A felicidade

O Tom Jobim disse numa canção que a felicidade é:

Como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve, mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

Desde que nascemos, somos influenciados para buscar a felicidade, mesmo sem saber exatamente o que ela seja e onde esteja.

Ao longo da vida, cada um vai customizando a felicidade ao seu jeito, já que em todo lugar se ouve e há uma cobrança velada para sermos felizes, nada menos que isso.

Nas entrevistas nas casas lotéricas próximas a um sorteio de Mega Sena acumulada, as pessoas enumeram o que comprariam e fariam se ganhassem o grande prêmio, reforçando a crença de que o dinheiro não traz a felicidade, ele a busca!

Claro que com fome, sede e frio não dá para ser feliz e Maslow traduziu isso bem na sua pirâmide. Mas acredito que com as necessidades básicas que o dinheiro pode comprar satisfeitas, há uma grande distância para se atingir a tão sonhada felicidade.

Quando a empresário Carlos Ermírio de Moraes do Grupo Votorantim, descobriu um câncer na próstata em estado avançado aos 51 anos, eu pensei:

– Pôxa, com certeza o Dr Carlos daria 1 bilhão de dólares em troca da sua cura da doença, mas infelizmente a sua condição paliativa está nivelada a de um mendigo que é atendido pelo SUS. Claro que até morrer ele continuará com todo conforto no hospital Sirio Libanês e seu colega de infortúnio estará, se tiver muita sorte, num leito de enfermaria lotada de uma Santa Casa, mas a sobrevida dos dois será próxima.

Há quem ainda acredite que a felicidade é a total ausência de sofrimento, um shangri-lá com estado mental de nirvana aqui na Terra. Roberto Carlos, achou que em algum lugar além do horizonte encontraria tudo isso:

Além do horizonte deve ter
Algum lugar bonito pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
Alegria e felicidade com certeza
Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva escutando o canto dos pássaros…

Sonhar não custa, né?

Tenho a impressão que atualmente, neste mundo hedonista super-hiper conectado, há uma competição entre seguidores e seguidos para se chegar a almejada felicidade. Fotos, selfies e videos de paisagens paradisíacas com jabs de felicidade, são postadas nas redes sociais. Antes porém, cuidadosamente editadas, para deixar o seu amigo de rede ou seguidor ainda mais para baixo.

Como ser feliz com tanta comparação desleal?

Quando entro nas páginas do Instagram de celebridades, eu noto por um instante, que o sofrimento e a angústia inerentes ao ser humano sumiram,  escafederam-se como Arlindo Orlando da canção da Blitz.

Mas logo vejo que Nietzsche tinha razão ao dizer que “É preciso doer como nunca, para não doer nunca mais” , ao perceber que as mesmas pessoas que postaram a felicidade dias atrás, se matam dias depois ou bloqueam as suas páginas, alegando estarem em profunda depressão.

Eu, em 2024,  já quase entrando na terceira idade, e portanto na última parte do filme, em que o mocinho já conheceu, separou e reencontrou a mocinha novamente e estão quase sendo felizes para sempre, afirmo modestamente que a felicidade sem sofrimento não existe.

Sempre haverão na vida pequenas chateações e grandes sofrimentos, como a morte de um querido amigo ou familiar, a angústia de abrir o resultado de uma biópsia da próstata ou mama, uma batida no seu carro zero quilômetro por um fusquinha 68 detonado, um tombo do cavalo lesando o seu manguito rotador do ombro direito ou ainda saber que o seu nome está no CADIN, por uma multa de um carro vendido e não transferido há 20 anos.

Outros mais evoluídos que eu, afirmam que não é possível ser feliz neste mundo com tanta fome, injustiças, guerras e desigualdades sociais. Eu respeito a opinião deles, mas estou com Djokovic quando disse: – It is, what it is.

Então, bora ser feliz neste caos mesmo, porque é o que temos para hoje!

Acredito que a felicidade exista e ela é sobretudo construída. É feliz quem mantém coerência com seus valores. As  boas atitudes do ponto de vista moral / ético, o universo ou uma força maior  retribuem com coisas boas. O oposto também é verdadeiro.

