Como todo descendente de japonês e nascido em colônia, cresci ouvindo português e japonês.
Logo cedo, aos seis anos, a Dona Mariko, minha mãe, nos colocou, eu e meus irmãos para estudar japonês, além das aulas regulares no Grupo Escolar Hugo Simas, no centro de Londrina.

Na escola Megumi, perto de casa, eu estudei japonês por três anos. Depois, já adulto, quando fazia Engenharia Química em Curitiba, voltei a estudá-lo por mais dois anos numa escola de um sensei já velhinho, mas muito paciente. E mais recentemente, aqui em BH, fiz mais dois anos de aulas particulares nesse idioma, com uma sensei japonesa da gema.
Apesar dos acumulados sete anos de estudos da língua japonesa, passo longe de ser fluente em japonês. Entendo e falo pro gasto e só sei escrever em hiraganá, que é a escrita básica das crianças japonesas ( acima ) e katakaná ( abaixo ), que é a linguagem para as palavras estrangeiras, como uisuku ( whisky ) e handukechifu ( handkerchief, lenço em inglês ).

A escrita em ideograma ou kanji, que é o filet mignon do japonês, eu sou zerado. Quando eu soube que para ler um jornal ou shimbum, eu precisaria saber uns 2000 kanjis de cor e salteado, eu chutei o pau da barraca!

Outro motivo de ter desistido do idioma, foi que a minha mãe, o tio Otoiti e a tia Netian, com quem eu trocava cartas e conversava em japonês, já viraram estrelinhas. Já os poucos amigos nikkeis da minha geração que tenho, não sabem ou não se interessam pela língua dos nossos ancestrais.
Agora aposentado, eu poderia tentar decorar uns 50 kanjis por mês. Então, sendo bem otimista, em uns quatro anos, eu daria conta de ler um shimbum.

-Sinceramente, eu tenho dó das crianças japonesas que só dão conta de ler um jornal aos 15 anos mais ou menos. –
Mas para que eu me esforçaria tanto me dedicando a aprender o japonês, se no Japão com o meu inglês, eu me viraria muito bem. Além disso, lá apesar da minha cara e sobrenome Tsukuda, eu seria tratado como um estrangeiro qualquer.
Para falar a verdade, eu prefiro gastar a minha beleza que me resta, memorizando os acordes de violão das canções do song book do Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que me dão muito mais prazer do que ter um japonês fluente.
Quem inventou o japonês deve ter pensado assim: Para que simplificar se eu posso complicar. Por exemplo: A contagem não é um, dois, três, quatro…. para todas as coisas e pessoas, como numa língua ” normal” .

Em japonês, para a contagem de pessoas, os números tem uma terminação específica, assim como para máquinas, computadores e carros, pratos e folhas de papel, frutas e verduras, objetos em forma de tubo…. , cada um deles com a sua contagem distinta.
Mas lamento a minha mãe ter decidido que aos 12 anos, eu não conseguiria aprender dois idiomas novos ao mesmo tempo, além do português. Ela tinha a crença, que eu iria fazer a maior confusão com os dois idiomas e não aprenderia bem, nem um, nem outro. Mas acho que ela estava enganada…
Por exemplo, os três filhos do meu ex-chefe Marc, que é francês, quando moravam em BH , estudavam inglês, português e francês e ainda falavam em espanhol com a mãe deles , que é uruguaia. Marc nos contava que às vezes, eles soltavam palavras em português ou espanhol numa conversa em francês ou inglês, mas ele se surpreendia como a molecada lidava bem com tanta informação.
Entretanto, eu agradeço muito a Dona Mariko por ter apostado no inglês para mim e meus irmãos. Naquele tempo, nos anos 70, eram poucas crianças que tinham esse privilégio. O inglês fluente, foi um diferencial na minha carreira e do caçula, Binho. Para o Caio, o mais velho ou nitian, nem tanto. Esse nasceu com o dom de vendedor, daqueles que vendem sorvete para esquimó e o português lhe basta. Mas se precisar, o Caio vende enciclopédia Barsa em inglês também.
Eu estudei inglês dos 12 até os 23 anos, quando saí da universidade. Na CBA eu era o tradutor nas reuniões com empresas de consultoria da Austrália, EUA e Suíça. Na Alcoa, Lhoist e Imerys eu usei muito o inglês nas reuniões de trabalho e em viagens internacionais.

