Sempre achei a morte um acontecimento no mínimo injusto. Desde o nascimento, lutamos contra muita coisa para finalmente vingarmos.
Uns pelo acaso, azar ou castigo, sofrem mais que outros, mas cada um leva uma cruz nas costas durante esta viagem. Não existe vida sem sofrimento, e ele é indispensável porque nos faz pessoas melhores.

Para muitos como eu, a principal batalha é contra a gente mesmo, como se fosse um eterno fogo amigo ou uma doença autoimune da alma impiedosa.
Literalmente dormimos e acordamos com o inimigo. Para piorar, ele nos conhece como ninguém. Mas neste caso, a luta não é tanto para sobreviver, mas para não desistir de viver.

Atire a primeira pedra quem nunca pensou num dia cinza, em pelo menos dormir e não acordar nunca mais?
E nas curtas tréguas entre um combate e outro, somos lembrados pela patrulha atenta que não basta sobreviver, estamos aqui para sermos felizes, nada menos que isso, meio parecido com aquele reclame antigo da pomada Gelol.
Quando finalmente já sabemos como este jogo funciona, estamos calejados para não cair em qualquer arapuca de bambu sem vergonha, que o inimigo deixa pelo nosso caminho e até já estamos apreciando a paisagem da janela, vem alguém que nunca vimos mais gordo na vida e nos avisa:
– Rui, o seu tempo aqui infelizmente acabou!
O infelizmente aqui é por minha conta, no mundo de verdade nem aviso ou presságio existe de fato.

E assim, como se a nossa existência se resumisse a apenas uma pedrinha sem valor lançada num lago, que ao cair na água faz aquelas ondinhas que se propagam no seu entorno, mas que logo desaparecem e tudo volta a ser mansidão como sempre foi. A gente simplesmente some de cena, como se nunca tivéssemos colocado os pés aqui.

Talvez por esta triste condição humana, haja tanta obsessão para se deixar uma pegada firme da nossa passagem por este lugar, seja pela arte, pela ciência, pela bondade e também pela maldade.
Assim, alguns poucos eleitos, dos bilhões de seres humanos que já existiram, conseguem de alguma forma a tão sonhada imortalidade.
Tom Jobim se foi, mas quando ouço As Águas de Março ou Chovendo na Roseira, é como se ele estivesse tão vivo, como eu estou agora escrevendo este texto.
O mesmo vale para Freud, Sêneca, Drumond, Hitler, Madre Tereza de Calcutá, Bin Laden, Einstein e tantos outros imortais.
Aliás, pensei muito no Gerônimo, na semana passada em Nova Iorque ao visitar o Memorial das Torres Gêmeas, quanto rancor no coração desse homem meu Deus!

Quando eu fui demitido do meu primeiro emprego, eu emulei sem querer o baque que é sair de cena sem aviso prévio, assim de chofre, típico da morte.
Ao ouvir a sentença capital, eu respondi ao meu então chefe:
– Tantos problemas pra resolver hoje, tanques transbordando, linhas entupidas, planejamento da parada geral da semana que vem ainda não revisado, orçamento do ano que vem atrasado e você me mostra o cartão vermelho, assim do nada? Não é justo!
Entretanto, há quem resista à intimação extra-judicial de despejo. Foi o caso do meu amigo Ricardinho:
– Ok chefe, mas preciso de mais duas semanas para fazer a partida do forno de calcinação. É meu projeto e não saio daqui sem finalizá-lo, depois você pode me demitir, roncou grosso o danado!
E não é que o pidão foi atendido!
Pena que com a Senhora Morte, como sempre se referia a escritora Lya Luft sobre a morte, não tem negociação e o chorinho de praxe ao vendedor de caldo de cana ou o bis da platéia ao final de todo show de MPB, aqui não cabe.
Tento imaginar a frustração daqueles que acumularam em vida tanta riqueza e no afã de ter mais e mais, se esqueceram de tirar férias e trabalharam até tarde todos os dias, inclusive nos finais de semana.

Quanto eles pagariam para ter pelo menos um ano de vida a mais para finalmente usufruirem o que conquistaram?
No entanto, há a possibilidade de sair do palco sem atropelamentos. O meu pai, seu Mário, teve esta ” oportunidade de ouro ” .
Eu estava com ele na consulta com o oncologista, quando o médico disse calmamente ao meu pai:
– Seu Mário, a sua sobrevida será de 12 meses, talvez menos…
Embora esse tempo tenha sido importante ao meu pai para se despedir da família e do seu único amigo, seu Juarez, mas chegou um momento que ele ficou com tanto tédio por aguardar a Senhora Morte chegar que desabafou:
– Sabe Rui, eu não sabia que morrer era tão demorado!

Aqui…. Você prefere o Mike Tyson, nos seus melhores tempos, aplicando de uma só vez o líquido transparente e viscoso de uma ampola de Benzetacil 1200 UI no seu bumbum, ou prefere a minha musa Charlize Theron aplicando esse mesmo medicamento demoradamente e ainda fazendo contato visual com você, enquanto pressiona delicadamente a ampola da seringa no seu derrière?
Eu ainda tô com os árabes, que nas despedidas nos desejam uma vida longa e uma morte rápida!
Continuo com a crença, que a graça da vida é não saber o dia do desembarque!
Agora, viver eternamente jovem como a Adaline do filme The age of Adaline, não deve ter graça nenhuma. Ver a família e amigos envelhecerem e morrerem, enquanto a gente permanece jovem para sempre, talvez não seja um presente, mas um grande castigo.

O Pe Correia, a quem eu confessava os meus pecados toda santa semana, me dizia entre um sermão e outro, que após o juizo final, saberemos todos os mistérios que intrigam a humanidade, como por exemplo: para que estamos aqui, de onde viemos, para onde vamos, a origem da vida, vida extraterrestre, os segredos de Stonehenge, das pirâmides do Egito, dos moais da ilha de Páscoa e tantos outros…
Na reunião presencial com Deus no juízo final, eu penso em levar debaixo do braço impresso, o singelo poema em três estrofes do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, como se fosse uma cola para a entrevista com o Criador:
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?
Depois para terminar ainda ousaria …
– Desculpe – me Senhor, mas não estou aguentando de tanta curiosidade:
– Quem são os seus pais mesmo?
Mas como João Grilo, do Auto da Compadecida, vou ficar super feliz se Deus me conceder retornar à Terra e continuar por aqui a conviver com a minha total ignorância sobre os mistérios da humanidade, que tanto me intrigam desde menino.

E continuaria a viver um dia de cada vez, sem nenhuma grande expectativa na vida, assim como vivem as minhas éguas Luma e Paloma do sítio Duas Alegrias, mas com toda paz no coração, até a Senhora Morte resolver um dia vir me recolher.
Aos que ainda tem muita dificuldade em aceitar a própria morte, segue uma frase atribuída a Sócrates no momento em que bebia cicuta, condenado pelos cidadãos de Atenas a se matar:
“Se a morte for um sono sem sonhos, será bom; se for um reencontro com pessoas que amei e se foram, será bom também. Então, não se desesperem tanto”.
Uma vida longa e uma morte rápida a todos nós!
Rui Sergio Tsukuda – novembro/24
Ah, Rui, que linda crônica!!! Muitos não gostam de falar da morte, mas não há o que temer, um dia todos iremos embora pra sempre, sem saber o que encontraremos do outro lado! Valeu muito, obrigada pela leitura que nos proporciona!! Abraços !!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Oi Neide, obrigado viu!!! 🙂
CurtirCurtir