Um Dia

Na véspera de ontem, já bem tarde da noite, terminei de assistir a série Um Dia, no Netflix. Se até os primeiros dez episódios da série, eu me senti órfão da Emma Morley do filme, estrelado pela linda Anne Hathaway. Nos últimos episódios da série, eu finalmente me rendi ao talento e carisma da atriz Ambika Mod.

Apesar de ter visto o filme anos atrás, não me lembrava que Emma morria, ainda mais de forma tão abrupta atropelada por um automóvel, justamente quando ela e Dexter finalmente estavam casados e felizes, após 20 anos de idas e vindas.

Chorei pelo Dexter que ficou e pela Emma que partiu naquele dia.

Mesmo afirmando para mim repetidas vezes, que aquilo ali era uma obra de ficção escrita por alguém num momento de imaginação, nada mais que isso, e que não valia a pena derramar uma gota de lágrima por eles, o meu pranto não secava.

No dia seguinte, logo cedinho, sou lembrado pela Virgínia, que 12 de junho é o dia dos namorados e mais uma vez, eu havia esquecido a data. Prometi mais uma vez a ela, que no ano que vem, irei me lembrar sem falta desse dia.

Ao abrir meu celular, uma notícia muito triste deixou o meu dia devastado e sem chão:

Meu querido amigo Alysson, faleceu após a sua luta contra um câncer, aos 46 anos.

Conheci o Alysson numa seleção para engenheiro de processo na empresa. Naquele dia, fui surpreendido pelo rapaz petulante, que me desafiou ao finalizarmos a entrevista em inglês:

– Rui, podemos continuar em francês, se você quiser.

Instintivamente devolvi blefando:

– Antes do francês, quero primeiro checar como está o seu japonês…

Bingo!

Eu percebi naquele rapaz alto, bonito e de voz grave de locutor, que ele era diferenciado e teria uma carreira profissional meteórica, sem dúvida. Lembrei do meu pai, seu Mário, um dia dizendo a mim e ao meu irmão Caio, para escolhermos o filhotinho de Doberman, que tivesse a maior pata da ninhada e fosse o mais esperto.

E foi assim que fiz.

Alysson tinha um coração muito bom. Sofreu muito, quando anos mais tarde foi necessário fazer a sua primeira demissão da sua carreira. Às vésperas dele consumar o ato, foi preciso ligar a ele algumas vezes para consolá-lo. Me lembrei que lá longe, um dia, eu tinha sido assim também.

No dia do  casamento dele com a Lilian, escrevi um texto ao casal, que seguiu dentro de um saleiro de inox. Lembro que ao final, eu escrevi:

– Alysson e Lilian. Em Goiás, terra da Virgínia, se fala há muito tempo, que dar um saleiro de presente ao casal significa desejar a eles longevidade no matrimônio. Muitos sacos de sal serão consumidos por vocês, dia após dia, ano após ano. Mas note, que os sacos de sal daquele tempo eram de 60 kilos!

Anos depois, quando recebemos a visita deles em casa, já com o primeiro herdeiro Gustavo, ainda bebê no colo da Lilian. Eu comentei com a Virgínia:

– Meu bem , esse bebê vai acabar morrendo na mão deles um dia, será que ele vai vingar? Eles são tão inexperientes, você notou que quase o moleque sufocou com a papa?

– Vai tudo dar certo Rui, Deus cuida!

Depois de 20 anos de amizade, nos distanciamos, assim sem um motivo aparente, a não ser trabalharmos em empresas concorrentes.

Mas um dia , recebo uma mensagem do Alysson, que dizia assim:

– Rui, sempre que estou em Arcos, eu penso no que vou dizer a você, no dia em que a gente se esbarrar por aqui, por acaso.

– Eu começaria dizendo assim:

– Rui, sinto muito sua falta e não sei porque motivo nos afastamos. Proponho retomarmos a nossa amizade e por minha conta, vamos comemorar no restaurante Tempero.

– Lá vou pedir aquela parmegiana de filet mignon com queijo, mas sem presunto e com muito molho de tomate que você gosta. Vou pedir também uma pizza com queijo, tomate e orégano para o seu café da manhã do dia seguinte no Max hotel.

E assim, a nossa amizade foi retomada e comemorada com esse jantar. Mas educadamente, dispensei a pizza amanhecida para o café da manhã no dia seguinte, pois devia estar de dieta.

Desde então, não mais nos perdemos de vista. Ele me contava dos seus planos para o futuro dele e da família, da carreira e quem sabe um dia, irmos juntos de moto até o Chile. Ele na sua Triumph 1200 e eu na minha Fat Boy amarela.

No seu velório, vestido com a minha melhor roupa, chorei pela Lilian, Gustavo e Gabriela que ficaram e pelo Alysson, que partiu nesse dia.

A realidade infelizmente não pode ser editada, apenas aceitada tal qual nos é apresentada, diferente da série e do filme Um Dia.

Nesse mesmo dia, ainda pela manhã, na aula de canto com a Carol, trabalhamos pela primeira vez, a canção Pedaço de Mim de Chico Buarque. Com ela ao violão, eu cantei essa canção para ser definido o tom exato para a minha voz.

Mesmo com a voz embargada de emoção e as pausas para enxugar as lágrimas, consegui finalizá-la.

Doravante, Pedaço de mim, será lembrada por mim, como a minha singela homenagem ao meu querido amigo, que nos deixou no dia 12 de junho 2024.

Descanse em paz Alysson.

Você fará muita falta a todos nós!

Um dia nos reencontraremos, tenho certeza que sim.

Adeus.

Rui Sergio Tsukuda – junho/24

www.aposenteidessavida.com

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