Na CBA, eu trabalhei por dois anos com um grupo de venezuelanos. Fiz um acordo com eles para falar somente em espanhol e ao final do dia Luiz Hernandez e Guillermo Adrian, gentilmente me davam aulas de gramática de graça. Na Imerys, pude praticar o espanhol com os meus amigos brasileiros João Henrique e Elton, que falam bem o idioma e sem saber, me ensinaram muito. Aprendi bastante o espanhol também durante as viagens às plantas da Imerys na Argentina.
Na Lhoist, eu percebi que só com o inglês não seria suficiente… Alguns belgas na cara dura, paravam de falar em inglês e mudavam para o francês no meio da reunião. E não era raro isso acontecer, numa indelicadeza sem tamanho com os que não sabiam francês.
Na primeira vez que fizeram isso na minha frente, eu me lembrei da minha mãe falando mal da nossa empregada em japonês, enquanto a coitada, sem saber de nada, continuava a nos servir a comida sorrindo.
O primeiro pensamento que me veio à mente foi, claro que eles estão falando mal da gente!
Foi nesse momento que eu tive um insight:
-Rui, bora aprender francês!

Cá entre nós, eu sempre achei que o francês na boca de uma moça lindo e musical. Mas na boca de um homem, muito, mas muito afeminado! Bem ploc ploc, como falam os gays discretos dos gays afetados, tafetá.
Mesmo assim, eu coloquei o desafio para mim mesmo aprender francês aos 44 anos e dar um troco nesses gringos, para nunca mais eles fofocarem em francês na frente de ninguém.
Depois de três anos de muito esforço, eu me vinguei deles, quando um deles ousou em trocar o inglês pelo francês numa reunião virtual.
–Est-ce que vous pouvez parler seulement en Anglais pendant la réunion, s’il vous plait? Parce que ni tous ici parlent en Français. Merci
Vocês poderiam falar somente em inglês na reunião, por favor, porque nem todos aqui falam em francês. Obrigado
Voilà!
Mas no começo, aprender uma nova língua já erado foi bem difícil, como todo brasileiro, eu só sabia do francês: abajur, soutien, baguete e menu…
O João Carlos foi meu professor de francês. Apesar de ser brasileiro e mestre também de inglês, português, alemão e italiano; o francês dele é muito bom. Bem, foi isso que disse o Etienne, um belga aluno dele de português.
Eu tinha duas aulas por semana na casa dele em Santa Luzia, na região metropolitana de BH. Eu ficava um pouco constrangido, quando ele sentado bem na minha frente fazia um bico com a boca, parecendo me pedir um beijo, bem boiolado mesmo. Por segurança, eu pedia a ele para deixar as portas e janelas da casa abertas…
-Rui, il faut faire un bec comme ça. ( Rui, é preciso fazer um bico, assim.)
–Le mur. ( O muro. )

Naquele dia eu pensei, já que tô na chuva, bora se molhar e sair do armário! Além de soltar a franga e fazer bico a toda hora, aproveitei para deitar o erre também. Com o meu erre de pé vermelho de Londrina, não dá pra falar francês, nem com reza!

Mas eu percebi que somente as aulas com o João, não seriam suficientes para aprender uma língua do zero em pouco tempo. Então, entrei no site Français Facile ( https://www.francaisfacile.com/ ) e me inscrevi lá, para me corresponder em francês com alguém.
Lá você pode escolher o gênero e a idade da pessoa com que você queira se corresponder em francês. Eu escolhi me corresponder somente com mulheres de 30 a 50 anos.
O meu racional foi que corresponder com homens iguais a mim, não ia dar muita conversa ao final do dia ou da semana. Normalmente os homens são monossilábicos, falam pouco. Talvez seja preconceito meu, mas foi o que pensei.
–Comment s’est passée ta journée? ( Como foi o seu dia hoje? )
-Ma journée a eté bonne. ( Meu dia foi bom.)
E só…
Mas antes, pedi permissão da Virgínia, porque esse negócio de me corresponder com o sexo oposto, mesmo com o objetivo de aprender um novo idioma, poderia dar xabu em casa.
Com o OK dela prossegui. Mesmo assim, ela reclamou muito porque eu gastava muito tempo com as minhas correspondentes francesas…
O meu codinome ou mot de passe era Très Heureux, ou Muito Feliz, que atraiu muitas mulheres. Eu escolhi três delas para uma correspondência regular. Évelyne, uma parisiense desquitada, 45 anos, com uma filha; Marie uma moça de Lyon 30 anos e solteira; Danièle 50 anos, casada, dois filhos que morava em Clermont – Ferrand.
Das três, eu prossegui apenas com a Marie, porque ela devolvia as minhas cartas em francês corrigidas, além disso ela tinha muita sensiblidade para perceber as minhas dificuldades no idioma e sabia se expressar muito bem.
Com ela aprendi muito sobre o francês falado no dia-a-dia, que me interessava e que o João não tinha como me ajudar. Trocamos em três anos quase 1500 páginas de cartas. Já a Évelyne, estava numa fase muito carente e queria algo além do francês, então eu e Virgínia decidimos pular fora. Com a Danièle, ela aos poucos foi se desinteressando de escrever regularmente para mim, devido a sua rotina pesada.
Numa das viagens que fiz à França a trabalho, eu tive um final de semana livre, quando eu poderia pegar um trem de Paris para Lyon para finalmente conhecer a Marie pessoalmente. Mas tanto ela como eu, achamos melhor deixar a nossa amizade no ambiente virtual e não perder a magia do desconhecimento.
Ter TOC, é ser obssessivo também com algumas coisas interessantes. Eu estava tão fissurado em aprender o francês naquela época, que eu estudava o idioma 30 horas ou mais por semana e ainda de vez em quando, ligava para o Alysson, na época meu engenheiro de processos em Arcos -MG , só para falar em francês com ele para treinar o idioma.
Uma vez, eu estava com o Fernando, um outro engenheiro que trabalhava comigo, no aeroporto de Confins. O nosso vôo estava atrasado e o saguão do aeroporto estava bem cheio. À minha frente havia um casal de gringos.
Eu pensei: -Se eles fossem franceses, ou de um país francofone, eu os abordaria, apesar da minha timidez típica da minha raça.
– Fernando, eu tô doido para conversar em francês com esse casal de gringos à nossa frente. Já percebi que eles falam francês, veja que tá escrito Brésil no livro que a mulher tá lendo.

