Sou um sem noção

Fui informado recentemente aos 56 anos, que sou um “ sem noção “. Não me lembro muito bem o contexto da discussão, mas a caçula do nada disparou à queima roupa no meu peito:

“ Pai, você sabia que você é um sem noção ? “

Ao ouvir a expressão ” sem noção ” , fiquei atônito e não sabia como reagir . Fui no dicionário informal e verifiquei que um ser humano sem noção é a pessoa que não entende o que está fazendo ou a realidade que o cerca; pessoa que age de maneira não condizente com a situação; nada a ver com nada.

“Puxa vida … será que sou tudo isso meu Deus ? “

Confesso que o termo“ sem noção “ ficou por  dias sendo digerido, indo e voltando, como fazem os animais bi-gástricos, como a vaca por exemplo. Tentei por algum momento entender essa pecha com um quê disfarçado de elogio da minha filha, mas desconfiei ser um predicado nada apreciável no mundo de hoje.

Tentei me lembrar de algumas situações que vivi, nas quais essa carapuça eventualmente me serviria e eu poderia então assumir com tranquilidade mais essa faceta da minha identidade pessoal.

Lembrei de uma situação ocorrida com o Chicão no elevador do prédio do escritório da Lhoist na Avenida Berrini em São Paulo que poderia se encaixar nesse caso:

Havia no mesmo andar da empresa, uma agência de modelos. Todas as vezes que saíamos do escritório da empresa, dávamos uma esticada de pescoço para apreciar as beldades que eram magras como gazelas de Thompson, mas lindas de rosto. Descer então os dez andares do prédio com uma delas, era um sonho de consumo dos homens, pelo menos os heteros.

Foi num horário de almoço, que eu e Chicão tiramos a sorte grande. Duas modelos, uma loira e outra morena de 1,75 cm mínimo, já estavam esperando pelo elevador.

Mesmo com as nossas presenças que não eram nada desprezíveis, porque somados tínhamos 200 kilos pelo menos de massa corpórea, elas simplesmente não nos notaram e continuaram animadamente a conversa, como se eu e o meu amigo fôssemos meros manequins de vitrine inanimados sem olhos ou ouvidos.

Lembrei de Karel Fort, um amigo tcheco naturalizado suíço que ao chegar como refugiado à Suíça nos anos 80 me descreveu com precisão o que é ser discriminado:

” Rui, simplesmente os suíços não me notavam, embora eu estivesse no mesmo ambiente e respirando o mesmo ar que eles. Sinceramente, eu preferiria ser mal tratado à ser ignorado por eles daquela maneira. “

O papo das mocinhas estava bem animado e o assunto era sobre um primeiro encontro que uma delas tinha tido com um rapaz que ela havia conhecido num shopping perto dali. Nisso, o elevador chegou e juntos embarcamos com elas rumo ao andar térreo.

Mesmo no elevador, onde as pessoas normalmente são intimidadas pela sobreposição de espaços aéreos, elas continuaram animadamente a conversa até que a morena perguntou para a loira:

“ Será que eu ligo de volta pra ele, não vai parecer que sou muito oferecida não ? “

Como a loira demorou alguns segundos para responder, eu fiz a vez dela …

“ Olha, se eu fosse você eu não ligaria não, controle a sua ansiedade minha filha e espere ele ligar. É um jogo mental que ganha quem tiver mais inteligência emocional. Vá por mim, não, não liga pra ele. “

Depois que terminei a última frase, as duas sem olhar para mim ou Chicão e tampouco dizer uma palavra, fecharam a cara e disfarçaram o incômodo sacando imediatamente os seus celulares das bolsas e fingiram digitar alguma coisa nele. Depois, como era esperado, reinou por alguns segundos no elevador um silêncio bem constrangedor até o andar térreo.

Assim que saímos do elevador, eu e Chicão rimos demais daquela situação inusitada.

“ Você é louco, Rui ? “

“ Elas mereceram Chicão, nos ignorar daquele jeito! Garanto que da próxima vez elas vão ser mais educadas !

Plim , plim !

Uma outra passagem, foi no embarque de um voo no aeroporto de CGH. Após me acomodar na minha poltrona, senta -se à minha frente um cantor famoso, mas não consegui de imediato lembrar o seu nome.

Não me contive e dei um cutucão no braço dele.

