhar para a telinha do smartphone. Alguns riam, outros faziam caretas de desaprovação ou nojo, mas a maioria delas não tinham nenhuma reação ao que via e ouvia.

No hotel que ficamos em Maragogi nas Alagoas, seja nas espreguiçadeiras da praia, nas piscinas naturais ou nos restaurantes, notei que eram poucas as pessoas que tinham uma conversa presencial entre si. A grande maioria estava interagindo com alguém bem distante através do celular.

Ou utilizando a sua câmera para fazer uma selfie ou tirar um retrato do seu prato recheado de frutos do mar para postar orgulhoso no Instagram ou Facebook e aguardar pela aprovação de alguém, com aquele desejo mesquinho inconfessável de fazer inveja a alguém e sentir prazer com isso. Para muitos, o maior deleite de estar num hotel chique pé na areia é pensar nos amigos, colegas de trabalho e familiares que ficaram na cidade trabalhando, em vez de aproveitar intensamente o momento presente.

O fato é que somos seres gregários e desde sempre buscamos aprovação dos membros da nossa tribo. A diferença é que agora, os internautas buscam aprovação a cada meia hora das centenas de seguidores das redes sociais e isso tem causado muita ansiedade e sofrimento dos dois lados. Seja em quem posta algo na internet e em quem recebe as notificações dessa postagem.

Um seguidor que esteja na merda desempregado e vivendo apertado com o seguro desemprego, ao ver a postagem de uma selfie de sua amiga num barco, com a bela praia da Bruna Lombardi de Maragogi ao fundo, provavelmente irá piorar ainda mais o seu estado depressivo ou tristeza.

Por outro lado, se a expectativa de aprovação de quem postou a foto não se confirmar através dos números de comentários, emojis e likes esperados, a frustração é certa a ponto da selfie ser sumariamente deletada. O que era para ser um momento memorável de relaxamento, descontração e alegria no passeio de barco, vira uma grande decepção. Interessante notar que nada mudou … o motor do barco não pifou, o sol continua a brilhar e o mar continua verdinho como sempre.

Entendo que a comparação entre as pessoas tem o seu lado positivo, mas o seu excesso não seja legal. Se o seu colega da mesa ao lado foi promovido. Bora entender que qualificações dele foram decisivas para isso e fazer a sua lição de casa.

Ou se a sua amiga posta uma foto magra e elegante, com índice de gordura de 10 % e você ainda permanece com os seus 35 %, boa parte adquiridos na sua última gestação. Bora então voltar aos hábitos saudáveis para recuperar rapidamente a boa forma, com a foto da sua amiga sarada como meta estampada na porta da geladeira.

O problema é que a “felicidade” exibida nas redes sociais, é muito bem maquiada por uma edição cuidadosa e filtrada. A ponto da realidade percebida nas telas parecer bem melhor que a realidade sem photoshop, deixando a concorrência muito injusta e desleal.

Todo esse ambiente artificial, tem causado comportamentos autodestrutivos como autoflagelação, suicídio, além de desenvolvimento de neuroses, principalmente nos jovens. Nós, da geração Coca-Cola, que não tivemos o infortúnio de nascer no mundo digital, temos pelo menos uma chance adicional de não nos contaminarmos neste ar viciado, porque sabemos que o mundo presencial pode ser interessante também.

Mesmo assim, percebo muitas senhoras e senhores maduros deslumbrados, logo reconhecidos em qualquer ambiente por digitar as telinhas apenas com os dedos indicadores das mãos, que estão na verdade tão ou mais conectados às redes sociais que os jovens da geração Z. E o bom e velho livro, companheiro de outrora dos erados, fica na estante tomando poeira…

A busca por aprovação, tem causado nas pessoas uma doença nova conhecida como Dismorfia do Snapchat. Tem gente buscando os cirurgiões plásticos para que eles corrijam os seus rostos e corpos para que fiquem parecidos com a sua imagem virtual editada pós filtros. Apenas um ajuste de realidades, diria uma internauta.

O Facebook e Instagram que era para ser um lugar onde os amigos se encontrariam no mundo virtual, se tornou um sitio onde as pessoas mais competem do que se confraternizam.

Este cenário caótico a que se chegou foi influenciado pela onda de monetização que o Facebook trouxe. Com a possibilidade de ganhar um bom dinheiro e se tornar um influencer digital, que na sua grande maioria tem nada ou muito pouco de valor a oferecer a quem quer que seja, acirrou ainda mais a busca pela postagem mais impactante e sexy nas redes sociais.

O Orkut que foi a precursora do Facebook ” pecou” por não ser monetizado, por isso quebrou. Eu achava as comunidades do Orkut originais, como uma que eu fazia parte que tinha o nome de: ” Loucos por tomate com sal”

O Google que em tese, é uma ferramenta fantástica de informação sobre qualquer assunto, também se corrompeu. Ao pagar 8 a 20 dólares para cada 1000 visualizações, ele estimula os usuários a visualizarem conteúdos de veracidade duvidosa e fontes suspeitas postadas por gente mal intencionada. Por outro lado, o Wikipedia que sobrevive de doações, também não é fonte de informação 100% confiável porque as correções e revisões dos textos podem ser realizadas por pessoas não especializadas no assunto.

