Tia Sumile

Existem pessoas que estar junto delas me faz muito bem. É difícil explicar por que, mas acho que é um pouco de admiração, afinidade, simpatia e reverência. Mas tem um quê de espiritual, que transcende tudo isso também.

A tia Sumile, irmã da minha mãe, dois anos mais velha que ela, era uma pessoa assim. Quando ela chegava num ambiente, não passava despercebida. As pessoas poderiam admirá-la, invejá-la, mas nunca ignorá-la.

Foi um daqueles seres anacrônicos, que resistiram em se adaptar aos usos e costumes da época em que viveram. E por serem rebeldes, deixaram a sua marca nos que conviveram com eles.

Nos anos 60, ela já mocinha, a minha batian ou avó Mitsuno, devia já desconfiar que não seria tarefa fácil arrumar um pretendente descendente de japonês para a tia Sumile. Pertencendo à colônia japonesa de Londrina, para a minha tia e suas irmãs, incluindo a minha mãe, era pouco provável um casamento inter-racial naquele tempo.

Com seis filhas, a minha avó sonhava em casar todas as filhas, claro com um nikkei. Minha mãe Mariko, contava que a dona Mitsuno tinha tanta obsessão para desposar bem as filhas, que aos 12 anos, ela foi enviada a Lins em São Paulo para fazer um curso preparatório numa escola para ser uma dona de casa exemplar, onde aprendeu habilidades de corte e costura, bordados, boas maneiras e culinária.

Até o final da vida, a minha mãe não perdoava a batian por isso, porque as amigas e as irmãs tinham ficado em Londrina e seguiram a tendência na época de serem normalistas e muitas delas fizeram um curso superior. A minha mãe, por sua vez, somente graduou em Ciências Sociais em 1988 na UFPR. Coincidentemente, no mesmo ano em que eu me formei em Engenharia Química, lá também.

O casamento dos meus tios – avós Otoiti e Netian, na década de 40, aqui no Brasil foi pelo miai (casamento arranjado japonês) tradicional. Ou seja, as famílias combinavam quem se casaria com quem e pronto! Li alguns relatos de mocinhas que não aceitaram esse destino e fugiram da forca com seus crushes da época.

A minha querida tia Netian, que era irmã da batian Mitsuno, me contava que no começo não foi nada fácil conviver com o tio Otoiti, porque eles mal se conheciam. Mas depois, com o tempo, o amor foi chegando aos pouquinhos. A chegada dos quatro filhos do casal confirmou esse amor. Quando eu os conheci no final dos anos 60, não percebia que o casamento deles fora arranjado, eles pareciam ter sido feitos um para o outro de tão conectados que eram. Pareciam almas gêmeas! No caso deles, Deus escreveu certo por linhas tortas… só faltava um empurrãozinho!

Como eu perdi a minha batian Mitsuno muito cedo aos 9 anos, a tia Netian foi a minha batian do coração e o tio Otoiti, foi o meu ditian que eu nunca tive de fato. Nas sempre boas conversas que tínhamos, eles me diziam: “ Ruisan no hanashi ga iidesu! ” ” A conversa do Rui é boa, gostosa! ” Eu ficava muito feliz de ouvir isso e estar com eles era uma alegria.

Vinte anos depois, o miai já tinha evoluído um pouco mais. Era um miai moderno, onde os rapazes eram informalmente selecionados pelas famílias e apresentados às moças casadoiras. Claro que os bem formados e ricos levavam vantagem sobre os mais pobres, mas haviam rapazes suficientes para todas as moças na colônia.

Havia por assim dizer uma lista tríplice de rapazes, como os juízes candidatos ao STF. Ao serem apresentados, tanto a moça como o rapaz, tinham o direito de dizer não e pular fora. Como os japoneses são tímidos, um tranquinho é sempre bem-vindo.

Nos anos 50 / 60, a tia Sumile já fumava e dirigia automóveis. Parece normal hoje em dia, mas naquela época, devia ser um acinte uma mulher ser da vanguarda. Com certeza por onde ela passava ela era percebida, assim como são as mulheres que dirigem automóveis e fumam hoje em dia na Arábia Saudita.

Com certeza, a tia Sumile participou de alguns miais patrocinados pela batian Mitsuno, mas acho que os rapazes e as suas famílias deviam colocar objeções com relação a ela. Se hoje em dia, alguns homens ainda correm de uma feminista, imagine naquele tempo… Ela fugia completamente do estereótipo de japonesa recatada e dócil. Nenhuma sogra queria levar esse “problema” para casa com certeza.

