Os meus votos para 2024

Como tudo passa nesta vida, as festas de final de ano de 2023 se foram e como tudo que sobe, desce; engordei todo o peso que havia lutado muito para perder nos últimos meses. Dureza! Mas faz parte, esse fato é uma das certezas da minha vida. Aqui se faz, aqui se paga! Ai, como odeio os magrinhos do tipo longilíneos, que foram eleitos pelo criador para comer de tudo e nunca pagar a conta.

O temido barraco nas festas em família não aconteceram, teve uma discussão e outra com os filhos, mas bololô interno não conta. Viajar com filhos crescidos é roça, como diz minha amiga Verinha de São Luis – MA. Fica difícil administrar o conflito de gerações com seres tão íntimos quanto os filhos e agora também o quase genro, confinados num carro numa viagem de 2400 km entre BH e Maringá, ida e volta.

Nessas ocasiões, sempre me lembro do Fábio, meu amigo de BH, me contando que depois de um quiproquó havido numa viagem ao litoral baiano com toda a família, seu pai jurou nunca mais viajar com os filhos adultos. Dito e feito! O Seu Oliveira foi um pai raiz, ele tem o meu respeito!

No meu caso, o “nunca mais” soa fake e fraco desde que sai da minha boca. Aliás, isso vale também para qualquer afirmação mais pesada que eu fizer aos meus pós- púberes bebês de 28 e 30 anos. Sou um frouxo, reconheço. Infelizmente, esqueci em pouco tempo as lições do saudoso mestre Içami Tiba, aquele que dizia: – Pais maus!

Mais uma vez, nestas festas de final de ano, sofri por não beber álcool… Ser um tea total, como denominam os ingleses para um não bebedor convicto, é roça!

O consumo do álcool é condenado pela maioria dos médicos. Mas ninguém pode negar que ele azeita e em muito o relacionamento social. Nunca ouvi alguém convidar um amigo para tomar uma estupidamente gelada Coca-Cola ou um loiro gelado e bem coado suco de laranja?

A minha estratégia passou a ser ao convidar um amigo para sair: – Bora tomar uma…? Sem especificar se cerveja, chopp, Fanta ou Coca-Cola. 

O duro é quando recebo a réplica: – Sabe Rui , hoje tô preferindo comer um Japonês!!!

Chaaape, tô fora!!!

Ao beber, os tímidos ficam falantes, os introspectivos saem da sua conchinha. Já os falantes, em pouco tempo, ficam um porre de se aguentar! A Virgínia, a minha esposa, sempre diz: – Ai se o Rui bebesse… Ele já fala pelos cotovelos sem beber….

Tenho sempre a impressão que por não beber, perco o melhor da festa. Continuo do começo ao final dela no mesmo estado inicial de vigilância e apatia, enquanto os bebedores vão mudando de comportamento, se relaxando e ficando cada vez mais felizes.

Já eu permaneço na mesma, cada vez com menos assuntos inéditos para lançar à mesa, disfarçando a minha deficiência de não bebedor, passando o copo de conteúdo não alcoólico de uma mão a outra e atento como um voyeur à metamorfose das pessoas ocorrendo ali na minha cara.

Para disfarçar, num jantar entre o Natal e o Reveillon em Maringá, onde o meu irmão Caio orgulhosamente ofereceu aos convivas cinco garrafas de vinhos argentinos dos bons, eu meio sem graça, pedi ao garçom uma garrafinha de 300 ml de suco de uva Miolo para o brinde oficial, com uma taça própria para vinho. Poderia pedir a ele uma Fanta uva, mas temi que o gás carbônico do refri pudesse me entregar. Foi o suco Malbec tinto seco mais gostoso que provei no ano!

Nesse tour de final de ano ao norte do Paraná, teve um quê de nostalgia também. Além de visitar a minha tia Elminha e a prima Nice, passei pelas casas onde moramos em Londrina. E em Maringá, visitei além da casa que moramos, as que o meu querido tio avô Otoiti Ogassawara morou com a sua família.

Interessante que ao rever esses lugares da minha infância dos anos 70, mesmo as casas com as fachadas e cores agora irreconhecíveis, ainda preservava algo de familiar e de alguma maneira, elas ainda me pertenciam. Muito difícil de explicar, que sentimento estranho!

