O chinês, o americano, o inglês e eu

A posição de executivo peão me deu a oportunidade de viajar pelo mundo afora de graça. Me proporcionando experiências em diversos países e conhecer pessoas de diferentes culturas.

Quando viajo a um país desconhecido, pouco me preocupo com roteiros de pontos turísticos ou a história do lugar, isso não é importante para mim. Meu negócio é interagir com gente do país. Então procuro fugir da blindagem de hotéis, shoppings e restaurantes, onde o ambiente é pasteurizado e monótono e vou para as ruas em busca da essência do lugar.

Eu acho que shopping center por exemplo, é tudo igual. O de Campinas, não fica devendo nada a um de Londres ou Paris. Tudo cheira à perfume e artificialismo. Viu um, viu todos!

Para conhecer gente, a minha dica é bater papo com os taxistas e agora com os motoristas de Uber. Claro que tem os que são monossilábicos e sem lado, mas se der sorte pega um que abre o coração. Aí você fica sabendo não só da cultura do país, como conhece até a vida do camarada. Em troca você passa a ele um pouco da sua cultura, tudo ao preço de uma corrida! É muito barato. E os dois saem enriquecidos desse encontro.

Eu acho que gente é tudo igual em qualquer lugar, só muda o endereço e CEP. A nossa mesma condição humana de nascimento e morte invariável, nivela a todos. Em comum todos tem as mesmas 24 horas por dia para serem vividas seja aqui em BH, em Barcelona ou em Tóquio. O que me fascina é o que cada um faz com esse tempo que nos é presenteado – mesmo sabendo que ele pode ser tirado de nós a qualquer momento. Ainda assim temos esperança, estudamos, trabalhamos, casamos, reproduzimos, sonhamos, enfim cada um a seu jeito busca a sua felicidade …

Numa dessas viagens à trabalho, tive a oportunidade de fazer parte de um time de engenheiros de quatro países que fariam um tour por três países da Europa durante 15 dias. O objetivo era conhecer as aplicações dos novos produtos da empresa, visitar clientes, centros de pesquisa e finalmente replicar aqui no Brasil.

Neste treinamento,  Zhao representava a China , Mike os EUA , Xavier o Reino Unido e eu o Brasil. 

Neste périplo, somente alguns trechos seriam de deslocamento aéreo, a maior parte da viagem seria de automóvel a bordo de um Renault Espace, cujo teto transparente panorâmico dava uma noção de maior amplitude à boleia.

Para mim, em particular, além da questão técnica e comercial que logicamente me interessava, eu estava muito ansioso pela oportunidade única de interagir com pessoas de culturas diferentes.

Como toda equipe que viaja junto, eu sabia de antemão que as chances de convergência e empatia eram boas – mas as saias justas e as divergências seriam também inevitáveis – porque pessoas de culturas distintas num mesmo ambiente, é uma combinação que tende a ser explosiva.

É um pouco diferente você viajar com um grupo de brasileiros, por exemplo. Apesar das pessoas serem cada uma de um jeito por natureza, você sabe ou tem uma ideia de como o brasileiro “funciona” numa  situação de tensão e o fato de todos falarem a mesma língua, evita mal entendidos gratuitos ou fogo amigo.

Eu sabia mais ou menos como eram os americanos, porque já havia morado em Dallas / Fort Worth por uns meses.  Tinha uma boa ideia como um inglês pode ser, pela minha convivência com oito famílias inglesas no intercâmbio do Rotary que fiz na Cornualha.

 Mas e os chineses?

Os chineses eram para mim uma caixinha de surpresa. Conhecia apenas o Kwong – amigo meu – filho de cantoneses. Se eu sou um japonês do Paraguai como me chamam, ele é um chinês das terras Guaranis, tão falsificado quanto eu!

Tinha conhecimento do ódio que ainda hoje os chineses e coreanos tem dos japoneses, desde os tempos das guerras do século 16 e 19 e principalmente pelas atrocidades cometidas pelos meus patrícios durante as invasões a esses países.

Mas o que eu, um brasileiro da gema nascido na Santa Casa de Londrina, no Paraná tenho a ver com tudo isso?  Em princípio nada, né?

Mas a vida do nikkei ou descendentes de japoneses no Brasil é complicada. Aqui somos tratados como japoneses e no Japão somos tratados como estrangeiros. Se é difícil convencer um brasileiro aqui de Desterro de Entre Rios em Minas Gerais que sou um brasileiro igual a eles. Imagina convencer um estrangeiro que sou um brasileiro com essa minha cara de lutador de sumô?