Com as irmãs próximas à sua idade, como a minha mãe, já se casando. A tia Sumile com mais de 30 anos, estava ficando para titia. Hoje uma mulher na casa dos 30 anos é nova ainda. Mas naquele tempo, já tinha passado da hora de casar… Minha mãe, por exemplo, se casou aos 21 anos com meu pai, seu Mário de 24 anos.

Com certeza, a minha avó Mitsuno ainda caçava um ou outro pretendente em potencial na colônia para um miai lava-jato para a filha, mas os bons partidos já deviam ser raros com casaizinhos já comprometidos e outros já se casando…

Imagino a decepção da minha batian quando a tia Sumile apresentou a ela o seu pretendente, o tio Pedro. Além de ser um gaijin ( o ser humano que não é japonês ), ele era judeu.

Tento aqui inferir o sentimento da batian por essa novidade. Se por um lado, ela com certeza ficou muito decepcionada pelo fato dele ser um gaijin e judeu. Por outro lado, a tia Sumile estava saindo do atoleiro e isso contava muito para a minha avó.

Ou será que ela preferiria que a tia Sumile continuasse solteira a se casar com um gaijin e judeu? Infelizmente, eu nunca terei essa resposta porque a minha avó faleceu em dezembro de 73 e não contou para mim e tampouco a minha mãe comentou comigo esse fato, até ela morrer no ano passado.

Lembro muito bem do casamento deles em Londrina, exatamente no dia 03 de Julho de 1970. Nesse dia, a minha mãe não pôde comparecer à cerimônia na igreja Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos no bairro Shangri-lá, porque estava no hospital dando à luz ao meu irmão caçula, Binho.

Um festão foi realizado no sítio Hamada em Lorena naquela noite, com muita comida e bebida, discursos, banzais e muita música japonesa Enka. Sobre os dois terreirões acimentados, onde os grãos de café eram secados ao sol, foram montadas duas tendas de lona de caminhão com muitas lâmpadas incandescentes improvisadas penduradas.

Aos 6 anos, foi a minha primeira grande festa. Fiquei maravilhado e lembro agora todos os detalhes dela, como se eu fosse transportado neste instante para aquela noite de 03 de julho de 1970… Direto do túnel do tempo, como o Lucas Siva e Silva do Mundo da Lua.

O tio Pedro era um sujeito estranho. Ele falava pouco e lia muito, mas muito mesmo. A imagem que eu tenho dele na minha infância, é de um tio distante que sempre estava com um cigarro e um livro na mão escrito em inglês, francês, alemão ou português e sempre chamando pela tia Sumile para tudo …

Depois descobri que ele era um intelectual. Foi o primeiro ser dessa espécie que topei na minha vida. Tinha muita curiosidade para saber o que se passava na sua cabeça e em que língua ele pensava, já que os meus tios Masao, Kentian, Osamu, Pepê, Cali, Massumi e Delfino, além do meu pai Mário, eram seres humanos “normais”. O tio Pedro era um tipo exótico!

Ele era tão chique que não chupava laranja como a gente. Para ele, tinha que ter garfo e faca. Uma vez no sítio em Lorena, fiquei observando atentamente a sua reação quando ele ganhou uma espiga de milho cozida para comer.

Fiquei aguardando como ele lidaria com a situação. Ele não se fez de rogado… Desta vez , sem pedir prato, garfo ou faca a ninguém, polvilhou o sal em toda a extensão da espiga delicadamente. Passou manteiga com uma pazinha cuidadosamente numa fileira de caroços de milho e pôs se a comer o milho verde cozido de dois em dois caroços.

A cada fileira de caroços terminada, ele passava manteiga na próxima e passava os dentes novamente, como se fosse uma colheitadeira John Deere fazendo uma colheita perfilada perfeita com GPS, não deixando nenhum carocinho de milho para trás. Foi impressionante!

Quando olhei para o meu sabugo todo cheio de caminhos de rato e caroços pela metade e inteiros, fiquei com vergonha. Percebi que o tio Pedro era um ser que tinha vindo de outro planeta. Até para comer um milho cozido ele era diferente da gente. Eu me senti nesse dia um indiozinho perto dele.

