A vida começa aos 40 anos?

Não caia nessa falácia, a vida não começa aos 40, nem aos 50, tampouco aos 60 anos.

Essa conversinha pra boi Gir dormir com certeza tomou corpo, por consolo de homens e mulheres que se encontravam na idade balzaquiana e começaram a perceber pequenos sinais de queda do gráfico vital. Uma pequena ruga ou manchinha senil ali na cara ou no dorso de uma das mãos, um esquecimento aqui e um fio de cabelo branco desprendido lá no travesseiro ou na escova de cabelo.

No século 19, quando o escritor francês Honoré Balzac escreveu o romance A mulher de 30 anos, o auge da maturidade feminina ocorria nessa idade, mas hoje tudo mudou. As balzaquianas de 30 de ontem são as de 40 ou 50 de hoje, só não mudou o fato do número de óvulos serem os mesmos desde o nascimento e pior, com o climatério e menopausa chegando cada vez mais cedo.

Ai que calorão meu Deus!

Mas a vida por definição, começa quando a gente nasce, ou melhor, desde o momento da concepção, já somos vida. Mas a vida consciente começa na infância aos 7 anos. Antes disso, as únicas lembranças que teremos serão os álbuns de fotografias empoeirados numa gaveta ou na boa memória da mãe ou das tias, nos contando o quanto éramos rechonchudos, preguiçosos e só pediamos colo. Bom, pelo menos no meu caso.

Infelizmente nunca ouvi de ninguém, o quanto eu era lindinho. Mas em compensação minhas tias me garantiram que eu era muito engraçadinho…

É, o palhaço da turma! Cada um luta com o que tem nas mãos. Desde aquele tempo, comecei a desconfiar que a minha vida não seria nada fácil…

Agora aos 60 anos incompletos, eu já sou quase um idoso. Não vejo a hora de pedir a PMBH um cartão preferencial de estacionamento para parar o meu Fusca 68 vermelho, bem ao lado da mocinha do caixa do supermercado e entrar nas filas da terceira idade com autoridade, sem precisar puxar a perna direita ao andar em direção ao totem e apertar o botão da senha preferencial, sem evitar os olhares de censura das pessoas da fila normal.

Embora eu não tenha estreiado ainda a boa idade, como muitos se referem à maturidade, que de boa acho que tem pouca coisa, posso lhes afirmar que até aqui, a melhor fase da vida que achei foi a infância.

Tive muita sorte de ter nascido num lar de pais equilibrados. Claro que rolava uma briguinha entre eles de vez em quando, mas com a última palavra do meu pai, a discussão terminava:

– Sim Mariko, você tem razão.

Dinheiro em casa nunca faltou, mas não sobrava muito também, depois do Seu Mário pagar a prestação da nossa casa própria financiada pelo BNH e a parcela do nosso Corcel amarelo 73, comprado no consórcio nacional Ford.

Também fui privilegiado por não ter sido abusado sexualmente por nenhum tio pervertido ou padre safado. Claro que ser minoria racial, mesmo no Norte do Paraná, onde tem muito japonês, me rendeu algum bullying. Quando vejo crianças brincando nos patios das escolinhas, eu imagino nas verdades que são ditas na cara dura entre elas no recreio. Sem filtros, o bullying rola solto…

– Japonês calabrês, foi o diabo que te fez!

– Brasileiro quando nasce o doutor dá um tapa na bunda, já o japonês ganha um tapa na cara. Por isso tem a cara assim, toda amassada!

Quando eu chegava chorando em casa por ter sido zoado na escola, minha mãe colocava as mãos nos meus ombros e dizia assim olhando nos meus olhos, sem um abraço ou beijinho de consolo:

– Rui Sergio, engole esse choro e levanta a cabeça menino. Você acha que a vida é fácil? Amanhã você volta lá e bate no moleque que caçoou de você!

Depois dessa dica preciosa da minha mãe, nunca mais fui zoado por ninguém. Virei o bambambam da esquina, como cantou João Nogueira na canção Espelho.

Mexeu comigo levava porrada!

Nesse ambiente protegido, a minha infância foi muito feliz. Brinquei muito de carrinho de rolimã, empinei pipa sem cerol, pesquei em lago e rio, cacei passarinho de arapuca, estilingue e espingardinha de pressão, andei de bicicleta e de cavalo, nadei nas piscinas e nas ruas durante as enxurradas nas chuvas de verão.

Agora me dou conta, que a felicidade daquele tempo, foi porque eu vivia o presente, como se ele fosse de fato um presente de Deus, sem me preocupar se haveria ou não amanhã.

Depois da infância, vivi mais no futuro que presente, precavido e atento à sobrevivência. E talvez por isso tenha chegado até aqui, mas agora aos 59 anos, com o futuro sendo apenas uma possibilidade como sempre foi, volto a viver um dia de cada vez, como quando era menino.