Já aconteceu comigo ser apresentado a um estrangeiro – a princípio ser tratado por ele como um brasileiro – mas depois de alguma intimidade com o sujeito, ele na maior cara de pau começar a falar mal do Brasil na minha frente e depois sussurrar ao pé do meu ouvido:                    

– Rui, posso falar assim porque você é japonês, né?

– Pode não meu amigo, eu sou brasileiro apesar da minha cara! foi a resposta que dei.

– É, a intimidade é uma merda! foi o que pensei.

Então quando fui apresentado a Zhao, rolou um climão entre a gente. Enquanto olhava para ele, me lembrei do meu bisavô Maeda, me contando com muito orgulho que chinês e coreano ele gostava de ter era a sua baioneta enfiada na barriga do infeliz…

Nos cumprimentamos sem muito entusiasmo com um aperto de mão apenas protocolar, trocamos de praxe os cartões de visita da empresa e mais nada. Sem sorrisos e nenhum beijinho.

Isso tem o nome de pré-conceito. Nunca havia visto Zhao mais gordo na minha vida e ele também a mim, mas os nossos líquidos eram imiscíveis e o sentimento era recíproco. Uma situação nova que eu me surpreendi comigo mesmo. – Engraçado… com o Kwong eu nunca tinha sentido essa repulsa, pensei.

Mas viajando lado a lado no banco de trás do carro por oito, dez horas por dia com um chinês ao meu lado, não tem preconceito que resista, né? Então, já no segundo dia de viagem, selamos um cessar fogo válido pelo menos enquanto durasse a viagem.

Ele, para a minha surpresa tomou a inciativa:

– Rui, quando li o seu sobrenome, achei que você devia ser um japonês naturalizado brasileiro, mas não um brasileiro nativo. No passado, seus antepassados e os meus tiveram suas diferenças e foram inimigos, mas hoje estamos aqui no século 21 como o brasileiro Rui e o chinês Zhao. Os tempos são outros, não é mesmo?

 – Claro Zhao, aqui somos Brasil e China! respondi satisfeito com a sua sinceridade. E selamos a nossa nova amizade com um aperto de mão fraterno e um sorriso. Naquele momento, percebi que traíra o velho Maeda e temi que ele me desse um puxão no meu pé na próxima noite de sono…

O Mike, com a ansiedade de liderar típica dos americanos, se prontificou a dirigir o carro. Como ele era mecânico, apenas eu e ele tínhamos experiência com esse tipo de veículo. E eu sinceramente não queria ficar ligado em GPS e no roteiro a ser seguido o tempo todo, perdendo de apreciar a paisagem e principalmente o bate papo. Por isso, não fiz nenhuma questão de dirigir o veículo.

Logo de cara, na saída de Bruxelas, Mike – um sujeito baixinho e caladão – nos apresentou o seu cartão de visitas. Sem falar nada a ninguém, parou o carro num supermercado ao lado da estrada e desceu . Nós três nos entreolhamos e  Xavier, disse admirado:

– Que sujeito estranho … nem falou nada e parou o carro. Tampouco perguntou se a gente queria descer também. O que será que ele foi fazer?

Ficamos no carro esperando por ele. Em uns dez minutos, ele retornou comendo uma batatinha chips da Lays e uma Coca-Cola de latinha, como se nada tivesse acontecido. Sem dizer uma palavra e pior, sem oferecer a batatinha a ninguém, ligou o carro e partimos novamente.

– Sujeito muito estranho, pensei!

Num dia livre em Paris fomos visitar os quatro a Torre Eiffel – como ainda não havia ocorrido o atentado ao Charles Hebdo – havia uma multidão nos arredores da torre e no Palácio Trocadéro. Estávamos no meio do povo – eu que tenho a bexiga irritada e a minha autonomia é de no máximo duas horas – estava apertadíssimo para ir ao banheiro.

De antemão, já havia deixado a todos de sobreaviso sobre a minha condição e caso vissem um toalete para me dar um sinal.  Nisso, Mike sumiu sem dizer nada a ninguém. Ao retornar, Zhao, curioso, perguntou-lhe onde ele teria ido. Ele na maior cara de pau respondeu:

– Fui ao banheiro fazer xixi!

– Que americano egoísta e esquisito! Custava ele me convidar para ir ao banheiro com ele, foi o que comentei com Xavier. 

Quando morei nos EUA, eu odiava quando tinha que almoçar com um deles. Era típico, estar ainda na metade do meu hamburger com fritas, os apressadinhos já ir pedindo a conta à garçonete.