Porém, entre pegar um volume pesadão da Enciclopédia Delta Larousse na estante e ter uma informação confiável, mas totalmente desatualizada, ainda fico com o Wikipedia e o Google.

Infelizmente com a chegada do Google, acabaram-se as gostosas discussões e apostas nos botecos de copo sujo para qualquer dúvida que surgisse na mesa entre um gole e outro de cerveja, o que é uma pena!

Eu fiz um grande esforço e consegui deixar o celular no quarto do hotel em Maragogi nos 12 dias que lá me hospedei. Graças ao bom Deus, eu não sou da tribo que posta fotos e vídeos nas redes sociais, portanto não tenho a ansiedade de esperar por likes dos meus poucos seguidores e passo portanto longe de um cirurgião plástico.

Mas o meu calo é assistir aos vídeos curtos do Facebook, You Tube e Instagram. Confesso que sou um viciado assumido! Tudo começou como uma brincadeira e foi crescendo, crescendo e me absorvendo e de repente eu era assim completamente seu, assim como como na canção do Peninha. Parece chocolate Bis, você coloca um na boca e não quer mais parar de comer até acabar a caixinha!

A principio, torci o nariz aos vídeos curtos quando fui apresentado a eles. Com um minuto de duração não tem vídeo que me faça prender a minha atenção, era o que eu pensava. Hoje, aos 30 segundos de vídeo, já estou pensando no seguinte…

O problema é que do outro lado do meu smartphone, tem uma perversa inteligência artificial operando através de algoritmos muito bem bolados, que utilizam os meus inputs e dados pessoais, retro alimentando o sistema, e me direcionando para assistir mais e mais vídeos através das suas inocentes “recomendações”.

Por exemplo, se um dia você estava inspirado e fez uma pesquisa por milfs de peitos naturais grandes no Instagram ou no Facebook, o algoritimo já anotou que você é chegado numa comissão de frente!

Então vídeos e mais vídeos de mulheres 40- 50 anos com peitões naturais aparecerão na sua telinha como “sugestão” para você assistir. Quando você se cansa deles, deixa de assistí-los ou pula para o próximo vídeo no meio de uma exibição, o algoritmo percebe a diminuição de interesse e induz que é preciso “inovar”, pois o Rui está farto de peitos…. Quem sabe o Rui gosta também de milfs com derrières avantajadas? Bora mandar para ele “sugestões” de vídeos e mais vídeos de mulheres tanajuras.

O único objetivo das gigantes de tecnologia do Vale do Silício, que detém as redes sociais, é mantê-lo conectado o maior tempo possível, porque quanto maior for o número de usuários e o seu tempo de conexão, maior será o pagamento que eles receberão dos anunciantes de produtos e serviços que sustentam as plataformas digitais.

Não é por acaso que essas empresas são as de maior valor de mercado no mundo. Interessante perceber o pouco capital investido nessas empresas, comparados a uma indústria de capital intensivo como uma siderurgia ou fábrica de alumínio, por exemplo.

Outro ponto é que devemos desconfiar quando o serviço nos é oferecido de graça. Não existe almoço grátis, já dizia o Marcio, meu antigo chefe. Neste caso, a moeda de troca somos nós mesmos, e não percebemos disso! Somente as empresas de tecnologia e o narcotráfico chamam de usuários os seus clientes, foi o que ouvi num podcast um dia desses.

A questão ética a meu ver é a manipulação indevida, porque do outro lado está um algorítmo que conhece tudo sobre você, seus pontos fortes, suas fragilidades e incertezas, gerando um comportamento que não é originalmente seu ( tanajuras nunca foi até então a minha preferência… ), apenas com o intuito de te deixar mais tempo conectado.

O fim justificaria os meios?

Além disso, as redes sociais se apropriaram dos seus dados deliberadamente à sua revelia e portanto, conhecem como ninguém você, o usuário. O risco que existe é eles estimularem conscientemente ou inconscientemente as fake news, que começam sempre como uma inocente “recomendação” de vídeo gerada por algum algoritmo para alguns usuários podendo depois se viralizar em todo o globo.

É mais ou menos assim como um incêndio. A inteligência artificial gera o ambiente para a faísca. O combustível e o oxigênio, que são fornecidos pelos usuários e a infraestrutura das redes sociais, fazem o resto do trabalho. A questão é saber se a faísca foi gerada intencionalmente pela plataforma digital ou por um usuário mal intencionado…

Isso ocorreu recentemente com o terraplanismo, que era reduto de alguns lunáticos, mas que se viralizou e se tornou verdade para milhões de pessoas no mundo no ano de 2019. Nesse ano foi feita uma pesquisa no Brasil com o resultado de 11 % dos entrevistados estarem convictos de que a terra seria plana! O movimento anti-vacina recentemente na pandemia do Covid 19 é outro exemplo.

