Evoluindo com as diferenças

Aqui em Minas, sempre quando encontro com crianças no elevador e elas ficam me encarando, lhes pergunto quantos amigos japonesinhos elas tem na escola.

Como quase sempre a resposta é nenhum, me abaixo até o nível dos olhos delas e pergunto:

– Você notou que eu sou diferente, né?

– Sim você é japonês!

Depois desse quebra gelo, algumas até tocam no meu rosto e perguntam curiosas:

– Você dá conta de enxergar bem? Seus olhinhos são tão rasgadinhos…

A minha mãe, dona Mariko me contou o espanto que teve, ainda criança, ao se deparar com a primeira pessoa preta que topou na vida, um colono que foi trabalhar no sítio Lorena em Londrina – Pr.

Ela reagiu ao medo saindo correndo pro cafezal gritando:

Curombo, curombo ! , como são chamadas as pessoas pretas no Japão, ainda hoje raridade por lá.

Tenho certeza que as crianças com quem interagi e também a minha mãe, saíram dessas experiências sensibilizadas.

Num segundo encontro a diferença não seria mais novidade. E nos próximos encontros, a diferença, embora percebida, seria vista com mais naturalidade.

Ontem zapeando na TV, parei por acaso no canal Futura, dando a ele mais alguns segundos para me conquistar, antes de continuar a minha busca incessante por algo interessante na telinha para assistir.

O programa que passava era o PCDPOD, liderado por um apresentador portador de nanismo e uma deficiente auditiva. Já os convidados eram uma garota com paralisia e cadeirante, outra com  deficiência visual e um menino Down.

Como era a primeira vez que assistia a um programa exclusivo de pessoas com deficiência, isso me causou certa estranheza. Mas dei crédito ao programa e não mudei de canal.

Ainda bem que não o fiz, porque aqueles 30 minutos me trouxeram boas informações, que me fizeram refletir.

Foi importante ouvir o outro lado do mundo dos deficientes, além da empatia não correspondida que sinto por eles.

Entendo agora que a minha empatia, apesar de bem intencionada, é carregada de pena, que é uma palavra muito brochante para eles.

Porque ter pena de alguém, é sentir de alguma maneira superior a ela. E tem aquele sentimento inconfessável ao ver uma pessoa com deficiência

 – Eu sou feliz e não sabia… e com isso se sentir melhor, nem que seja por uns instantes.

Os participantes desse programa falaram várias vezes em não ter lugar na sociedade, assim como se fossem párias dela. E que apenas buscam serem tratadas e ter o direito de pessoas comuns, como eu e você.

Tenho assistido também a um canal no YouTube chamado Attitude, que mostra as experiências de superação de pessoas com deficiência da Nova Zelândia.

A comparação entre as condições de acessibilidade dadas aos deficientes do Brasil e da Nova Zelândia, como já imaginava, não tem graça.

Ou seja, as difíceis etapas iniciais dos direitos e reconhecimento dos deficientes já foram conquistadas por lá. Mesmo assim, nesse país, uma pessoa com deficiência, como aqui no Brasil,  sempre atrai muitos olhares, foi uma reclamação que ouvi nos depoimentos.

Conclui que conquistar a acessibilidade, que apenas depende de lei e dinheiro é bem mais fácil do que ter a aceitação das pessoas.

Onde tem gente é complicado e tem problema, só muda o endereço…

Tive um colega de trabalho que se especializou em contar piadas de cotocos.

Eu confesso que morria de rir cada vez que ele contava uma piada nova.

Mas será que eu riria caso a piada fosse de japonês gordo?

A primeira vez que vi um crente na minha vida foi no sítio Lorena da minha vó.

– Mãe, porque aquele senhor curombo está nesse calorão vestido de terno preto com uma bíblia debaixo do braço? Ele é doido?

– Não Rui, eles são crentes! Nós somos católicos e eles crentes, é só isso.

Naquele tempo, os evangélicos eram chamados de crentes. Depois descobri que esta palavra tem um quê de preconceituosa por parte dos católicos.

No aeroporto  JFK em Nova Iorque, na recente viagem ao Japão, enquanto esperava a conexão para Tóquio, fiquei um bom tempo me dedicando a apenas observar as pessoas que passavam na minha frente.

Foi uma aula de diversidade. Tinha todo espectro da tabela periódica dos elementos químicos passando na minha frente:

Pretos, amarelos, brancos, gays e seus derivados, deficientes, judeus ortodoxos, islâmicos, gordos, magros, altos, baixos, hippies, bonitos, feios, cabelos coloridos, sem cabelos ….

Ah como eu gostaria de ter tido essa aula há uns 50 anos atrás, com a Dona Mariko ao meu lado, amorosamente me explicando as diferenças entre as pessoas no mundo.

E concluir com ela que no fundo, embora haja diferenças entre nós na aparência, crenças, gênero e comportamentos, há mais pontos em comum do que diferenças. E que dá para coexistirmos em paz e harmonia.

Todos nós invariavelmente buscamos a felicidade de um jeito ou de outro. Temos sonhos, desejos, vitórias, alegrias e decepções na vida. Choramos, rimos, nos alimentamos, fazemos xixi, cocô e ao final morreremos, sem exceção, seja rei, rainha ou mendigo.

Quando eu via a Rainha Elizabeth II na TV, sempre imaginava ela fazendo cocô no outro trono não tão nobre assim, olhando pra mim e me dizendo:

– Tudo que você sabe de mim Rui é apenas fachada, eu me sento neste trono todos os dias feito voce e by the way,  o meu cocô não tem cheiro de lavanda não!

Rui Sergio Tsukuda – janeiro/25

http://www.aposenteidessavida.com

4 comentários em “Evoluindo com as diferenças

  1. É meu amigo, a diversidade é muito maior do que a gente imagina, e a inclusão mais difícil de fazer. Hoje, com muito mais informação, esse processo deveria ser mais fácil, mas o preconceito ainda é muito forte, muito mais do que a gente imagina. Acredito que o nosso papel é lutar contra os preconceitos, de todo tipo, e prá isso temos que começar a mudar em nós mesmos!

    Grande abraço e um 2025 com muita saúde prá você e família!

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  2. Oi Rui, é bem assim mesmo!! Mas ainda bem que existem os diferentes! Já imaginou todos no mundo iguaizinhos? Não teria graça nenhuma! Fazemos muitas coisas iguais, necessidades de subsistência, necessidades fisiológicas, mas também coisas diferentes. A nossa existência aqui na Terra é um mistério, não é mesmo? Porisso vale viver, fazer o bem, cultivar amizades, viajar , amar a família e tantas outras coisas! Obrigada por mais essa reflexão, abraços !!! Adorei!!!

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