Um dia não resisti e perguntei a um deles o porquê disso. Ele me respondeu:

– Rui, eu fui treinado desde pequeno na escola a ser rápido. Lá os 50 alunos tinham apenas 15 minutos para irem a lanchonete, comprar o lanche, comê-lo e voltar para sala de aula. Os que eram lentos ficavam sem comer…

– Entendi, respondi. – Que povo super competitivo, depois pensei.

Xavier era dos três, com o qual eu mais me simpatizei. Na minha apresentação no congresso da empresa, antes da nossa viagem, ele me ajudou bastante na animação da minha apresentação em Power Point e já havíamos conversado sobre as curiosidades dos brasileiros e ingleses num jantar.

Logo percebi sinais de que ele era homossexual. Notei o seu cuidado ao falar, delicadeza ao se vestir e andar.  

– Com certeza ele é gay, pensei.

Cresci ouvindo e achando graça das piadas de bichinha de Costinha e também vendo Didi pegar no pé de Zacarias e Dedé insinuando que os dois eram afeminados. E nas conversas com amigos, desde o ginásio, era comum um pegar no pé de outro colega ao menor sinal de feminilidade.

– Menino tem que ser macho! era o que mais ouvia.

Mas depois que tive um primeiro amigo gay recentemente, comecei a perceber a vista do outro lado e ter empatia por eles. Tive a noção o quanto é difícil ser gay neste planeta. Se no Brasil é complicado, imagina na Indonésia onde gays ainda são açoitados em praça pública, apenas por amar alguém do mesmo sexo?  

Quem tem me ajudado a superar este meu preconceito crônico são os meus filhos. Eles tem amigos e amigas gays e o fato deles (delas) serem homossexuais é apenas um detalhe sem importância na amizade deles.

É, essa geração que está aí é muito mais tolerante do que a minha e isso é muito bom! Os dinos como eu, aos poucos vão se rendendo à essa espiral positiva.

Estávamos numa rodovia, já perto de Paris passando na região do aeroporto Charles de Gaulle, quando do nada Zhao lançou o tema homossexualidade no ar. E queria porque queria, saber o cada um de nós três pensava sobre isso.

–  Intimidade é uma merda! pensei novamente.

– Mas que sujeito sem noção, será que ele ainda não percebeu que o Xavier é gay? eu pensei.

Mike o primeiro a ser perguntado por ele, preferiu não se alongar muito e respondeu que cada um é livre para fazer o que quiser. Eu complementei em seguida, dizendo que todos estão aqui neste planeta tentando ser felizes e brinquei dizendo lavou, tá limpo e novo!

Aí foi que Zhao soltou a sua pérola do dia, ele sincerão disse:

– Eu odeio gays. Na China ainda bem que tem pouco, isso porque o PC chinês manda matar se vir um!

Nisso, Xavier soltou um sorrisinho maroto e disse:  – Eu, hein!

Antes que a bazuka fosse direcionada a Xavier, o último a responder a enquete, contra ataquei Zhao, mudando de assunto.

Pedi a ele que nos desse os detalhes do massacre dos estudantes na praça da Paz Celestial em Pequim e o que eles fizeram com o heroico estudante que ficou em frente ao tanque de guerra.

Sabia que esse era o calo que todo chinês tem, assunto ideal para salvar meu amigo daquela saia justa.

Ele muito irritado inicialmente, disse que como membro da ala jovem do PC chinês não tinha autorização para comentar nada sobre isso, porque as informações eram confidenciais.

Mas depois, mais relaxado, voltou atrás e soltou uma explicação bisonha de que aquele foi um movimento sem importância de uma pequena minoria, que o ocidente aproveitou a oportunidade para atacar a China, que era invejava por todos devido a sua ascensão meteórica.

– Ah tá! foi o que pensei e imagino todos devem ter pensado.  

Num jantar em Liège, Zhao nos levou a um restaurante chinês. Ele desta vez pagaria a conta ( para evitar todas as vezes os quatro sacarem seus cartões de crédito a cada despesa, optamos por revezar os pagamentos entre os quatro ).

Eu sabia que ia me dar bem, um chinês de verdade num restaurante chinês só poderia ser sinal de comida boa. Assim que chegamos, Zhao foi muito bem recebido pelo dono do restaurante – que para nossa sorte e dele também era da China continental -se fosse de Taiwan, poderia até colocar chumbinho na nossa comida.

Assim que sentamos à mesa – única disponível com um prato giratório – ideal para degustação de diversos pratos. Zhao, sem nada dizer, se levantou e foi em direção a uma mesa ao lado da nossa, onde sentava um casal provavelmente belga com dois filhos já quase adolescentes.

