É que eu tava nervoso… 2

Na minha primeira semana de trabalho na CBA, eu conheci muita gente. Eram tantos rostos e nomes, que para não esquecê-los, eu os anotava na minha caderneta de bolso.

Das pessoas que conheci naquela semana, um nome no entanto, me marcou tanto,  que nem precisei adicioná-lo ao meu caderninho.

– Nos anos 80, Steve Jobs nem pensava ainda em inventar o celular inteligente, o máximo que a gente tinha era um relógio Casio que salvava 30 números de telefone, que o Daniel meu querido amigo da CBA, consertava a pulseira com durepoxi sem cobrar nada da gente –

Ele com um sorriso no rosto se apresentou:

-Seja bem vindo Rui, eu sou o Paulo Desmaio.

Paulo era baixinho, ruivo e gordinho, uma versão menor de Chris Farley, aquele homorista que fez o filme Um ninja da pesada e que, infelizmente se suicidou ainda jovem.

Fiquei curioso pelo sobrenome. Apesar disso, segurei o meu ímpeto do Rui sincerão ou do Rui sendo Rui, e não perguntei a ele a origem do seu sobrenome.

Pensei cá comigo:

-Na primeira semana de trabalho é importante deixar uma boa impressão, mesmo que ela seja falsa.

Mas, assim que eu e Paulo nos despedimos, não aguentei e perguntei ao Barba, meu braço direito na sala Branca:

-Barba, que sobrenome estranho daquele técnico da elétrica.

-Quem Rui? O Paulo Desmaio?

-Esse mesmo..

-Não Rui, você entendeu mal. Desmaio não é o sobrenome dele, é o apelido…

-Mas Desmaio?

-É uma longa história…

-Paulo fazia escala 6×2 no passado. Na época, a boca pequena falava que a mulher dele o traia com um outro homem. O rala e rola com o amante acontecia na casa dele na vila industrial no turno da noite de 0 h às 8 hs, enquanto o Paulo estava na fábrica trabalhando.

Como todo chifrudo tradicional, ele era o único que nem desconfiava da história. Os colegas dele de turno, inconformados com essa situação do amigo, planejaram um flagrante…

Um olheiro entrou mais cedo na fábrica naquela noite e ficou de campana em cima de um decantador de lama vermelha de 5000 m3, que dava vista para a casa do Paulo na vila. Assim que o cornudo saiu de casa em direção à portaria da fábrica perto de 0h, ele viu o Ricardão entrar sorrateiramente na casa dele.

Foi o sinal que o dia D havia chegado!

Assim que Paulo chegou na sala dos técnicos, um outro colega inventou uma estorinha, dizendo a ele que havia fumaça saindo da sua casa e que ele deveria retornar urgentemente até lá para verificar.

Ao ouvir isso, Paulo muito profissional que era, perguntou primeiro se teria alguém para cobrí-lo enquanto estivesse fora do seu posto. Com a confirmação dos colegas, ele apressadamente fez o caminho de volta para casa.

Ao chegar em casa não percebeu nenhuma fumaça ou cheiro dela, mesmo assim, abriu a porta da sala e adentrou até o quarto do casal para verificar se tudo estava bem com sua esposa.

Ao acender a luz do quarto, ele viu a sua esposa com o Ricardão, na mesma cena do filme em que Norbit pega a Rasputia com seu personal trainer na cama.

Paulo ficou tão chocado e surpreso, que o seu corpo deu um unplanned shutdown e ele desmaiou na frente da esposa adúltera e de seu amante, aos pés da cama!

Para encurtar a estória, foi o Ricardão quem o socorreu e o levou ao hospital.

-Barba, que situação hein… O coitado ainda teve que agradecer ao Ricardão por ter salvado a sua vida.

-É Rui, dureza!

-Depois, o Paulo se separou da esposa e de tanto pegarem no pé dele, ele assumiu o apelido e assim ficou até hoje.

Plim , Plim….

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Divino, foi um técnico de turno que trabalhou comigo e era fora da curva. Fora da curva talvez não seria o termo mais adequado. Estranho ou ogro talvez cairia melhor.

Ele era um sujeito forte, atarracado e sapudo, cujo cabelo e feição se pareciam muito com o incrível Hulk da TV, mas bem menor e não era verde.