” Olá, desculpe-me, não lembro o seu nome agora, mas você não foi o cantor que deu um show na Casa Branca recentemente para o presidente Bush ?”

” Sim , sou eu mesmo, Alexandre Pires , prazer ! “

“Prazer Rui Tsukuda . ..

“Rapaiz, será que você não daria um autógrafo para a minha filha não ? ”

” Claro, melhor ainda, vou dar a ela o kit fã do Alexandre Pires que tem foto e umas lembrancinhas kkk”

Nisso, eu me levantei da poltrona e não importando para o avião já lotado, gritei pro Paulo Souto, meu amigo, que viajava comigo umas oito filas atrás de mim.

“Paulo, você vai querer um kit fã do Alexandre Pires também para a Letícia ? “

Com a concordância dele, o Alexandre se pôs a escrever a dedicatória para a nossas filhas Mariana e Letícia na foto dele:

Mariana / Letícia , uma pequena lembrança do seu cantor preferido Alexandre Pires!

Como a tinta da caneta preta dele era daquele tipo pincel atômico Piloto que borra e demora a secar, ainda mais sobre uma superfície lisa como a da foto, não tive outra alternativa senão pegar uma foto do pagodeiro em cada mão e propositalmente com a foto dele para trás, comecei a abanar para secá-las com os braços bem esticados para o alto.

Como era esperado, seguiram-se vaias e muitos risadas de todo o avião … eu e Alexandre rimos também muito da situação engraçada.

Ajudou também para o clima festivo na aeronave, ser um voo de volta de CGH para CNF na sexta- feira de noite, quando todo mundo fica relaxado e feliz por estar voltando para BH depois de trabalhar a semana em SP, ainda mais com a expectativa de que durante o voo seria oferecido aos passageiros uma cervejinha, exclusividade da TAM para aquele dia da semana e horário.

Essas são apenas algumas passagens, de muitas outras, que eu teria para lhes contar das aventuras de um sujeito ” sem noção ” como eu.

Neste mundo morno e pasteurizado que se transformou a nossa sociedade, onde as pessoas pisam em ovos com receio de serem rotuladas de alguma coisa + fóbica(o) e massacradas nas redes sociais, ou pior, podendo ganhar de graça um processo judicial nas costas, não me espanta a maioria das pessoas se comportar seguindo ipsis litteris o manual de boas práticas do comportamento politicamente correto de manada robotizado , esquecendo ou deixando bem escondido o que elas são de fato.

Por outro lado, existem os mimizentos mimados super hiper sensíveis e atentos que detectam uma carcaça a quilômetros de distância, como os urubus o fazem muito bem .

A continuar as coisas como estão, em pouco tempo, as pessoas ficarão tão sem graça quanto é um Big Mac que tem a textura e gosto de isopor e que é rigorosamente igual em todo planeta…

Por favor, nada contra quem adora um Big Mac, é apenas a minha opinião, viu ?

Entretanto, acredito que dá para coexistir naturalidade ou espontaneidade com o respeito às pessoas de diferentes gêneros ( são tantos atualmente que somados os dedos das mãos e dos pés ainda faltariam 11 ! ) , raças, culturas, classe sociais e credos.

Quando volto no tempo e assisto aos vídeos dos anos 70/80 no You Tube, seja do Costinha pegando no pé dos gays ou Didi zombando do Mussum por ser negro e do Zacarias por ser afeminado, tão comuns naquele tempo, hoje eu um pouco mais evoluído, sinto como se alguém contasse para mim uma piada de gordo ou de japonês, que mesmo sendo uma piada das boas eu nunca vou achar graça…

Acredito que todos tenham pelo menos uma ou outra peça de vidro no seu telhado, consciência que os faria refletir antes de lançar a primeira pedra.

Gosto de gente porque são diferentes por natureza, cada qual com um quê de especial que do nada podem nos surpreender e contribuir a sermos pessoas melhores.

Colocar toda essa rica diversidade humana numa forma indeformável e previsível, acho que é no mínimo um desperdício muito grande.

Ao final desse exercício concluí que a minha Fofa, a caçula, tem razão:

Sou um ” sem noção”. Talvez um pouco melhor acabado, menos bruto quem sabe, mas ainda dentro do espectro da tribo dos ” sem noção “.

Com muito orgulho !

Rui Sergio Tsukuda – setembro/21

https://aposenteidessavida.com/

6 comentários em “Sou um sem noção

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