De volta ao passado, onde eu nunca estive.

Vir ao Japão para mim, era muito mais do que visitar um daqueles destinos imperdíveis antes de morrer, que aparecem nos reels do Instagram.

Era na verdade um acerto de contas com a minha origem e meu passado.

Cresci ouvindo histórias da família que o meu tio-avô Minoru me contava, como a passagem do meu bisavô Tsukuda, que foi trabalhar na Suiça como minerador no início do século passado.

No cais do porto, já no embarque de volta ao Japão, depois de três anos trabalhando duro para juntar dinheiro, perdeu tudo o que economizou no jogo de azar de três copinhos e uma semente.

Envergonhado, ele escreveu uma carta para a minha bisavó, que só  chegou meses depois, avisando que ficaria mais cinco anos trabalhando na Europa para recuperar o dinheiro perdido.

Quando finalmente ele retornou ao Japão, o meu avô Massaru já estava com oito anos, idade na qual pôde finalmente conhecer o seu pai.

Ou as fábulas japonesas como a do Momotaro e Issun Boushie, que eu ouvia da boca da minha batiam Mitsuno e da minha mãe dona Mariko. Na voz delas eu imaginava e sonhava como seria o Japão.

Desde pequeno, eu tinha consciência que eu era diferente dos meus coleguinhas do pré-primário do Grupo Escolar Hugo Simas em Londrina e que infelizmente, eu era minoria.

Quando eu queria esquecer disso, eles me lembravam com uma piada politicamente incorreta, que eu era japonês e eles brasileiros, apesar de eu ter nascido na mesma maternidade que eles.

Eu sabia também que a nossa cultura era japonesa, mas tinha um quê de brasileira, como a comida de casa, assim uma mistura de sushi com feijoada.

E muito antes que o sushi e sashimi se tornassem quase preferências nacionais, meus amigos torciam o nariz quando provavam esses pratos em casa e achavam esquisito a gente usar hashi na mesa.

No primeiro contato nesta viagem com um nativo aqui do Japão, eu pude sentir na pele a frieza e a indiferença com que são tratados os milhares de dekasseguis– imigrantes – brasileiros ao refazer o caminho de volta dos nossos antepassados ao Japão, para trabalhar nos cargos braçais cada vez menos desejados pelos japoneses.

Não é à toa que o trabalho dos dekasseguis é chamado de três k : kitanai (sujo), kiken (perigoso) e kitsui (pesado)

Apesar de muitos terem diploma universitário, aqui no Japão,  eles são considerados trabalhadores sem qualificação.

Apesar da minha cara e meu sobrenome denunciarem que eu seria a princípio como um deles, a minha pele bronzeada do sol tropical, me entrega que na verdade eu sou um nikkei, ou seja um japonês nascido fora do Japão.

No glossário do boi Wagyu do famoso Kobe Beef ou de qualquer outra raça bovina, o meu avô seria um POI ( puro de origem importado), já meu pai e eu seríamos um PO (puro de origem) e meus filhos PC (puro de cruza), isso  porque a Virgínia é branca. Se eu tivesse casado com uma japonesa, meus descendentes seriam ainda PO.

Mas no glossário  japonês, o meu avô seria um Issei (japonês nascido no Japão). Já um Nissei, seria a primeira geração nascida em outro país;  Sanssei, a segunda geração… ; Ionssei, a terceira geração… ; Gossei, a quarta geração… e assim vai!

Se um Japa se apaixonar por uma branca ou preta, aí dá filhos Hafu ( do inglês half, metade) ou o menos usado Ai- no- cô ou filho do amor, que eu acho mais fofinho, como costuma falar a minha caçula.

Depois de uma semana no Japão, eu infelizmente constatei o que já desconfiava há muito tempo, que eu não sou na verdade de nenhum lugar…ou seja Nem, Nem!

No Brasil cresci puto da vida ouvindo contrariado me chamarem de Japa e aqui, onde pela primeira vez não me sinto minoria na vida, tampouco sou Japa da gema como eles!

Dureza, viu!

Para terminar uma passagem que aconteceu comigo numa estação de trem que fomos na semana passada para ver o monte Fuji

Eu tinha acabado de passar pelo check -in para Tóquio e estava já na plataforma de embarque com a família esperando pelo trem. Mas como sempre, tive que  retornar  à estação para ir ao banheiro e fazer o meu último xixi.

Como esse retorno não é usual, tive que explicar aos funcionários que eu estava apertado e precisava de um banheiro. Com o meu japonês básico, eu achei que daria conta de passar essa mensagem na língua deles, então arrisquei.

Qual minha surpresa que todos os funcionários começaram a rir da minha cara, como se eu tivesse contado uma piada das boas!

Eu confesso que fiquei constrangido com isso, mas como  entenderam o que eu pedi, nem liguei tanto assim na hora. Mas no trem, aquilo ficou martelando na minha cabeça.

Mas ontem ao conversar com a minha querida prima Neide pelo WhatsApp, ela me explicou o motivo de tanta risada da turma:

– Rui, você devia ter se referido a banheiro como toireto ou toilet do inglês. E não bendió que não se fala mais no Japão.  Porque bendió em japonês é aquela privada de antigamente, que tem uma tábua com um buraco e uma fossa embaixo, super desconfortável e mal cheirosa.

Aí eu entendi porque há um bom  tempo atrás, foi uma delegação de japoneses ao Brasil visitar os idosos da colônia japonesa do Paraná e São Paulo para entrevistá- los e aprender o japonês tradicional, antes que eles morressem.

O japonês castiço ficou congelado com os imigrantes como uma cápsula do tempo. Hoje aqui tudo é muito inglesado. Empitsu que era lápis, agora é pencil, por exemplo.

E foi nesse idioma antigo que eu aprendi o pouco japonês que sei!

Por isso fica dica, nunca diga bendió no Japão quando quiser fazer o número 1 ou o 2, que você será zoado como eu fui!

Agora vendendo o meu jabá, não deixem de ler aqui no blog duas crônicas sobre esse tema:

Como é ser um japonês no Brasil.

Watashitachi wa onaji Hotoke no kodomodesu!

Arigatô Gozaimasu!

Rui Sergio Tsukuda – outubro/24

www.aposenteidessavida.com

3 comentários em “De volta ao passado, onde eu nunca estive.

  1. oi Rui, que interessante a história do seu bisavô paterno! E conforme minha mãe me contava, seu bisavô materno trabalhou na Inglaterra! Hoje penso como foram corajosos com todas as dificuldades, principalmente com relação à língua estranha para eles.

    Qdo eu for conhecer o Japão vou me lembrar do seu texto. Será que vou me sentir também uma nem,nem? Abraços Rui, adorei sua crônica, obrigada pela citação! Vamos nos encontrar um dia pra nos contar tudo dessa sua viagem ao país do sol nascente com sua família!!

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    1. Oi Neide, obrigado pelo comentário. Vamos nos encontrar sim.
      Ganhar dinheiro sempre foi difícil né? Imagina partir do Japão à Europa numa viagem de mais de um mês. Imagine as condições de higiene do navio…
      E eu reclamando das 24 h de vôo de avião…

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  2. Eita Rui.. impressionante a babaquice que é esse bullying que você sofreu por sua descendência japonesa. Afinal, pensando por essa lógica, brasileiros mesmo, só os indígenas que aqui estavam na chegada dos portugueses né?! Hehe.. mas bullying nunca tem sentido nobre de ser!

    Muito legal que está por aí (pela primeira vez então??), mais próximo do país de origem da sua família. Aproveite muito e conte mais causos!

    Abração, meu amigo, ótima continuação de viagem!

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