O tio Pedro, foi o primeiro a apresentar ao meu pai, os vinhos tintos e brancos secos. Até então, meu pai só comprava os vinhos de colonos italianos da região, o tipo Chapinha suave e deliciosamente doce, que para os enólogos é uma afronta e nem pode ser considerado vinho. Antes do modismo de hoje, em que apreciar vinhos é chique e confere status ao bebedor, o tio Pedro já o apreciava e sabia reconhecer os seus tipos, as melhores cepas e safras. Ele tinha berço.

Ele era muito irônico também…

Em 2000, o tio Pedro foi jantar em nossa casa em São Luis – MA. Nessa viagem, ele foi à ilha magnética para dar uma palestra na Alumar sobre instrumentação de processo. Lembro que depois do jantar, fomos dar uma volta na orla de carro, passando pela avenida Litorânea, que já estava linda pela recém revitalização e muito bem iluminada.

A Virgínia e os meninos foram sentados no banco de trás do carro e ele sentou-se ao meu lado. Ela gentilmente concedeu ao meu tio o seu lugar, para que ele apreciasse melhor as belezas da ilha de São Luis. Mas notei que durante todo o trajeto, ele não virou o rosto em nenhum momento para apreciar o mar. Isso me incomodou tanto, que tomei a liberdade de perguntar a ele:

Tio, olhe o mar, não perca essa oportunidade. São Paulo não tem mar! É lindo, né?

Ele muito seco respondeu assim:

” Rui, em São Luís tem só três coisas boas: Você, a Virgínia e os seus filhos! e deu uma risada bem irônica…”

Esse era o tio Pedro!

Num dia no verão de 1971, eu estava brincando na casa da batian com as minhas primas e meu irmão Caio, eis que surge uma Variant vermelha com placa de São Paulo entrando na garagem da casa na rua Santos 264, em Londrina. A tia Sumile estava ao volante, o tio Pedro ao seu lado e a Dona Katharina ou Kate, mãe do tio Pedro estava sentada no banco de trás. Até então o tio Pedro não sabia dirigir um automóvel, aprenderia tempos depois com a tia Sumile.

Quando nós e as primas, ficávamos sabendo que algum dos tios viria de São Paulo, era uma festa só. Além dos mimos que ganhávamos e esperávamos ansiosamente, tínhamos muito interesse em saber os próximos capítulos das telenovelas, cujos rolos eram transportados via terrestre e demoravam dois ou três dias para chegar em Londrina.

Quando desceu da Variant a Dona Kate, ficamos chocados porque ela, mesmo com o calor que fazia, estava vestindo um casaco de pele em pleno verão do Norte do Paraná!

Eu pagaria um doce para presenciar o diálogo havido logo em seguida, entre a dona Kate e a minha batian. Se houve alguma conversa entre as duas, deve ter sido uma briga de foice no escuro, porque a minha avó malemá falava o português. Era mais ou menos três por um. Três palavras em português com forte sotaque japonês para uma palavra de japonês. Do outro lado, a Dona Kate, tinha um português com forte sotaque alemão e inglês.

Naquele calor que fazia, a tia Sumile, preparou uma sopa para a Dona Kate bem rala com batatas e cenoura. “Sopa nesse calor?” eu pensei. Não tínhamos o costume de tomar sopa, a não ser um missoshiru com tofu e cebolinha, de vez em quando e somente no inverno.

Dona Kate tomava a sopa com uma colher com muita educação sem fazer nenhum ruído. A cada duas ou três colheradas, ela dava uma mordida num pão de forma que estava ao seu lado. Sobre a mesa também se encontrava um livro, sempre à tiracolo. Concluí que assim como o filho, ela era também intelectual. Chamava o filho não de Pedro, mas de Peter…

Ela, por ter nascido na Europa não era muito fã de banhos como a gente. Minha tia ficava de olho nela. Ela por vezes, ligava o chuveiro, dava um tempinho e saia do banho tão suja como entrou nele. Ao sair, minha tia a pegava no pulo:

” Kate, de novo fingindo que tomou banho? Volta lá e completa o serviço!”

A história de vida da dona Kate foi muito dura. Ela nos contou que aos 17 anos, tinha uma vida abastada na Alemanha, assim como os judeus em geral. Com Hitler já no poder, o pai dela, numa noite, deu a ela um bracelete de ouro maciço que estendia por todo o antebraço e era composto de elos de corrente destacáveis.

O pai lhe disse muito firme, que era para ela fugir naquele momento e pegar o primeiro navio. Em cada porto que ela descesse, ela discretamente levantaria a manga da camisa e destacaria um ou dois elos de ouro necessários para pagar as suas despesas com a comida e hospedagem.

