Divagando um pouco com vocês

Do Léxico.pt, divagar é:
1. Caminhar ou passear sem destino, rumo ou orientação; deambular ou vagar;
2. Desviar-se do tema central; afastar-se do assunto que está a ser discutido ou debatido;
3. Ato de sonhar, idear ou fantasiar.
(Etm. do latim: divagāri)

Aos 12 anos, eu já tinha o hábito de divagar. Eu me lembro de ficar deitado no jardim de casa na rua Pe Germano Mayer 655 em Maringá e ficar por um bom tempo olhando para as nuvens do céu sonhando acordado.

Até que a Dona Mariko gritava lá da cozinha:

– Rui, pega a bicicleta e vai ao açougue comprar um quilo de carne moída de primeira. Peça ao açougueiro para tirar as pelancas e moer na sua frente e por duas vezes!

– Já vou mãe!

O ano era 1976. Eu ficava imaginando como seria o meu futuro.

Se tudo der certo, em 1982 eu já estarei na faculdade, mais cinco ou seis anos, eu já estarei formado ganhando o meu dinheiro e comprarei a minha Caloi 10 Sportíssima laranja, igualzinha a que o Antônio Lombardi ganhou do pai dele.

Pôxa, como ele tem sorte esse meu amigo. Também, o pai dele é fazendeiro e ganha muito dinheiro quando colhe a safra de soja. Já o seu Mário, nem me dá bola mais quando peço a ele a minha Caloi:

– Você é muito pidão, Rui Sergio. Calma, que um dia eu vou comprar uma Caloi 10 pra você.

E assim todo dia quando ele voltava do serviço, eu o cobrava pedindo a minha Caloi e sempre recebia dele a mesma resposta!

Com certeza naquele tempo, eu já era meio obsessivo-compulsivo. Hoje agradeço ao meu pai a paciência que ele teve comigo por ouvir diariamente o meu pedido e nunca se irritar comigo ou me bater por isso.

Apesar de ficar chatedo com a negativa do meu pai, eu tinha a certeza que eu era um menino de sorte por ter nascido num lar classe média. Coitado do Daniel Nascimento, que nem material escolar ele tem direito e o uniforme dele sempre tá amassado ou remendado.

Naquele tempo, estudar numa escola estadual era um privilégio. Foi a minha querida prima Elenice, professora de matemática, que conseguiu uma vaga para mim e para o meu irmão Caio no Instituto de Educação de Maringá . Os bons alunos estudavam nas escolas públicas, já os “demais” estudavam nas escolas particulares.

Hoje sou agradecido a Deus por ter tido a oportunidade de estudar numa escola pública, porque aprendi desde cedo que tem gente muito rica como o Antônio Lombardi, muito pobre como o Daniel Nascimento e os que são nem ricos, nem pobres como eu e o Mauro Silva, meu melhor amigo de infância.

Não só a diversidade social estava presente na nossa classe da 6a série C. Antônio era branco como o Kaká; Daniel era negro como o Vini Jr ; Mauro era moreno como o Richarlisson e eu japonês como o Keisuke Honda.

Hoje a diversidade vai mais além porque tem a de gênero também. Mas naquele tempo, aparentemente, tinha só menino e menina. Os demais 32 gêneros ou mais de hoje, deviam estar bem guardados no armário como sementes em dormência …

Nessa convivência com meus amigos de classe, aprendi naturalmente que em algumas casas sobram dinheiro. Em outras falta até comida. E que, independente da cor da pele ou raça, a gente pode ser amigo e se respeitar.

Quando eu e Virgínia, que também estudou em escola pública, tivemos nossos filhos Lucas e Mariana, nos preocupamos bastante com essa questão ao matriculá-los em escolas particulares.

Mas como dar hoje a eles alguma vantagem competitiva na luta pela vida, estudando na nossa deteriorada escola pública?

Por outro lado, já sabíamos do risco de imersão numa bolha hermética, convivendo só com gente da mesma classe social e uma só cor de pele. Procuramos compensar nas oportunidades que surgiam, explicar a eles que no mundo de verdade, tem gente rica e pobre e que ao contrário do que parece, os negros são maioria, diferente do que eles vêem na escola, no prédio ou condomínio onde moramos e na TV.

Mas como diz o velho ditado que as coisas importantes só se aprendem na prática, o choque de realidade para eles veio bem mais tarde…

Me lembro muito bem no dia em que Lucas, no seu estágio na Cervejaria Waals durante o curso de Engenharia Química da UFMG , comentou comigo:

– Pai, o rapaz que trabalha comigo na Waals ganha um pouco mais que eu e sustenta toda a sua família! Como ele consegue? O dinheiro que ganho no meu estágio é tão pouco e mal dá pra mim…

-Pois é filho, bem vindo ao mundo real !

Ou a caçula, quando saiu de casa pela primeira vez para estudar Medicina na UFOP e foi morar numa república de estudantes, tendo que dividir o mesmo banheiro com uma colega de turma, comentou comigo:

-Pai, a Clarinha me prometeu que no mês que vem, ela vai comprar o papel higiênico Neve que eu pego aqui de casa. Uai , tem tanta diferença assim de preço para um papel mais simples que ela usa?