Notamos que ele fez uma aproximação atípica, invadindo claramente o espaço aéreo da mesa deles. Sem nada falar, esticou o pescoço e conferindo atentamente os pratos fumegantes que haviam acabados de serem servidos pelo garçom. 

O pai da família, sem nada entender aquele ataque surpresa, olhou para Zhao, e abriu os braços tentando decifrar aquela sua atitude inusitada. Nosso chinês, ignorou o seu olhar e mantendo-se apenas interessado nos pratos recentemente servidos, continuou a analisá-los como um especialista.

Nisso, Mike falou com espanto: – Credo, o cara é doido! Ele não pode fazer isso de jeito nenhum, é invasão de privacidade! Se fosse nos EUA ele poderia levar até um tiro.

Em alguns minutos Zhao retornou à nossa mesa, todo satisfeito e sorrindo.

– Turma, acho que a comida daqui é boa. Vamos nos dar bem hoje, com certeza!

Nunca na minha vida degustei tanta diversidade de comida chinesa, apesar de pouco lembrar o trivial yakimeshi,  yakissoba e rolinho primavera que eu conhecia, eu adorei! E Zhao, todo orgulhoso ia nos explicando a cada prato servido como ele era preparado e os ingredientes escolhidos. Uma delícia!

Desde o início nós três notamos os modos heterodoxos de Zhao à mesa. Ele era muito ruidoso ao comer, acho que porque mastigava com a boca aberta e também falava muito alto enquanto comia.

Num café da manhã de hotel, Xavier e eu, de propósito, nos sentamos ao lado de dois chineses para confirmar se o probleminha era do Zhao ou dos chineses em geral. Batata! Igualzinho!

Ainda na mesa, Xavier fez uma busca no Google e me mostrou uma cartilha com orientação aos executivos chineses sobre a etiqueta ocidental. Como a abertura da China ao mundo ocidental era ainda recente, essa cartilha orientava aos executivos chineses de primeira viagem como se comportar no ocidente.

Entendendo ser uma diferença cultural dos chineses relevamos, mas o pior ainda estava por vir…

O nosso anfitrião e coordenador deste treinamento de nome também Xavier – que a partir de agora chamarei de XP – nos convidou para um jantar de gala, onde excepcionalmente nos ofereceria um jantar num restaurante chique nos arredores de Bruxelas.  Colocamos nossas melhores roupas e fomos ao evento.

XP é um sujeito grande, em altura e peso. Com certeza o IMC dele passa dos 48. Já o conhecia de verões passados, por ocasião de treinamentos e projetos em conjunto no Brasil.

Quando eu o recebia por aqui, passava o maior sufoco, além das visitas aos clientes a programar, ele era muito exigente com as suas refeições. Então eu incluía também no nosso roteiro de viagem, os restaurantes selecionados a dedo em que eu iria levá-lo.

Se a comida do lugar não fosse do seu agrado ele não fingia satisfação… E fazia pressão dizendo:

– Rui, amanhã eu tenho certeza que você vai me surpreender com a sua escolha de restaurante, hoje tava bem fraquinho ….

Então, para o nosso jantar de gala na terra dele, que coroaria o nosso treinamento, ele escolheu um dos melhores restaurantes da região.

Escolher o prato principal em restaurantes  chiques para mim é complicado… mesmo com XP nos descrevendo pacientemente o prato, é sempre uma caixinha de surpresa. Eu que gosto de grandes porções, já tive grandes decepções com pratos que lembravam à comida de boneca …

Quanto a bebida, XP pediu vinho tinto para todos. Eu como não bebo álcool, passei vergonha mais uma vez pedindo Fanta laranja. Lá no estrangeiro, esse refrigerante tem um tom alaranjado pálido, mas o sabor é o mesmo.

Depois de muito escolher, pedi um salmão grelhado com batatas e alcaparras. Zhao que estava ao meu lado, me acompanhou no prato principal.  E assim os demais, foram também fazendo os seus pedidos a um maître muito elegante e bem vestido. Como entrada, XP pediu moules – que é um  tipo de marisco típico da região – a todos.

Depois dos moules, vieram os pratos principais. Quando me deparei com o meu prato, não escondi o meu desapontamento, no que fui seguido pelo Zhao …

Gente ! As duas postas de salmão eram pequenas, não davam 150 g e duas batatinhas inglesas cozidas com algumas alcaparras distribuídas uniformemente, complementavam o prato. Lindo, muito bem decorado, mas minúsculo! Fiquei com dó de mim mesmo e do meu amigo chinês!

Notei que os pratos de Mike e Xavier, eram também do mesmo padrão, mas pequenos.

XP foi o último a ser servido.