Muito inteligente e letrado, conversava comigo sobre economia e política numa profundidade, muito além do meu conhecimento raso desses temas. Eu topava com ele aos domingos na banca de jornal na praça de Aluminio.

Ele sentado num dos bancos da praça, devorando de cabo a rabo o jornal Estadão de domingo, que naquele tempo era da espessura de um volume da enciclopédia Delta Larouse.

Muito esperto também, quando eu o avistava de longe na calçada ao lado dos tanques hidrolisadores de 1000 m3, ele sumia da minha vista. Eu acho que ele era pupilo do mágico David Coperfield, porque era incrível como o danado desaparecia do nada. Com certeza era por medo que ele tinha de mim, da minha sabatina diária.

Ele era solteiro, estava na faixa dos 30 anos e morava no hotel dos técnicos. Os colegas da fábrica, inconformados com a sua solterice, bolaram um plano para ele finalmente começar a namorar e quem sabe se casar.

Após almoçar, Divino, amante dos livros que era, passava na biblioteca da vila para ler um pouco antes de voltar ao trabalho. Quem o atendia lá, era uma bibliotecária, cujo nome esqueci, que como ele, era uma nerd fora da curva e solteira.

Alguém teve a ideia de fazer um miai com Divino e a bibliotecária. – Um termo japonês para um encontro arranjado, para que dois tímidos se encontrem e quem sabe namorem e se casem –

Para isso, um colega escreveu dois bilhetinhos, mais ou menos assim, e os fizeram chegar anonimamente até ela e ele respectivamente:

-Divino, eu fico sempre aqui na biblioteca esperando ansiosamente a sua chegada e não vejo a hora para te atender. Muitas vezes nem almoço para não perder a oportunidade de te ver mais uma vez. Assim que você se senta à mesa, para ler o seu livro, eu fico observando de longe calada sentindo a sua presença. Mas como sou tímida, não tenho coragem de dar um passo a mais para te conhecer melhor. Ai como eu queria assistir a um filme com você em Sorocaba e quem sabe pegar na sua mão…

-Fulana, depois do almoço, o meu programa favorito é dar uma passadinha na biblioteca. A desculpa para mim mesmo, é ler um livro antes de voltar ao trabalho. Mas na verdade, eu vou aí exclusivamente para te ver, sentir o seu perfume e deixar o meu dia mais alegre. Não sei se você notou, mas todas as vezes que pego o livro da sua mão, a minha treme de tanta emoção. Eu queria tanto convidá-la para ir ao cinema comigo em Sorocaba num domingo desses, mas a minha maldita timidez não deixa isso acontecer…

Ninguém sabe dizer, qual foi a importância desses dois bilhetinhos, mas o fato é que em pouco tempo, eles começaram a namorar, se noivaram e se casaram.

Mas ao retornar da lua de mel, os dois tiveram que ir a uma consulta com o Dr Enio Lippi, que era o médico da CBA. Pessoa boníssima, muito brincalhão e pai do deputado federal e ex-prefeito de Sorocaba Vitor Lippi.

-Pois não, qual o problema?

-Doutor, nós casamos recentemente e acabamos de chegar da lua de mel.

-Parabéns ao casal, mas qual o problema?

-Pois é doutor, fico muito sem graça em dizer, mas apesar de tentarmos muito, ainda não conseguimos consumar a nossa união. Nós dois estamos esfolados de tanto tentar, mas o arteiro ou encapetado não entra de jeito nenhum….

Depois de uma pausa para o doutor Lippi se recompor depois de tanto rir, ele respondeu:

-Caros, vocês dois pelo jeito são virgens. Fiquem tranquilos que isso é normal de acontecer. Continuem tentando com calma, que tudo dará certo. Tudo a seu tempo e boa sorte!

E não é que deu certo! Logo depois o casal teve um filho e outro…. Agora estou em dúvida se foram dois ou três filhos.

O doutor Lippi, não conseguiu manter a  discrição do caso e o compartilhou com alguém, que contou para outro alguém… e finalmente esse causo caiu na boca do povo, na rádio peão da CBA.

Eu apenas vendo o que comprei, deixo aqui o registro eternizado!

Rui Sergio Tsukuda – março/24

www.aposenteidessavida.com

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