Sabe aqueles dias em que tudo dá errado?
Ontem estava pescando aqui no sítio Duas Alegrias. Pois é, se as linhas com anzóis não se enroscavam no fundo do lago, pegavam uma moita de bambu fora dele. O pior, é que a pescaria estava com ação, o que aumentou ainda mais a minha frustração.
De tarde, fiquei mais uma vez bolado, porque ao pegar o violão, percebi que As águas de Março de Tom Jobim se foram ainda em Janeiro, deletadas da minha memória.
Já de noite, ao abrir as janelas do meu quarto, três morcegos entraram e não havia Cristo que os fizesse sair da casa.
Para fechar a noite com chave de ouro, a força se foi e o WIFI junto com ela, sem um trovão ou raio no céu. Fiquei no escuro e sem contato com o mundo exterior. Bendita CEMIG.
Foram todos pequenos aborrecimentos, mas que me dão muita frustração e uma vontade danada de gritar de raiva com direito a piti, rolando no chão como aqueles meninos mimados de shopping.
Mas como não tenho mais idade para isso, respiro fundo e falo para mim mesmo:
Rui, isso faz parte, shit happens, bora reagir!

Esse termo em inglês, ficou marcado para mim pelo genial Forrest Gump, um dos melhores filmes que assisti, que vou sempre lembrar dele com saudade, pela sua inocência e mensagens de vida passadas com leveza.
https://m.youtube.com/watch?v=Jzp9rokTTwI&pp=ygUUU2hpdCBoYXBwZW5zIGZvcnJlc3Q%3D
Muito pouco controlamos de fato nesta vida. Portanto, a maioria dos acontecimentos indesejáveis ocorrerão alheios à nossa vontade. A chave da questão é como reagimos a eles…
Podemos rolar no piso do shopping, nos vitimizar, culpando a vida e o mundo ou podemos reagir e sair com um plano B,C,D.
Em 1999, tomei o primeiro pé na bunda. O primeiro pé no derrière, assim como o primeiro soutien, a gente nunca esquece!
https://m.youtube.com/watch?v=iQ9EjVwVvFQ&pp=ygURUHJpbWVpcm8gc291dGllbiA%3D
Filhos pequenos, com a casa em Sorocaba ainda na fase inicial da construção e com a poupança zerada, esse era o cenário do momento.
Do nada, meu chefe me chama logo cedinho no seu escritório para dar a minha sentença:
Rui, você está demitido!