Por isso, ela nos explicava, que os judeus tem jóias… Numa fuga, no meio da noite, eles poderiam levá-las e sobreviver por um tempo. Uma casa ou um terreno não daria para levar nas costas…

Finalmente depois de alguns anos de casamento, vieram ao mundo os meus primos Ernesto e Daniel.

Houve um pequeno estresse com relação à escolha do sobrenome dos meus primos mestiços japoneses- judeus. A dona Kate pediu à minha tia que fosse colocado também o sobrenome da família dela Wagner, já que Wagner, apesar de ser um sobrenome judeu, é também um nome comum no Brasil e em outros países. Este fato, poderia passar despercebido em caso de uma perseguição a judeus.

A tia Sumile, por sua vez, não abriu mão de ter Hamada no sobrenome das crias, para deixar claro que os meus primos eram 50 % japoneses e em caso de algum atentado terrorista eles seriam poupados.

Naqueles anos, os conflitos árabe – israelense estavam intensos. O sequestro do avião airbus A 300 em Entebbe Uganda em 1976, foi um caso relevante. Além claro dos atentados aos atletas israelenses na Olimpíada de Munique em 72, que vitimou 11 atletas e treinadores judeus. Então, o receio da tia Sumile fazia muito sentido.

Ao final, o sobrenome deles ficou: Wagner Hamada Cohn. Com certeza, o Hamada e a carinha deles de mestiços daria um nó na cabeça dos terroristas, ainda mais porque Hamada é um sobrenome japonês, mas é também um nome árabe muito popular no Egito. O jihadista poderia pensar antes de apertar o gatilho da arma:

” Uai sô, ele é um judeu, um judeu – japonês ou um judeu – árabe? Vai que ele tenha algum sangue árabe… Não posso perder por bobeira as 72 virgens que me esperam no paraíso ao morrer… Esse passa, bora pegar um judeu – judeu puro! ”

A dona Kate lembrou que o sobrenome judeu dos netos poderia ter também valia num futuro próximo, já que os meus primos seriam um dos poucos descendentes que sobraram de uma família que foi dizimada ou esterilizada pelo nazismo. Acho que ela já vislumbrava naquele tempo, que o governo alemão poderia exigir no futuro, que os atuais proprietários das propriedades ilegalmente confiscadas dos judeus, pagassem aos seus antigos proprietários uma indenização para a emissão das vintenárias dos imóveis.

E isso de fato aconteceu, pois o tio Pedro anos depois, recebeu uma indenização de um proprietário de um prédio na Alemanha, cujo imóvel fora ilegalmente confiscado da família dele durante o período nazista. Eu bem que gostaria um dia receber um telefonema ou e – mail do governo japonês avisando que uma boa quantia estava à minha espera num banco, mas no meu caso, com certeza deverá ser um débito a ser pago de algum Tsukuda caloteiro …

Os meus primos Daniel e Ernesto, filhos e netos de intelectuais, cresceram na biblioteca da casa. Dona Kate, desde cedo, estimulava o gosto dos meninos pela leitura. Eu com dez anos a mais que eles, ficava impressionado com o conhecimento que eles tinham, apesar de novos. Se o tema era astronomia, animais pré-históricos ou aquarismo eu ganhava uma aula grátis deles e notava que era um conhecimento aprofundado dos temas. Não é à toa que o Ernesto hoje é o meu consultor 0800 de edição aqui do blog Aposenteidessavida.com

A joint-venture do tio Pedro intelectual-engenheiro-eletrônico e a tia Sumile pé-no-chão, funcionou tão bem, não somente no casamento, mas também na vida profissional, assim como queijo com goiabada ou feijão com arroz.

Eles, mais um sócio, empreenderam fundando uma empresa de equipamentos de instrumentação eletrônica pioneira no Brasil, pegando um nicho de mercado que estava limitado a equipamentos importados caríssimos na época. Ela ficava à frente da área comercial e administrativa e o meu tio e o sócio deles na parte técnica e inovação.

Eles tiveram muito sucesso e ganharam muito dinheiro. No papel de novos-ricos, a tia Sumile ficou igual a um pinto no lixo.

Até um motorista particular ela tinha para os meninos e passaram a morar numa casa muito confortável que construíram em City Pinheiros, pertinho da praça Pan Americana em São Paulo.