Adoro a frase escrita na lápide de um especial escritor mineiro de BH:

” Aqui jaz Fernando Sabino, aquele que nasceu homem, morreu menino”

Depois da infância despreocupada, veio a adolescência com as suas dúvidas e incertezas. E enfim chegou a vida adulta, com seus planos, sonhos, ilusões, frustrações e desilusões. Bem cedo, aos 16 anos, acordei um dia e defini que seria engenheiro químico para a vida toda. O meu tio Otoiti ao saber disso, me recomendou fortemente fazer Agronomia ….

– Rui, faça Agronomia. Quando você for visitar as fazendas para dar assistência técnica, no cafezinho, você já fica de olho na filha de algum fazendeiro e dá o golpe do baú nela.

Não segui o conselho do meu tio. Mas o pensamento é tão poderoso, que mesmo sendo engenheiro químico, acabei me casando com a Virgínia, que é filha de fazendeiros de Goiás.

Os filhos chegaram e com eles a responsabilidade de educar, dar bons exemplos e prover. Passei de pessoa física a jurídica aos 28 anos. Eu nunca tive vocação nenhuma para ser pai. Por outro lado, a Virgínia, nasceu para ser mãe, então a gente se complementou nessa missão.

Tivemos uma vida quase nômade, mudando de empregos e cidades ao sabor das ofertas de trabalho e dos pés na bunda que eu recebia. E Lucas e Mariana, grudados como filhotes de tamanduá na cacunda, se adaptando conosco à cultura dos lugares, aos novos sotaques e costumes.

Começar do zero numa cidade desconhecida não é nada fácil. Assim que eu chegava numa academia ou clube de tênis, eu atacava com o meu bordão:

– Olá, eu sou o Rui. Apesar da cara, sou brasileiro como você. Meu nível é de terceira classe, bora jogar um set?

É incrível como as crianças se adaptam mais rapidamente que os adultos a um novo lugar. Em São Luís- MA, depois de dois meses morando lá, ao olhar um outdoor, a Fofa comentou:

– Eita Lucas, tu estás vendo isso?

– Égua, Mariana, eu tô sim.

– Rapaiz!, os dois finalizaram juntos.

Eu e Virgínia olhamos um para o outro espantadíssimos! Onde foi parar o forte sotaque sorocabano horrível deles, igual ao da jogadora Hortência?

Já em BH , depois de serem zoados pelos coleguinhas mineiros pelo uso do Tu, eles o descartaram rapidinho e adotaram o Cê e aproveitaram o ensejo para também deitar o erre como eles. Sem falar no uso do Nó ou Nú para reforçar espanto ou do Aqui ao começar um assunto com alguém.

Depois de uns 5 anos em BH , Lucas me questionou:

– Mas Pai, acho que tá passando da hora da gente se mudar daqui, já ficamos muito tempo em BH…

Pois é, agora em 2024, os meninos já estão formados e trabalhando. Lucas não ouviu os meus conselhos e fez também Engenharia Química. Já a Fofa foi mais inteligente e fez Medicina. Graças ao bom Deus, ambos passaram na UFMG e com isso economizamos bastante. E cá estamos nós felizes em BH há 22 anos.

Ao assistir o filme, Um homem de família de 2000, estrelado pelo manjado ator Nicolas Cage e a bela Téa Leoni, me levou a refletir se o que acontece na vida da gente é obra do acaso, destino ou planejamento?

Nesse filme não linear, Jack, um executivo de Wall Street muito bem sucedido, abdicou de ter uma vida familiar pela carreira. Mas um dia, acorda casado com sua antiga namorada Kate, dos tempos do colégio, com dois filhos pequenos, morando no suburbio de Nova Jersey e ele trabalhando como um vendedor de uma loja de pneus.

E se eu não tivesse feito Engenharia Química e sim Agronomia?

E se eu não tivesse pegado carona com o Marcelo para Goiás naquela sexta-feira de junho de 1989 e não tivesse conhecido a Virgínia na festa de formatura do primo dele?

E se nessa festa, eu não tivesse mordido o dente de alho cru que ardeu a minha boca, que foi o mote para que a Virgínia dissesse: – Se você não quiser, não precisa comer o alho… , e começássemos a conversar.

E se eu e Virgínia tivéssemos tido coragem e migrado com os meninos pequenos para uma vila chamada Gove no norte da Austrália em 1995?

E se….

Rui Sergio Tsukuda – março/24

www.aposenteidessavida.com

2 comentários em “A vida começa aos 40 anos?

  1. Esse “E se…” não serve pra muita coisa meu amigo! O que vale é curtir o agora, o presente. Ficar pensando no futuro só gera ansiedade, e ficar preso no passado gera tristeza e depressão! Então a receita é aproveitar o que a vida nos oferece, e escolher o melhor caminho que acreditamos ser o melhor. As vezes erramos a escolha, mas o ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar, virar o jogo e jogar a bola pra frente, desde que não fique preso nas lamentações das escolhas erradas do passado. Vire a página!!!
    Eu acredito que o nosso sucesso é medido pelo sucesso dos nossos filhos, aliás essa é a nossa maior responsabilidade na vida, encaminhar bem nossos filhos! Feito isso, podemos usufruir a “melhor idade” em paz! 
    Um grande abraço e curta a vida, e principalmente quando chegarem os netos, seja coruja mesmo !

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário