Eu era feliz e não sabia…

Em 2010, eu estava com meu pai, seu Mário, no hospital Erasto Gaertner em Curitiba, um hospital especializado no tratamento de câncer, quando ele já em estado terminal da doença disse pra mim:

– Rui, lembra aquele tempo em que eu reclamava de ter que ir ao banco para trocar duplicatas ou pegar dinheiro emprestado para pagar os funcionários da empresa?

– Sim pai, eu me lembro muito bem o quanto o senhor sofria com isso…

– Pois é, hoje eu sinto saudades daquele tempo. Eu reconheço agora que eu era feliz e não sabia…

Anos atrás, quando eu ainda trabalhava, o avião em que eu estava demorou 6 horas num vôo CNF – CGH, um trajeto que normalmente não dura mais que uma hora.

Com o mau tempo em todo trajeto, o avião arremeteu duas vezes no pouso em CGH. Depois disso, pousamos no SDU no Rio, onde  ficamos esperando um tempão até o tempo melhorar, para finalmente pousarmos em VCP em Campinas.

Como esperado, os passageiros estavam muito estressados com o atraso, além do deslocamento adicional necessário de Campinas a São Paulo.

Na fila do desembarque, comentei com um colega de vôo que havia sentado ao meu lado:

– Puxa, apesar do atraso, fico feliz que finalmente esta viagem tenha terminado em segurança.

Antes que ele respondesse, um outro colega de bordo respondeu:

– Amigo, você se conforma com muito pouco mesmo… Por isso este país está nesta merda! Eu vou processar a TAM pelo atraso e a perda do meu compromisso em São Paulo, isso sim!

Reconhecendo a irritação dele, preferi me calar.

Mas por um bom tempo eu fiquei ruminando a afirmação desse desconhecido.

Será que se contentar com o que se tem, ou com o que se é , é muito pouco?

Seria isso um consolo de fracos e derrotados que não conseguiram atingir a sua meta?

Entendo que o mundo hoje conspira para que sejamos bem sucedidos na vida e  qualquer coisa menos que isso,  você é taxado como um looser.

O sujeito tem que ser bem sucedido na carreira, ter dinheiro, ser bem casado, bonito e sarado. O que mais?

Para as mulheres, as exigências são ainda maiores, porque inclui a maternidade e a eterna juventude.

No mundo do tênis,  que é o meu esporte preferido: Kei Nishikori, Casper Ruud e Alexander Zverev, apesar de terem chegado ao Top  10  do ranking mundial, nunca levaram ainda para casa um título de Grand Slam ou Major. O meu patrício, pior ainda, nunca ganhou um Master 1000 na vida

Zverev depois da perda da terceira final de Slam no Austrália Open de 2025, confessou após o jogo: 

– Eu não quero ser lembrado como o melhor jogador na história que nunca ganhou um Slam. Enquanto eu jogar tênis, esse será o meu objetivo!

Como diz o Eve comentarista esportivo:

-Enquanto tem bambu, tem flecha!

Mas será que Zverev, já aos 29 anos, não deveria começar a olhar para trás e perceber que os 23 títulos que ele tem, incluindo sete Masters 1000, já faz dele um grande campeão do tênis?

Apesar de ter duas motos, eu nunca viajei mais de 50 km com nenhuma delas. Mas, os colegas motociclistas,  afirmam unânimente que o grande barato de viajar de moto é não chegar ao destino e sim curtir a viagem.

Eles exageram complementando que eles e as motos fazem parte da paisagem…

Será que o meu pai, quando corria atrás de dinheiro de um banco a outro, não deveria parado e pensado: 

Ok  Houston eu tenho um problema! 

Hoje é verdade não tenho capital de giro na empresa, mas é pontual e irá se resolver de um jeito ou de outro. Entretanto, este fato não pode abalar a minha alegria de viver e acabar com o meu dia.

Eu tenho percebido muita gente olhando ansiosamente para a cenoura à sua frente, usando um tapa olhos laterais de animais de tração, perdendo de apreciar a viagem.

Agora com a cobra morta é fácil falar, muitos de vocês dirão. Mas como eu fui um de vocês um dia, talvez tenha esse direito. Penso agora em tantos detalhes interessantes e legais que passaram no meu entorno e eu nem percebi absorto que estava em busca do meu objetivo.

Os aborrecimentos do dia a dia invariavelmente continuarão a ocorrer, mas com esse olhar mais gentil à vida e para consigo mesmo, tudo fica mais leve.

Nos meus treinos quase diários de natação, eu tenho preferido o nado de costas. Dessa maneira eu volto ao menino de antanho, quando eu ficava sem pressa nenhuma a olhar para o céu reparando nas formas que o vento fazia com as nuvens.

Fico também agora com inveja dos urubus, que como pontinhos pretos no céu planam nas correntes térmicas ascendentes.

Ganho o dia quando vejo dois deles disputando a melhor corrente de ar para subir no céu.

Mas isso é um assunto irrelevante e sem importância, que em nada afetará a minha avaliação de final de ano como gerente da minha empresa de sonhos…

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/25

http://www.aposenteidessavida.com

4 comentários em “Eu era feliz e não sabia…

  1. Rui, sua crônica veio pra completar o que li ainda essa semana no Google. Warren Buffett, investidor famoso completa 94 anos. Surpreende pela saúde e ativo nos negócios, e principalmente pela sua dieta incomum. Toma Coca-Cola e café da manhã no Mcdonalds todos os dias. Mas não abre mão de boas horas de sono e controle do estresse. Sua longevidade e felicidade está na maneira como se vive, de valorizar o tempo e fazer o que ama. E você tá certo, viver a vida com leveza. Obrigada por mais essa reflexão, Rui! Ah, eu me achava meio maluca de admirar os vôos dos urubus lá em Maringá, eu tava enganada!!!Abraços!!

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    1. Oi Neide obrigado, fico feliz que você tenha se identificado com o texto. Engraçado, ninguém dá nada aos urubus no chão, mas quando estão nos céus todos os invejam. E como eles voam alto!

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  2. Ganhador, Perdedor… tudo sempre uma questão de ponto de vista! Cada um carrega dentro de si uma bagagem da sua história pessoas e isso determina o olhar para as situações que vivência positivamente ou negativamente. 

    No mundo competitivo de hoje (e poe competição nisso), a grande maioria das pessoas conseguem apenas olhar o sacrifício para alcançar o objetivo, “acha” que vive o hoje, mas tá pensando no que ainda não tem e que viverá amanhã “se” tudo der certo. Soma uma cobrança e estresse que são fardo difícil de carregar. Feliz daqueles que conseguem entender quem realmente são, ter clareza das suas convicções, e entender o que realmente é prioridade e o que realmente importa. Dar valor no simples, e assim entender a real a beleza de viver o hoje e a liberdade de viver em paz. Pessoas assim conseguem enxergar os urubus e seus voos… ou os patos! Aqui enxergo os patos e a beleza de seus voos organizados em bandos! É lindo! 

    Grande abraço amigo Rui 🤗

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