O mesmo risco existe para a democracia. Alguns políticos espertos já sacaram que a um custo baixo e sem hackers especializados, é possível manipular as eleições de um país com as fake news. Isso tudo com a leniência das gigantes de tecnologia, que pouco se importam para onde o barco vai, pois o negócio delas é ter mais gente conectada por maior tempo possível. Para piorar, como tudo é muito novo e recente, a legislação na prática não existe e a elaboração das leis anda em passo de formiga e sem vontade.

As fake news também podem gerar guerras e conflitos, como ocorrido Mianmar em 2014 , onde a internet era sinônimo de Facebook e os celulares já vinham com essa plataforma pré-instalada. No Estado de Rakhine desse país, havia uma grande rivalidade entre a maioria budista e a minoria muçulmana Rohingya.

Um monge extremista e antimuçulmano, Ashin Wirathu, compartilhou uma postagem fake news de uma menina budista que havia sido estuprada por homens muçulmanos. Isso se viralizou no Facebook, gerando muita violência e mortes em todo o país.

Garanto que nos dias de conflito, as 54 milhões de pessoas de Mianmar ficaram conectadas no Facebook. Além das notícias e fake news, de certo assistiram também muita propaganda e consequentemente consumiram produtos e utilizaram os serviços dos anunciantes dessa plataforma digital.

Contudo, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que prender a atenção do consumidor é coisa nova. A publicidade sempre fez e vai continuar fazendo isso. Por exemplo, a controversa propaganda subliminar usada pela primeira vez em 1957, quando o pesquisador James Vicary inseriu as frases ” coma pipoca” e “beba Coca-Cola ” em um frame de filme ( cada segundo tem 24 quadros, colocando essas duas mensagens em apenas um quadro, o consciente não conseguiria perceber, mas o subconsciente e a memória sim).

Independente se ela funciona ou não do ponto de vista fisiológico, a intenção desse pesquisador era de uma sacanagem sem tamanho, ainda mais porque o quadro adulterado era propositalmente inserido justamente na cena de maior impacto nos filmes…

Depois da sessão de cinema ao se deparar com um outdoor da Coca-Cola, o sujeito comenta com a namorada: ” Amor, o que você acha de comprar uma Coca Cola com um saco de pipoca? “

Mas a questão agora, é a desproporção de forças no mundo digitalizado dominado pelas gigantes de tecnologia Não há como competir com super-algoritmos inteligentes que a cada dia se tornam mais competentes.

Será que a nossa sina é nos tornarmos marionetes tipo vudú das redes sociais?

Seguindo a linha do Estoicismo, que afirma que é preciso coragem para mudar o mundo e coragem também para aceitar o que não pode ser mudado, além da minha contribuição ao escrever esse texto, seguem algumas ações que tomei para mitigar o impacto das redes sociais na minha vida e que podem ser “recomendações” interessantes para vocês:

  • Desativei notificações de qualquer espécie das redes sociais e aplicativos.
  • Reduzi os número de seguidores e a quem sigo.
  • Desabilitei a visualização de postagens e stories de quem sigo, com isso fico desobrigado a dar likes.
  • Saí da maioria dos grupos de Whatsapp dos quais fazia parte.
  • Estou me acostumando novamente a usar a boa e velha função telefone do celular e tenho procurado encontrar com amigos presencialmente.
  • Checo e recheco as notícias polêmicas, sempre buscando fontes confiáveis. Mesmo assim nunca as repasso.

Mas infelizmente ainda continuo viciado em assistir aos vídeos curtos na redes sociais, mesmo consciente que é uma perda de um tempo precioso e que estou sendo manipulado por alguém ou por algo.

Se alguém tiver uma boa “recomendação” para eu me libertar dessa escravidão, eu agradeço de coração!

Até tentei a solução drástica de meter o pé na jaca e sair de vez do mundo digital. Mas fui fraco e não resisti aos apelos que o algoritmo esperto gerava a cada clique meu na saída: Fulano vai sentir sua falta, Beltrano ficará com saudade, Ciclano suplica para que você fique…

Rui Sergio Tsukuda – maio/23

https://aposenteidessavida.com/

4 comentários em “As redes sociais

  1. É a mais pura verdade meu amigo, somos escravos das redes sociais. Hoje o que vale é o quem tem mais seguidores! Precisamos voltar aos velhos costumes de se encontrar pessoalmente, tomar umas cachaças /cervejas ou vinhos nos botecos, comer umas linguiças/pancetas/ queijos e conversar sobre nossas estórias, nossos filhos, netos e trazê-los para esse meio pra que eles vejam o quanto é bom esse mundo real!!!
    Grande abraço meu amigo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Rui, uma análise precisa, certeira sobre as redes sociais, parabéns!!
    Juro, tenho receio de pensar como será o futuro do planeta se não houver um limite para o domínio das empresas de tecnologia. As fakenews ainda tomam conta das redes sociais. Olhe só, minha amiga Dirce, mãe de dois filhos médicos, não tomou nenhuma dose da vacina contra a Covid porque foi induzida a acreditar que tal medida alteraria a genética do seu corpo. Isto é, ela se mostra contrária à ciência! Porisso, redes sociais, com moderação, você tem razão!!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário