Mensagem de final de ano do Rui

Esta invenção de alguém de dividir o tempo em drops foi muito bem bolada. Todo ano temos a oportunidade de recomeçar, corrigir rotas ou apenas deixar a vida nos levar, como o Zeca Pagodinho fala na canção.

Nem que isso seja apenas um conforto psicológico, já que o tempo é uma coisa só. O lavou tá limpo e novo, é muito bem vindo todo primeiro de ano.

E vale tudo para que o ano que se inicia venha do jeito que a gente gostaria. Uns pulam sete ondas na virada de ano, deixam uma nota de 200 reais na carteira; já outros comem sete bagos de uva ou romã e se fartam de lentilha.

O fato é que pouco ou quase nada controlamos da nossa vida e do nosso destino. Mas independente de crença ou credo que se tenha, eu acredito na lei cósmica de que fazendo o bem, o universo conspira a nosso favor trazendo coisas boas, que deixam o nosso viver mais leve e menos insuportável.

Há um bom tempo, topei com um colega numa sala de embarque de aeroporto. Não o reconheci à primeira vista, mesmo assim, ele me fez um agradecimento surpreendente.

– Rui, já faz muito tempo… Era um sábado, você estava de plantão na fábrica e eu era um operador de área.  Naquele dia, você gastou um bom tempo comigo para me convencer a voltar a estudar, para realizar o meu sonho de ser engenheiro um dia.

Hoje sou seu colega de profissão e posso dar à minha família um padrão de vida bem melhor que recebi dos meus pais. Muito obrigado!

Ao ouvir esse depoimento, senti uma alegria tão grande, que embarquei no avião rindo à toa de felicidade. De tão anestesiado que fiquei, levei de boa as reclamações dos clientes naquele dia.

Interessante que nesse episódio, eu não ganhei nenhum presente material ou dinheiro. Foi apenas um agradecimento sincero de alguém que eu nem me lembrava mais.

Dias atrás eu li uma provocação que me fez pensar:

De duas a uma, ou você é uma luz que ilumina o espaço ou buraco negro que absorve todas as massas e até às luzes, não há uma outra opção.

Faça a sua opção, caso não tenha feito ainda!

Desde 6 de dezembro, mudei de fase. Agora sou oficialmente um idoso. Já pedi a minha carteirinha no app Carteira Digital para estacionar nas vagas especiais. E ontem, no show do Toninho Horta aqui em BH, orgulhosamente paguei a meia entrada dos 60+.

Além dessas vantagens, talvez a maior seja poder apertar o botão do foda-se quando der vontade e poder ser seletivo:

– Não vou àquele encontro, porque tem muita gente xarope! Pronto falei!

Mas não tem como fazer apologia à velhice, o tempo das perdas da poeta Elizabeth Bishop já chegou e com força.

Se imaginarmos um U invertido, estou ladeira abaixo na segunda perna. Definitivamente a vida não começa aos 60!

O meu consolo, é que o contrário disso, é morrer, então viva à maturidade!

Na piscina olímpica do Minas 2, onde nado quase todos os dias 2.000 metros, percebo uma das perdas que ganhei com o tempo.

Me frustro por não conseguir mais acompanhar as mocinhas e rapazes de 15 anos ao lado da minha raia, mesmo com o palmar nas minhas mãos.

Quando isso acontece, eu me lembro que um dia, eu fui campeão paranaense de natação nos 100 costas algumas vezes. Mas isso foi de 1975 a 1979, há meio século, direto do túnel do tempo…

Como na piscina não tem espelho, eu me sinto como um dos meus companheiros de treino, na flor da idade!

Um dia desses só para provocar, fiquei junto deles na preleção com o técnico de natação. Com certeza eles pensaram:

– Nuuuuú…, mas que véio sem noção, tem a idade do vô!

Mas eu só me dou conta mesmo que o tempo passou, quando ao final do treino, os vejo saírem da piscina pela borda num só impulso como fazem os pinguins.

Já eu, se não tiver uma escada, tenho que pedir ajuda ao salva vidas para sair da água ou chamar os Bombeiros no 193. Que vexame!

Redescobri a natação neste ano. Na verdade esse esporte sempre foi uma segunda opção ao tênis, porque nadar é zen demais pra mim, se pensa muito na vida e na morte, enquanto se conta os azulejos…

Mas com a perda de mobilidade, o meu querido tênis ficou em segundo plano, restrito a um treino por semana com o Fred, meu parceiro e amigo.

A ideia é se adaptar às condições e rápido. Se não dá pra correr, bora andar. Se não der pra andar, é a vez da ginástica sentado e assim vai….

Para mim, fazer alguma atividade física é mais do que os benefícios que ela traz ao corpo, é poder usufruir sem culpa após os treinos da endorfina, uma droga licita e gratuita.