Com apoio da minha fiel companheira Virgínia, olhamos para os meninos que brincavam, assim rapidamente engolimos o choro e logo saímos com um plano B.
Liguei para a Alcoa e disse a eles:
– Opa,tudo bem! Há um mês mais o menos, eu declinei de uma proposta de trabalho de vocês. Pois é, mudei de ideia e agora tô aceitando…
É difícil começar uma conversa dessas. Mesmo com as sandálias da humildade calçadas, é uma situação muito embaraçosa, mas o NÃO eu já tinha…
Depois de explicar a eles o porquê da minha tardia mudança de opinião, ainda sobrou um restinho de coragem para roncar grosso:
– Eu se fosse vocês, contrataria o Rui. Profissionais como ele, especialista no processo Bayer, conto com os dedos de uma das mãos!
Sempre achei que a terceira pessoa que o rei Pelé usava, dava um impacto maior à fala dele.
E não é que funcionou! Tive o job offer de volta, porém como retaliação foi retirado da proposta o apartamento funcional no condomínio da empresa.
Não quero aqui fazer apologia à frustração, perder continua sendo ruim. Mas são nas derrotas que vem o aprendizado e a reboque criam os calos nos pés e nas mãos para sobrevivermos às próximas chuvas e trovoadas da vida.
Já as vitórias, esse bálsamo gostoso, mas passageiro, traz poucas lições que são logo esquecidas. Como lembrança fica apenas um bonito troféu empoeirado na estante.
A gente se lembra exatamente a cara de quem nos bateu, mas esquecemos rapidamente em quem batemos um dia…
Tenho percebido com preocupação, uma geração que tem baixa tolerância à frustração.
A geração Z, nascidos de 1995 a 2010, a primeira geração de nativos digitais, que na maternidade já ganharam um game boy, tablet ou um smartphone de presente dos pais ou avós babões.
O mundo digital é a bolha onde eles se refugiam, onde tudo é veloz e fácil. A expectativa deles é pelo prazer instantâneo, vídeos de mais de 30 segundos os enfadam.
Para complicar, os algoritmos maldosos, com fortes interesses comerciais, reforçam a permanência deles nesta redoma, distanciando-os cada vez mais do mundo real, que não mudou na mesma velocidade. Nesse ambiente, a desilusão encontra um prato cheio.
Tive um trainee dessa geração, um menino formado na USP, muito bem preparado e fluente em duas línguas estrangeiras.
Fiquei chocado, quando no primeiro dia de trabalho, ele já muito ansioso, queria saber quando eu iria mandá – lo para um treinamento no exterior e me cobrou na cara dura, um plano de carreira por escrito.
Depois de ouvi- lo com atenção, dei a minha réplica:
– Colega, não sei o que o RH te prometeu, mas aqui no mundo de verdade, a coisa caminha numa outra velocidade. Pega o seu capacete e vai pra área, que tá cheio de pepinos pra você resolver!
Depois de um mês, ele pediu demissão.
Eu já tinha ouvido falar da baixa tolerância à frustração, bem antes, nos anos 80, quando a minha mãe Dona Mariko, que era socióloga, investigou na sua visita ao Japão, a preocupante alta taxa de suicídio infantil que estava ocorrendo naqueles anos por lá.
Um parente nosso, que era professor de uma escola de primeiro grau, explicou a ela que as gerações japonesas desde a Segunda Guerra Mundial vivem numa prosperidade nunca vista naquele país. Portanto, essas crianças não tiveram que sofrer como as das gerações anteriores.
Ele finalizou dizendo, que como essas crianças nunca tinham tido problemas ou contrariedades na vida, o simples fato de um colega caçoar delas, dizendo que ela é feia, por exemplo, ela não consegue lidar com essa ofensa, pois não tem parâmetro de comparação.
Após ruminar e não compartilhar essa angústia com ninguém, conclui que a única saída é dar um fim à sua vida, simplesmente porque alguém disse a ela que é feia!
Vai falar pra um menino de rua lá no Pelourinho em Salvador que ele é feio, o seu ouvido vai até doer de tanto ouvir palavrões dele!
Mais uma vez, as merdas no nosso caminho serão muitas vezes inevitáveis, trazendo frustração, como reagimos a essas perdas, será a chave da nossa sobrevivência. Desistir não é opção!
Run Forrest, Run !

Rui Sergio Tsukuda – janeiro/24
aposenteidessavida.com
Meu caro amigo, me lembro bem quando você chegou em São Luiz. Lembro ainda o seu encanto com os abacaxis de Turiaçu! Na vida tudo tem os dois lados, você é quem decide qual lado utilizar, o da raiva, frustação, desapontamento e rolar no chão, ou levantar a cabeça, encarar de frente e ir a luta. Sentimento de frustação muitas das vezes não tem como não sentir, mas a nossa reação tem que ser mais forte que isso. Eu também levei um pé na bunda no meu primeiro emprego. Casado com uma filha ainda bebê, morando em São Caetanos do Sul, mas encarei da seguinte forma: Esse emprego também era uma bosta, não estava contente, trabalhava até de Sábado! Coloquei uma meta: Quero ir pro interior de SP! Fiquei 1 mês batendo de porta em porta, mas consegui! Não era o melhor emprego do mundo, mas fui pro interior. Sou um caipira assumido! Nesse emprego tive que vencer a minha timidez de caipira e conversar com o diretor, o gerente até o peão, batendo nas portas das empresas prá vender produtos químicos prá tratamento de água. O salário era pouco, mas por outro lado aprendi muito a me virar, perdi o medo besta de conversar com as pessoas.
Então meu caro, bola prá frente, pois a Entropia está ai e precisamos injetar Energia prá baixá-la!!! Grande abraço.
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Oi Montoro, me lembro muito bem de uma conversa que tivemos em São Luis da nossa dificuldade em nos adaptarmos à cidade. Eu não me conformava com o esgoto correndo a céu aberto e a desigualdade social.
Você disse assim pra mim:
– Rui aqui você tem duas opções, ou você olha para as mazelas que dão muitas ou aproveita o que a cidade te oferece de bom como as frutas, os camarões e os peixes.
Nunca vou esquecer disso, muito obrigado meu amigo!
Aí que saudade do abacaxi de Turiaçu….
Abraço
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Mais uma boa crônica, inteligente e humorada. Parabéns!
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Obrigado JC!
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