Eu confesso que surfei na onda deles também …

As minhas primas e tias já tinham me dado a dica que para ganhar um bom presente da tia Sumile, a receita era ir com ela no shopping e ficar namorando o produto…

Não deu outra.. Um dia com ela no Shopping Iguatemi, fiquei em frente a uma vitrine de uma loja de artigos esportivos e fiquei olhando apaixonadamente para uma raquete de tênis.

Ela chegou do meu lado e falou assim:

“O que você tá aí parado olhando, Rui Sergio?”

“Tia, tô aqui namorando essa raquete Wilson que o Pete Sampras usa…”

“Entra na loja e compra, Rui Sergio. “

“Obrigado tia… Mas no tênis a gente precisa de duas raquetes iguais, em caso de uma arrebentar a corda durante o jogo…”

“Ué, então é fácil, entra lá e compra duas iguaizinhas! Já passo lá para acertar. “

Bingo!!!, ela havia mordido a isca!

Não era fácil andar com a tia Sumile pelo shopping. Vira e mexe éramos abordados por gerentes de lojas que a seguiam pelos corredores para dizer:

” Dona Sumile, não deixe de passar lá na minha loja e comprar algo, viu ? Estamos com muitas novidades e bons preços, não deixe de prestigiar a gente! ”

Não foram poucos os finais de semana que eu peguei o meu Fiat 147 1050 ano 1980 de cor bege em Alumínio, onde morava no hotel dos engenheiros da CBA e partia em direção a casa da tia em São Paulo. A primeira coisa que eu fazia ao chegar lá era abrir a geladeira exclusivamente de frutas e comer as melhores frutas de São Paulo!

Com ela e o tio Pedro também fui ao restaurante mais chique de São Paulo na época, o Restaurante Mássimo. Lembro que nas mesas ao nosso lado, estavam sentados um dos herdeiros dos Ermírio de Moraes e em outra mesa estavam Paulo Autran e Irene Ravache.

Pela primeira vez eu fui a um ambiente refinado. Como era previsto, passei fome porque o prato era minúsculo, mas delicioso. Foi uma experiência inesquecível, assim como o primeiro soutien do Washington Olivetto.

Mas não eram só flores na vida da tia Sumile executiva. Um dia, ela foi chamada à escola para uma reunião com a professora e a orientadora pedagógica da unidade.

” Dona Sumile, seu filho Daniel nos surpreendeu esta semana com uma atitude muito atípica… A atividade naquela dia, seria para cada aluno elaborar um presente para ser dado às mães em comemoração ao Dia das Mães, que será na semana que vem.”

“Qual não foi a nossa surpresa que Daniel, foi único garoto a ficar parado de braços cruzados na sua carteira . Perguntado o porquê daquela atitude, ele respondeu: “

” Minha mãe não merece nenhum presente… ela nunca para em casa e não me dá atenção. Eu ganho dela muitos presentes, mas eu não ligo para presentes, quero ela para mim!”

Naquele dia, a tia Sumile telefonou para a minha mãe arrasada, tentando entender onde estaria errando… Desse dia em diante, ela fez uma mudança de rota dedicando mais tempo aos filhos. Depois, ela dispensou o motorista dos meninos e ensinou cada um como pegar um busão indo com eles no lotação, um treinamento on the job. Percebeu que estava criando os seus bebês numa redoma de vidro e assim como ela, eles tinham que lutar pela vida e sobreviver.

Teve uma passagem muito engraçada que a tia nos contou quando recebeu uma visita ilustre na sua casa. Como ela estava debutando na sociedade Paulistana, ela queria impressionar muito os visitantes. Para isso, preparou com muito cuidado o que seria servido no café da tarde.

A Acicléia, sua secretária, tentou fazer o seu papel, servindo uniformizada o café nas melhores xícaras e bandejas da casa. Mas entre as xícaras, estava perdido no meio delas, um copinho daqueles de 200 ml de extrato de tomate.

A minha tia encabulada e muito desatenta, caiu na armadilha de perguntar a ela:

“Acicléia, porque no meio das xícaras tem esse copinho de extrato de tomate?”

Acicléia, por sua vez, tranquilamente respondeu:

“Dona Sumile, a senhora se esqueceu que somente lhe sirvo café nesse copo, porque é o seu preferido? “

A minha tia ficou muito sem graça, não sabendo num primeiro momento onde enfiar a cara. Mas como ela era muito esperta e assimilava o golpe muito rápido, até brincou com os convidados da situação inusitada.

É aquele ditado que ouvi muito na minha vida …

” Você saiu da roça, mas a roça não saiu de você”

Com o tempo, a tia Sumile foi percebendo que a vida de novo – rico, apesar de glamourosa, tinha muita falsidade e aos poucos foi voltando a conviver com gente de verdade!