Mas a pior perda que sinto nesta fase da vida são os amigos que estão partindo.

Na CBA, que foi meu primeiro emprego,  eu era um dos mais novinhos, eu diria que boa parte dos amigos já desembarcou do busão.

Neste ano,  a perda mais dolorosa que tive foi a do Alysson, que nos deixou em junho deste ano. Por ter falecido tão cedo, aos 44 anos, no auge da vida deixando aqui uma família linda, me doeu ainda mais.

Sempre me pego pensando no Alysson. Não é que se ele ainda estivesse vivo, estaríamos em contato toda semana. Mas só o fato de saber que o meu amigo estaria on line no Whatsapp , já me deixaria confortado.

Mas nem só de perdas 2024 será lembrado, mas de recomeços também.

Alem da natação, a música fez folia em minha vida nesse ano. Adicionei umas 20 canções ao meu repertório de violão e voz e acho que estou finalmente aprendendo a cantar com ajuda dos queridos Carol e o CaJú da Escola de Música Cavallieri. Até percussão estou tentando aprender com o mestre Aender Lampião, apesar da LER que tive de tanto tocar pandeiro.

Embora o tempo seja o mais caro presente que ganhei de Deus depois da saúde, percebo o quanto contraditoriamente eu o desperdiço.

No tempo líquido à minha disposição, retirando-se as horas dormidas, que no meu caso são diurnas e noturnas, sobram apenas mais ou menos 12 horas de tempo acordado.

Desse período, pelo menos três horas eu passo em frente a uma tela, seja zapeando os canais da TV ou assistindo aos vídeos de curta duração. Mesmo consciente da sua inutilidade, eu não consigo deixar de assisti- los.

Eita vício maldito!

O meu consolo é que vocês, meus leitores, são mais astutos que eu e já perceberam essa armadilha aparentemente inocente no caminho.

Tenho a crença também de que o excesso de opções à nossa disposição hoje em dia, faz mais mal que bem…

Caramba!  Hoje não consegui achar um filme interessante para assistir em toda Netflix, Amazon Prime, HBO e Disney + , que saco!

Quando eu era menino, nos anos 70, a programação da TV começava às 16 hs e a gente só tinha de dois a três canais à disposição, mesmo assim eu era mais feliz que hoje e menos ansioso.

Como no Mito da Caverna de Platão, estamos acorrentados dentro de uma caverna, nos contentando com as sombras dos objetos que percebemos através da luz da fogueira, sem nos darmos conta da verdadeira realidade fora dela.

Fico chocado com tanta idiotice no mundo, com as digital influencers por exemplo, que nada tem a oferecer aos seus milhões de seguidores, que não seja uma bela bunda, dicas batidas de como tirar cravos da cara ou receitas da air fryer, que me confirmam a pobreza de espírito também de quem as seguem.

Daí aquela afirmação oportuna de que só existem os INFLUENCERS porque tem os IDIOTERS, aos milhões.

Infelizmente estamos na era da pobreza intelectual e da falta de profundidade das discussões, paradoxalmente num tempo em que todo conhecimento acumulado de milhares de anos da humanidade está a um toque da tela do celular.

Não é uma total incoerência?

Então a minha opção, está sendo tentar reconhecer a minha turma, vagando por aí com uma lamparina acesa nas mãos.

Se você chegou até aqui, perdendo dez minutos da sua existência nesta leitura, você é da minha tribo!

Somos poucos, mas somos bons, esse é o meu consolo!

A vocês, meus fiéis leitores deste blog, lhes desejo um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!

Como não tem Natal sem presentes, seguem dois vídeos como singelos regalos a vocês!

Dentes Brancos do Mundo com Evinha e Mistérios com Joyce, canções que me deram bons momentos de alegria em 2024.

Um forte abraço do Rui.

Rui Sergio Tsukuda – dezembro/24

http://www.aposenteidessavida.com

10 comentários em “Mensagem de final de ano do Rui

  1. Rui, estou aqui em Oman, na casa do meu filho. Devo ficar até dia 28/12.
    Nesse ano perdi 3 amigos, 2 de infância, o Paçoca e o Picasso e um colega de faculdade que foi meu padrinho de casamento, o Yoshihiro.
    Por outro lado, meu filho e minha nora estão grávidos, esperando o Augusto para o início de Junho!
    A vida é assim mesmo, uns se vão , outros chegam e o barco não para! Temos que aproveitar da melhor maneira possível esse intervalo que temos aqui na Terra. Acredito que se ficarmos reclamando, chorando as pitangas, e vibrando de maneira negativa não vamos aproveitar bem este intervalo. Por isso, eu gosto de ver a vida de maneira positiva, criar bons amigos, mesmo que a gente não consiga se ver por muito tempo, pois os caminhos da vida nos levam a direções diferentes; mas isso é que é legal!
    Cada um tem suas próprias experiências, e quando nos encontramos, fazemos um update e tá tudo bem! Temos que celebrar essas boas amizades.
    Depois dos 60, já passei fazem mais de 8 anos, nós ficamos mais seletivos, aquilo que é bom a gente cultua, o que não nos agrada, tchau e benção! Vá com Deus!!!
    Gostaria de desejar um Feliz Natal a você, sua família, seus seguidores e a todos nossos amigos em comum. Que o ano de 2025 seja de muitas realizações, sim, apesar de >60, podemos realizar muitas coisas boas!!!
    Um grande abraço.

