O suicídio de Alfonsina

A minha mãe, a dona Mariko, adorava a canção Alfonsina y el mar, escrita por Ariel Ramirez e Felix Lima, eternizada na voz de Mercedes Sosa

Sempre vou me lembrar dela cantarolando essa triste canção pelas manhãs nubladas de Curitiba, enquanto regava os seus vasos na sacada do seu apartamento.

Muito curioso, numa manhã, perguntei a ela o porquê da sua fixação pela canção. Ela me respondeu apenas que um dia faria como a Alfonsina da canção e se suicidaria entrando mar adentro…

Depois descobri, que a Alfonsina da canção foi inspirada em Alfonsina Storni, uma poeta argentina nascida por acaso na Suiça, no início do século passado.

Alfonsina teve uma vida muito difícil. Além da precária condição financeira, foi atormentada por depressão, TOC e paranóia. Mesmo assim, ela conseguiu traduzir a sua angústia existencial nos seus poemas, deixando o seu legado para a humanidade.

Mãe solteira, foi da vanguarda ao lutar pelos direitos das mulheres nos anos 20/30. Por fim, padecendo de um câncer de mama, decide se matar na praia de La Perla em 25 de outubro de 1938. Antes porém, enviou ao jornal La Nacion horas antes da sua morte, um último poema escrito por ela, entitulado Voy a Dormir.

A minha mãe, assim como Alfonsina, nunca encontrou a paz interior nesta vida. Sempre me lembrarei dela quieta, deitada na sua cama embaixo dos edredons no frio de Curitiba, lutando contra seus fantasmas e medos criados pela sua bi – polaridade.

Ela incansavelmente procurou saídas e respostas em sortistas e videntes, buscou a fé como ninguém, saltando de galho em galho, de uma religião a outra.

Um dia era devota do padre Robson do Santuário Divino Pai Eterno, no outro, acordava totalmente descrente de Deus, para depois ir à Igreja Universal e finalmente voltar ao seu velho Seicho – No – Iê.

Intelectual que era, procurou também em vão nas obras dos grandes filósofos, pensadores e psicanalistas, um sentido para a sua vida e finalmente aliviar a sua dor existencial, que segundo ela sempre a acompanhou desde menina.

Os psiquiatras e as drogas receitadas por eles, foram importantes para que a sua doença ficasse compensada. Mas depois, ela sofreu muito por não conseguir voluntariamente fazer o desmame dos remédios.

Mesmo assim, ela conseguiu dar aos filhos e netos, todo amor que existe no mundo e nos criou e nos protegeu, como uma leoa experiente e zelosa defende a sua prole das ameaças da savana.

Por isso para nós, a dona Mariko foi uma grande guerreira, que venceu a luta pela vida e cumpriu a sua missão, sem ter percebido que o maior inimigo estava oculto nela mesma…

Poucos ainda reconhecem que o sofrimento psicológico é tão forte ou pior que o sofrimento físico. Por ser um sofrimento silencioso e invisível, ele é confundido rasamente com apatia ou tristeza.

Por algum tempo, fui voluntário do CVV e pude me aproximar de algumas histórias de vida, onde essa dor não aparente é traduzida em palavras e finalmente ouvida sem julgamentos.

Apesar de ter trabalhado na prevenção do suicídio e reconhecer que sempre haverá uma saída para a dor extrema da alma, que não seja o suicídio, eu admiro a coragem de quem tomou essa decisão.

Por ter TOC e ter tido depressão, entendo exatamente o desespero por uma saída emergencial para sair deste ar sufocante que pode se tornar a vida, que acabe de vez com o sofrimento, que é muito real e vivo para o doente.

Como um voyeur, procuro nos poemas de Alfonsina Storni, Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath e Virgínia Wolf e outros suicidas, algumas pistas para inferir os motivos dessa decisão extrema.

A minha psiquiatra me advertiu que as doenças mentais tem um componente hereditário muito forte.

Daí a importância de identificar desde cedo, os pequenos sinais de neurose nos filhos, antes que se tornem crônicos. Eu e Virginía somos vigilantes em casa com eles, porque não bastando o meu sangue suspeito, o dela tem casos de depressão e suicídio em parentes próximos.