Ao olhar para a nossa casa da rua José Oiticica 159 em Londrina, fui transportado pelo túnel do tempo para o dia em que chegamos de carro já de noite e meu pai percebeu que a casa havia sido arrombada pelos fundos. Depois o Seu Mário confirmou, que os bandidos haviam conseguido chegar somente até a cozinha. Fiquei chocado ao abrir a geladeira, que o meu bolo de aniversário de morango estava irreconhecível, com marcas de mãos nele e metade devorado.

O meu pai muito corajoso, chamou um rapaz que passava na rua com a esposa e um bebê, para ajudar a correr atrás dos bandidos. O pior foi que o transeunte desconhecido topou na hora!

A moça e o bebê ficaram com a gente esperando na sala, já o rapaz e o meu pai saíram como loucos pela rua correndo desarmados atrás dos bandidos, gritando aos berros ” Pega ladrão, pega ladrão! ” Depois de meia hora de perseguição, o máximo que encontraram foi a arma do crime, um pé de cabra jogado pelo caminho.

Dá pra acreditar numa cena dessa hoje em dia?

Notei muito feliz que no jardim da nossa casa da rua Germano Mayer 655 em Maringá, a grama amendoim, aquela que se fecha para dormir, ainda continua lá como em 1976. No mais, as únicas testemunhas que eu estive lá um dia, são as sibipirunas da rua, minhas velhas amigas que marcaram a minha infância pelo seu perfume inconfundível exalado nos dias de chuva.

Infelizmente, assim como eu, elas já mostram alguns sinais do tempo. Os troncos estão com sulcos bem marcados e os galhos estão cansados de sustentar o peso dos musgos parasitas acumulados com o tempo e o viço das folhinhas verdes foi desaparecendo aos poucos com o passar dos anos.

Ao parar em frente da casa, que foi um dia do meu tio Otoiti, me lembrei que lá no fundo do terreno tem um poço artesiano, por certo agora desativado e enterrado, pelo atual proprietário do imóvel, e revi por uns instantes o reluzente Opala azul ano 68 de quatro portas do meu tio na garagem.

A casa dos Tanaka, vizinho de esquina do meu tio, que eu sempre achei simpática, continua lá tal qual era no passado, sem tirar nem por. Ao confundir uma placa afixada no jardim por “Vende-se”, por um momento, pensei em comprá – la. Mas logo me dei conta que o tio Otoiti, a tia Netian e família já não seriam os meus vizinhos e eu já não sou mais o mesmo menino de 1976 que chegava lá de bicicleta cansado e reclamando baixinho: – O pai bem que podia alugar uma casa aqui do lado do tio, seria tão bom!

Então, que graça teria morar lá agora?

O escritor Rubem Alves disse um dia: “Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo, porque você vai visitar pensando que vai encontrar o tempo, mas o tempo não está mais lá…”

Rubem Alves tinha razão, o que eu queria na verdade, visitando esses lugares queridos do passado, era reviver de alguma maneira um tempo muito feliz da minha infância, mas infelizmente aquele tempo já não estava mais lá, e o que estava era outro que não reconheci…

Mas voltando para janeiro de 2024 …

Segundo o Estoicismo, não devemos sofrer pelo que não temos ingerência, por outro lado, devemos nos esforçar para fazer o melhor no que está sob o nosso comando.

Por mais que não queiramos, teremos notícias desagradáveis em 2024 que fugirão ao nosso controle. Por outro lado, reagir a esses infortúnios com serenidade será um primeiro bom passo. Uma vida sem problemas, seria o paraíso, não uma vida de verdade!

Não tenho nenhum propósito de impacto para o ano que se inicia, se eu conseguir sair de 2024 um pouquinho melhor do que entrei, já estará bom demais. Um melhor ser humano, menos injusto, menos vaidoso, mais fraterno e cada vez com menos apego à matéria e pessoas.

No mais, tocar a vida com LEVEZA, com o corpo e alma imersos no mundo real de verdade, deixando tudo que é virtual no seu devido quadrado, na condição apenas de um mal necessário, nada mais que isso, completam a minha lista de desejos para esse ano.

Um feliz 2024 a todos os meus leitores!

Rui Sergio Tsukuda – janeiro/24

https://aposenteidessavida.com/

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