Os momentos felizes, os vejo como um bônus antecipado para suportar os momentos difícies, que certamente virão. Nesses picos e vales vamos tocando a vida em frente com arranhões e cicatrizes, mas no rumo certo.

Então, posso afirmar que eu atingi a felicidade nesta primeira vida!

Confucio disse um dia que a gente tem duas vidas, a segunda começa quando percebemos que só temos uma. Ao se confrontar com uma doença grave por exemplo, é percebido que os problemas anteriores nunca existiram de fato, tipo eu era feliz e não sabia…

Mesmo assim, nessa condição, dá para ser feliz? Acredito que sim. O jornalista Gilberto Dimenstein, aquele que disse que o Brasil é uma nação de espertos que reunidos, formam uma multidão de idiotas.

Escreveu no seu último livro, Os últimos melhores dias da minha vida, que os dias depois do diagnóstico do câncer de pâncreas, foram os mais cúmplices, profundos e felizes da sua vida.

É um livro triste e profundo que vale muito a pena ler.

Quando me dou conta estou no último quarto da minha existência e as jabuticabas da minha cumbuca estão no fim, por isso as chupo até o caroço, parafraseando Rubem Alves, o meu desafio agora é viver em paz com as pessoas que me cercam e mais importante comigo mesmo.

Cheguei a essa conclusão, depois que li em algum lugar por aí…

“A partir de certa idade, não é mais a felicidade que se busca, mas a paz, e talvez essa seja a forma mais profunda de felicidade.”

Rui Sergio Tsukuda – maio/24

www.aposenteidessavida.com

6 comentários em “A felicidade

  1. É meu amigo, a felicidade é algo que todos sonham até o dia que somos chamados a prestar contas. As vezes me pergunto, prestar contas do quê? Do que fizemos, do que deixamos de fazer? Ainda não sei a resposta! Acredito que o mais importante é buscar viver da melhor maneira, curtindo sua família o máximo que puder (é o que fiz com meus filhos e faço agora com meu neto!), e também curtindo os amigos. Eu já entrei na minha última etapa, vou completar 68 em Julho! Mas ainda jogo futebol! Mentira, meu joelho não deixa!

    Ontem tive a má notícia do falecimento do nosso amigo da Alumar de longas, datas, o Gilberto Lopes, não sei você chegou a conhecê-lo. Um cara muito inteligente, com uma capacidade analítica impressionante; mas fumava muito! Ele foi feliz??? Do jeito dele, acredito que sim. Na última vez que o encontrei, já uns 4-5 anos, estava na Hydro trabalhando com um assunto novo (o que ele mais gostava), indústria 4.0 e estava super empolgado.

    Graças a Deus tenho uma vida privilegiada, tenho uma boa aposentadoria, faço meus trabalhos de consultoria e treinamentos, que gosto muito por sinal. Vejo meus filhos bem sucedidos e moro pertinho do meu neto; o que quero mais da vida? Ganha na Mega Sena acumulada??? Certamente não! Nem sou um jogador assíduo!

    Vamos aproveitar o que temos, isso me lembra uma frase, sem querer ser piegas: “Não tenho tudo que amos, mas amo tudo que tenho”. OS negativistas dirão, com dinheiro é fácil; eu diria que sim, é mais fácil, mas como você disse, uma doença grave inesperada não tem dinheiro que te livre dela.

    Vamos aproveitar aqui e agora, sem prejudicar ninguém obviamente.

    Grande abraço meu amigo.

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    1. Oi Montoro, obrigado pelo comentário, nesse último quarto de vida não há quem não faça reflexões, eu acredito. Tem dias que acredito como você na prestação de contas, noutros não… Não me lembro do Gilberto, mas já ouvi falar dele na Alumar.
      Uma boa notícia, o Wlad vem em BH no mês que vem num congresso e você vira também? Bora nos encontrar?

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  2. Oi Rui, valeu pela crônica, João Donato e Gilberto Gil , João Gilberto e indicação do livro de Dimenstein!! Pra mim, com 70 anos ainda este ano, felicidade é ter saúde, paz e dias alegres com minha Juju!!! Abraços!!!

    Em qui, 2 de mai de 2024 12:19, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa

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