Quando já casado com a Virgínia e os meninos ainda pequenos, ela nos visitava na vila da CBA em Aluminio com certa frequência e nos falava sorrindo.

“Rui Sergio e Virgínia, não façam mais nada agora! Apenas sentem-se aqui e me contem as novidades! Quero saber tudo e em detalhes, sobre o trabalho do Rui na CBA, a vida da Virgínia e dos meninos! “

A tia Sumile era assim, muito intensa em tudo que fazia.

No último telefonema em que nos falamos, para confirmar a nossa presença no casamento do Daniel e Adriana, eu e Virgínia notamos que a sua voz estava fraca e sem vida. Eu achei muito estranho, pois aquela não era a tia Sumile que conhecíamos. Ela falava burocraticamente e sem aquela alegria que sempre contagiava a todos.

Na festa de casamento do filho, confirmamos a sua apatia e tristeza , supus que ela estivesse depressiva. Era engraçado, porque embora fosse ela que estivesse na minha frente, eu tinha a real impressão de ser outra pessoa… foi muito triste essa sensação.

Depois de pouco tempo, ela teve um mal-súbito na madrugada e faleceu ainda no seu leito. Isso foi em 2006, durante a Copa do Mundo da Alemanha. Acredito que a depressão e os maus hábitos como o fumo, tenham contribuído para a sua morte prematura aos 69 anos. O meu consolo foi que ela pouco sofreu…

Sempre que vejo fotos de Henrique e Heitor, filhos do Daniel e Adriana, penso na alegria e o amor que a tia Sumile teria por eles. Com certeza, ela iria mimá-los muito, assim como mimou muito Lucas e Mariana. Mas infelizmente, ela nunca os conheceu…

Obrigado tia Sumile pela oportunidade de tê-la conhecido e convivido com a senhora nesta vida, foi um grande privilégio.

A senhora faz muita falta nas nossas vidas.

Descanse em paz!

Dedico este texto ao meu querido primo Ernestinho, que gentilmente sugeriu este tema.

Rui Sergio Tsukuda – março/21

https://aposenteidessavida.com/

16 comentários em “Tia Sumile

  1. Rui, obrigada por incluir meus pais nas suas lembranças de família! Você com sua curiosidade, inteligência, senso de humor e perspicácia consegue captar e descrever cada personagem de nossas vidas com muita precisão . São histórias incríveis! Sumitian ficaria orgulhosa de você!
    Parabéns Rui, gostei demais!!! Abraços

    Curtido por 1 pessoa

  2. Rui gosto da sua maestria de expor as informações no seu texto, muito clara, divertida, com aprendizado. Não é para todos nao. Eu com certeza não saberia.
    E toda a essas informações só vc e a saudosa Marcia que sabe e sabia.
    Na primeira parte da tia a gente sabia um pouco, a de que sua mãe foi numa escola fora de Londrina, o que aconteceu com minha mãe também, lembro até foto da turma dela. E também de minha mãe querer que as filhas nao ficassem solteironas, e acho que ela foi embora frustrada. Não falava diretamente pra gente, mas a gente sabia.
    Felizes os que conseguiram se casar e bem na família da tia né?
    A parte da Sumille é novidade é foi uma vida intensa.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Misuzu Doroti, muito obrigado . São comentários como esse que me estimula a continuar escrevendo . Te convido a me seguir colocando seu email na página principal , depois do ok irá uma msg do WordPress na sua caixa postal. Aí é só abrir o email e confirmar . Pronto. Assim que eu postar mais textos você recebera imediatamente. Abraço e compartilhe aos seus amigos. Rui

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  3. Oi Rui, ao ler a sua crônica sobre a Sumile, resgatou da minha memória várias recordações dela. A minha saudosa mãe sempre dizia que ela era a sobrinha “cham cham “, acho eu que esse termo se referia a uma pessoa avançada e chique para aquela época, mostrava-se imponente na direção da Rural Willys, indo a todos os cantos, inclusive, recordo que ela sempre vinha com a saudosa tia Mitsuno na Rua Chile, onde morávamos em Londrina. Enfim, na sua crônica consegui identificar várias passagens da querida e saudosa prima, inesquecível foi quando ela reuniu quase todos os primos e familiares na chácara em Juquitiba.
    Um forte abraço e, continue nos brindando com as suas belas crônicas.

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