-Aqui… Eu vou ligar pro Alysson agora e conversar em francês com ele, você fica de olho na reação deles e depois me fala.
Tive sorte porque o Alysson pôde me atender. O nosso código era se eu começasse a falar em francês ele continuava. Como eu era o chefe dele, ele queria sempre me impressionar.
-Então Fernando, qual foi a reação deles?
-Rui, assim que você começou a falar em francês, os dois sorriram um para o outro e falaram alguma coisa.
Ouvindo isso, não tive dúvidas e também com um sorriso no rosto eu os abordei. Para a minha surpresa eram canadenses de Montreal e estavam de férias no Brasil. Naquele momento, me lembrei do João menosprezando o francês dos canadenses de Quebec ( Québécois français).
-Eles falam um francês caipira, Rui. Sotaque feio demais, nem vou lhe contar como é, porque não vale a pena você aprender. Eu te ensino aqui o francês castiço.
Para terminar essa longa crônica, quando me falam, exagerando que eu sou quase um poliglota, eu respondo que eu tenho a síndrome do pato:
Que nada, corre, canta e voa, mas infelizmente, não faz nada bem feito!
Sério, para saber um outro idioma na mesma profundidade do português, eu precisaria fazer como a minha querida amiga Marina GG, que migrou para a França há muitos anos, se casou com um francês, teve filhos e ainda mora por lá.
Mas para isso acontecer, só nascendo de novo!

Rui Sergio Tsukuda – março/24
www.aposenteidessavida.com
Rui, quando morei na Arábia pegamos amizade com um casal, um francês e uma espanhola, gente finíssima! Ele falava que para aprender um novo idioma é arrumar “un diccionario de pelo largo”, ele falava bem o espanhol.
Pandemia, resolvemos eu e a Mirnei estudar italiano à distância, apesar do professor ser de Poços de Caldas. Aprendemos bastante, mas não praticamos mais fazem quase 4 anos. Vale aquele ditado, “O que não se usa, enferruja!”. No passado, ainda em Poços, antes de ir prá Arábia, estudamos espanhol por comodidade, a escola era em frente à nossa casa, era só atravessar a rua.
O que faço prá não esquecer é ver filmes em espanhol e em italiano com as legendas originais, nada de português; ajuda um pouco. Mas o melhor seria visitar o país e falar com as pessoas na rua!
O árabe, eu até comecei a estudar,pois ficava no alojamento durante a semana, e ia prá casa na Quinta a noite. Tinha aula as Quartas a noite; ai o prof resolveu mudar para Quinta, sacanagem! eu não ia deixar de ir prá casa prá estudar árabe. Eu já lia tudo, mas ainda faltava desenvolver o vocabulário, pois a maioria eu lia e não sabia o significado.
Estudar outra lingua é muito bom, o cérebro fica mais ativo!
Grande abraço.
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Muito legal o seu comentário Montoro. Aprender espanhol e italiano deve ter sido mais fácil para vocês, porque assim como o francês é do latim, agora árabe é bem complicado hein? Agora o seu inglês que já era bom, ficou 10 né?. Igual cê falou, se não usa atrofia, o meu japonês tá bem assim. No último domingo topei com um japonês da gema, quase num dei conta de conversar com ele. Abraço
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Oi Rui, muito legal você compartilhar suas histórias! Especialmente sobre seu aprendizado do francês é muito interessante ! Precisa chegar ao conhecimento de jovens estudantes!! Parabéns Rui, continuo fã de suas crônicas!! Abraços!! Em dom, 31 de mar de 2024 19:54, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa
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Oi Neide, obrigado pelo comentário, continue passando por aqui e comentando. Aproveita que a Ju é uma folha em branco, ensina a ela você e Álvaro ,o nihongô além do inglês. Cê vai ver como ela da conta! Abraço
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