Também o ambiente pode desencadear a doença mental. Na pandemia do COVID 19, muitas crianças desenvolveram o TOC e o gatilho foi o excesso generalizado de higiene nas famílias para conter o vírus.

A dona Mariko falava tanto em dar um fim à sua vida, que esse assunto ficou banalizado entre mim e ela e até brincávamos com o tema:

– Mãe, estou saindo para trabalhar, pelo amor de Deus, não vá se jogar daqui do oitavo andar, hein?

– Imagine a vergonha que vou passar com os vizinhos ao chegar do serviço, me poupe desse vexame, por favor!

Entretanto, no CVV aprendi que quem ameaça suicidar-se, um dia comete o ato de fato. Porque é entendido que a ameaça é na verdade um pedido de ajuda velado.

Mas felizmente, não foi dessa maneira trágica, que minha mãe partiu em 15 de Abril de 2020 e sim por conta de uma insuficiência respiratória grave, que gerou outras comorbidades.

No seu velório, que foi muito breve e à distância devido ao COVID 19, eu disse a ela:

– Mãe, finalmente a senhora vai descansar de tanto sofrimento, espero de coração que encontre na outra vida, a paz interior que nunca encontrou por aqui…

Aos que padecem dessa dor invisível e silenciosa, sugiro primeiro dividir o problema com alguém. Se não tiver ninguém próximo, os voluntários do CVV estarão 24 hs à sua disposição.

Com isso, o inimigo se apequena e se torna menos ameaçador. Depois, procure ajuda com especialistas das áreas de psicologia e psiquiatria, com certeza você encontrará neles o alívio para o seu sofrimento.

Eu, como muitos de vocês, não sei ainda o sentido da vida. Entretanto, acredito que ao nascermos, ganhamos de um amigo muito especial, um presente transitório com um início, meio e um fim.

Como não tivemos o direito de decidir quando a contagem regressiva se iniciaria, entendo que não temos, por conseguinte, o direito de abreviá-la também.

E ademais, no mínimo, não seria de bom tom fazer essa desfeita com um presente dado com tanto amor, por esse amigo tão querido.

Esse texto foi escrito com o pensamento na minha querida mãe Mariko Tsukuda, a quem devo a minha vida e me faz muita falta todos os dias.

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/24

www.aposenteidessavida.com

VOY A DORMIR

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido…

Alfonsina Storni

8 comentários em “O suicídio de Alfonsina

  1. Me amigo e xará, sempre me lembro da Violeta Parra, um chilena que fez a música Gracias a la Vida, um ode à vida, mas tirou sua própria vida, apesar de ter feito essa música. Essa música foi gravada pela nossa querida Elis Regina, que involuntariamente (será??) também tirou sua vida com mistura de drogas e álcool. A depressão é silenciosa, e devemos sim estar o tempo todo alertas para identificar algum sinal com nossos entes queridos. Procurar ajuda não é vergonha!!!
    Grande abraço e tenha um ótimo Carnaval!!!

    Curtir

  2. Oi Rui, tudo bem com todos? Que linda homenagem à sua mãe! Lembrei de alguns encontros com ela, passagens de nossas vidas. As conversas dela com meus pais, principalmente. Sua mãe era muito sábia, conhecia vários assuntos, meus pais gostavam muito dela, eram conversas longas, cheias de detalhes! Particularmente, lembro de quando a levei no Seichô no İê em Curitiba no bairro Bacacheri. Ouvimos a palestra e perguntaram se alguém gostaria de falar. Sua mãe se levantou e fez um lindo depoimento de agradecimento! Outra vez foi quando passei o dia com ela no apto em Curitiba. Tinha passado por cirurgia, aí seu pai me pediu que ficasse com ela. Conversamos muito e como sempre aprendi muito também! Rui, você tem razão, sua mãe deixou um grande legado. Filhos, noras, neta e netos, todos bem! Que Mariko esteja bem, é o meu desejo, de coração!!!

    Em ter, 6 de fev de 2024 20:33, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa

    Curtido por 1 pessoa

Deixar mensagem para Edson Rui Montoro Cancelar resposta