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  2. Meu amigo ( se é que assim posso chamá-lo) já há muito não nos vemos, deste aquela partida de tênis e o bate-papo na mesa da Marcação no Minas II. Como isso tem feito falta, precisamos repetir a dose das duas situações, o jogo de tênis e a conversa jogada fora contudo um pouco de nossas vidas, ou idas e vindas! Lendo sempre o que você escreve deste aquele dia que por acaso o destino nos levou a ficar frente a frente, depois de um papo com trocas de informações pelo WhatsApp. Hoje, mais uma vez, estou aqui frente a frente com mais um texto seu. Chamar de texto é muito pouco, poderia dizer sem medo de errar que estou de frente à mais uma obra de arte traçada com palavras e linhas. Diria até que sem ponto final, talvez apenas e tão somente um ponto parágrafo, pois a viagem continua numa imaginação fértil e dominante. Levou-me a pensar ter eu meu mesmo escrito tudo isso, pois nele, no texto, está tudo o que escreveria com certeza já após passar dos 70 duramente bem vividos. Porque não saudosos e felizes! Pois é, aqui estou viajando nos seus traços e linhas de uma descrição, ou definição, de como realmente estamos hoje com a tecnologia que antes poderia nos aproximar, hoje nos distancia. E às vezes até nos aliena, nos emburrece, fazendo-nos perder a capacidade de pensar, de discernir ou nos deixando emburrecer. Obrigado por mais uma vez me permitir, e de graça, viajar novamente , divagar em pensamentos seus como se meus fossem. Deus o abençoe enormemente, proteja sua vida e essa sua capacidade imortal de transformar palavras em acontecimentos e esses em uma viagem interminável pelo tempo e pela vida!

    Grande abraço!

    E quando quiser o tênis e o bate papo novamente é só chamar.

    Luiz Omar ________________________________

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    1. Oi Luiz Omar, meu amigo , é uma alegria receber este comentário seu com colocações que me incentivam a continuar a escrever mais e mais. Não sei se mereço tantos elogios, mas se o texto que escrevi tocou o seu coração já valeu a pena escreve- lo.
      Lhe peço que continue passando por aqui para conferir as novas crônicas.
      Em breve jogaremos mais uma partida, fico ansioso mais pela resenha do que pelo jogo em si.
      Forte abraço

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  3. Olá Rui, como vai? Espero que bem! Passei para prestigiá-lo, e confesso que os 10 minutos de leitura no final pareceram apenas dois.. texto leve e agradável, com toques de humor e experiências pessoais interessantes que nos fazem refletir. Parabéns pelo blog, ganhou mais um leitor.

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  4. Querido amigo Rui, é sempre um momento de reencontro às minhas origens quando leio ou escuto você, mesmo sendo mineirinha de Pedro Leopoldo e não vinda lá do Japão! 🥰 Esse reencontro creio que seja sobre a nossa essência, algo que fez que eu me identificasse com a sua forma de ser e pensar deste o primeiro momento que trabalhamos na mesma empresa!

    E esses vídeos/presentes deixados ao final da mensagem? Amei!!! Se eu já sabia havia me esquecido que o nome do seu blog veio dessa obra de Evinha, dos tempos da música que era realmente música e com objetivos mais nobres!

    Ah e que delícia conhecer momentos da sua juventude no esporte! Bacana demais!

    E partilharmos das dores da perda, como a do amigo Alysson! Pena que havia perdido o contato com ele há tempos.

    Meu fim de ano não seria o mesmo sem a sua crônica caro amigo! Faz sentido em minha vida!

    Beijo grande na Virgínia, na Fofa, no Lucas e em você!

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  5. Oi Rui, tô aqui relendo sua crônica pela segunda vez a bordo de um B737-700 de volta pra Sp. Eu tava em Brasília! Adorei seu texto, também de ouvir Evinha e Joyce! Boas Festas, um Ano de 2025 maravilhoso pra você e família também!! Abraços!!

    Em dom, 8 de dez de 2024 09:33, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa

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