– Ele devia ser amigo do dono do restaurante, foi o que pensei! Um pernil de cordeiro assado enorme de uns 2 kilos tipo Fred Flintstone, com um acompanhamento farto de legumes e batatas assadas era o seu prato principal individual.  A apresentação do prato era bem inferior ao nosso, mas o pernil era de respeito. Para facilitar o seu manuseio, o pernil vinha com um pedaço de papel alumínio delicadamente cobrindo a ponta aparente do osso do fêmur.

Após XP colocar o seu babador branco de pano, que trouxera de casa, ele nos autorizou a nos servir dizendo o clássico: – Bon apetit!

Mesmo me servindo do meu prato, devagar com garfadas pequenas e mastigando bastante, logo terminei de comê-lo. Olhei para o lado, notei que Zhao já havia terminado o dele também e aparentava estar muito impaciente.

Zhao, se abaixou e comentou comigo baixinho que ainda estava faminto e eu de pronto confessei também a minha fome.

Não disse a ele, mas a minha estratégia naquele momento era aguardar o XP se empanturrar e num ato de magnanimidade, oferecer aos demais gentilmente as sobras do seu pernil, que eu aceitaria de bom grado!

Mas meu amigo chinês tinha um plano diferente…

Do nada, sem pedir licença a XP, ele avançou no seu pernil pegando -o pelo osso do fêmur coberto com o papel alumínio, levando-o ao seu prato e cortando-o com a sua faca um naco de carne.

Depois, sem eu pedir, levou o pernil até o meu prato e me serviu também. Por último, sem nenhuma cerimônia, serviu as batatas assadas e os legumes para nós dois.

E ainda, muito educado, os ofereceu a Mike e Xavier… Fez o serviço completo: barba, cabelo e bigode!

A reação de XP foi de espanto e incredulidade – ele como um belga castiço, não devia acreditar no que estava vendo – acho que por isso ele ficou imóvel e calado, apenas acompanhando com os olhos, as mãos de Zhao fazer toda a operação de rapto do seu querido pernil com os acompanhamentos.

Percebendo que eu estava paralisado, como os demais, Zhao me disse:

– Rui, o que você está esperando? Coma esse cordeiro, vamos! Está uma delícia e as batatas então!

Eu muito sem graça, olhei nos olhos de XP, que com um leve balançar da sua cabeça me autorizou a finalmente provar o seu pernil ilegalmente confiscado… Pedir benção ao XP era o mínimo que eu poderia fazer para remediar aquela situação, já que eu era quase um cúmplice de Zhao.

Ao final do jantar, depois de algumas garrafas de vinho na cabeça, os quatro já totalmente relaxados e bem à vontade, riam feito crianças, inclusive com XP refazendo o passo a passo do sequestro do pernil dele. Entendi então, que no código do bêbados, Zhao fora perdoado.

Eu, o único sóbrio à mesa, continuei tomando a minha Fanta laranja alaranjado pálido tentando achar graça de tudo aquilo.

– Até eu morrer, preciso aprender a beber pelo menos vinho, foi o que pensei…

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/21

https://aposenteidessavida.com/

12 comentários em “O chinês, o americano, o inglês e eu

  1. Rui
    Muito legal essa sua experiência com diferentes culturas.
    Vivo isso há mais de 4 anos em Dubai.
    Aqui aprendi muito e me despi de preconceitos com relação a religião, opção sexual, moda, comida e muito mais.
    Esse ambiente de dezenas e dezenas de nacionalidades me fez amadurecer muito.
    Ahhhh, todos nós temos um querido Xavier entre nós.

    Parabéns para você!

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    1. Oi Marcão, eu sabia que você ia se identificar com o texto. Com o seu comentário já me salvou dia. Nem parece que tá chovendo em BH e que hoje não tem tênis … Abraço 😘

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  2. Boa história Rui! Já tinha escutado ela diretamente de você certa vez. Fico imaginando a cara do inglês vendo seu suculento tomahawk sendo insensivelmente usurpado pelo Chinês 😂. Pagou o preço pela sua falta de cordialidade em explicar melhor aos forasteiros o conteúdo dos pratos…Forte abraço.

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  3. Rui, obrigado por compartilhar conosco mais esta rica experiência, na gringa e com os gringos.
    Acho que não há nada mais rico no mundo do que o contato e o aprendizado com as diferentes culturas.
    E o humor, sempre presente!
    Continue, por favor!!
    Abraço, garoto!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Excelente texto, Rui! É uma bela “viagem”, quando leio suas histórias. Os detalhes me chamam atenção e fico rindo sozinho, das situações. Continue escrevendo pra esse preguiçoso aqui, de leitura, que tô curtindo a doidão!

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