-É minha filha, essa diferença de preço que pra gente é irrelevante, em outras casas, pode fazer muita falta no final do mês. O papel higiênico Neve de folhas duplas, é um luxo pra muita gente neste país!

O meu velho costume de divagar ficou bem escondido depois que me casei. Eu e Virgínia, com dois filhos pequenos para sustentar e eu, trabalhando como engenheiro na indústria de alumínio e cal, era muita realidade para uma sexta feira de noite e não havia clima para o exercício da divagação.

Como divagar com os expansores da refinaria de alumina entupidos e a fábrica parada por minha culpa?

Como divagar com a Raizen, maior grupo de usinas de açúcar do Brasil, reclamando do teor de CO2 da cal fora da especificação, nos ameaçando em plena safra de cana de cortar o fornecimento de cal e comprar o produto de outro fabricante?

É Rui, o mundo de verdade não tem lugar para caminhar ou passear sem destino, rumo ou orientação; deambular ou vagar; desviar-se do tema central; afastar-se do assunto que está a ser discutido ou debatido ou sonhar, idear ou fantasiar.

Mas graças ao bom Deus, hoje com os filhos criados e independentes financeiramente. E mais importante, afastado do trabalho, onde a pressão por resultados é permanente, posso me dar ao luxo de me deitar no gramado do sítio Duas Alegrias, olhar pro céu e perceber as diferentes formas que o vento faz com as nuvens e poder divagar pensando na vida sem pressa como eu fazia em 1976….

Ops ! Já estava me esquecendo de terminar de contar a vocês:

Depois de tanto insistir com meu pai, finalmente ganhei dele a minha Caloi 10 em 1978. Mas a moda da Caloi 10 já tinha passado e ter uma dessa na garagem já não tinha graça nenhuma.

A nova onda, era ter um ciclomotor Garelli, que o Antônio sortudo, já tinha ganhado do pai dele…


Rui Sergio Tsukuda – junho/23

https://aposenteidessavida.com/

8 comentários em “Divagando um pouco com vocês

  1. É xará, eu também era de divagar na minha infância/adolescência. Sonhava com muitas coisas, algums sabia que não teria,pois minha família era pobre, mas não faltava comida, Graças a Deus, mas brinquedo no Natal e aniversário era só de vez em quando, e muito simples, quando tinha.
    Mas o exercício de divagar era muito bom! Não tínhamos internet, as coisas aconteciam numa velocidade infinitmente mais lenta, o tempo demorava muito a passar. Ainda bem! Esse exercício de divagação me ajudou muito, pois entendi que queira estudar algo relacionado com Química ou Física, por facilidade da logística fui prá Quimica.
    Nossos filhos, não tiveram as mesmas dificuldades que tivemos, e estou vendo meu neto agora com mais facilidades ainda. Acredito que a nossa responsabilidade aumenta, pois temos que mostrar a eles que a vida real é um pouco mais difícil do que eles têm dentro de casa e em uma boa escola particular.
    Um grande abraço meu amigo!!!

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    1. Obrigado pelo comentário Montoro, o seu relato me incentiva a escrever mais textos.
      Fico feliz que você tenha se identificado com o texto.
      A sua fala sobre o seu neto eu achei muito interessante, pena que ainda tô longe de ser vô…
      Se bem que ouvi dizer que o duro de ser vô é dormir com a vó! Hehehe 😂
      Grande abraço

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  2. Oi Rui, gostei demais, que memória incrivel!! Sou muito sonhadora também, faço mil planos, até que o Álvaro me puxa para o mundo real! 😄☺️
    Na minha infância queria ser cabeleireira, aí já fora do BB, fiz um curso no Senac, em Curitiba . Hoje corto cabelos de pessoas que me pedem! Sou feliz assim!! Abraços Rui !!

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    1. Oi Neide, que bom que você gostou do texto, fico muito feliz com isso.
      Continue sonhando acordada, isso alimenta a alma da gente.
      Dia desses fui me candidatar pra um trabalho voluntário num asilo, lá precisam de cabeleireiros e cabeleireiras. Mesmo só sabendo operar a minha máquina de cortar cabelo, me inscrevi.
      Fica a dica.
      Abraço 🤗

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  3. Rui, divagar é muito bom! Tenho aprendido, tenho uma personalidade muito voltado ao concreto e tendo sempre a concretizar as coisas com base em fatos e dados. Mas, tão necessário quanto ater-se aos fatos e dados, é liberar a imaginação para coisas que as vezes só faz sentido para nós mesmos, espécie de refúgio da alma que cada um precisa ter.

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  4. Olá Rui, fico imaginando voce igual meu netinho Bernardo quando quer alguma coisa ,fica no pé até conseguir.
    Ele é ancioso com as coisas.
    Seu Mario,não tive intimidade com ele,mas aparentava de muita paciência mesmo.
    Dona Mariko já era extrovertida , me lembro q ela na igreja q eu frequentava ela foi até o púlpito quando o pastor deu oportunidade.
    Parabéns Rui, você tem uma família linda,com todos os defeitos, nossos pais deram a nós um exemplo espetacular.
    Falando em divagar,tenho muito isso comigo desde muito tempo,alguns pensamentos de muitos anos atrás.
    Abraço Rui.

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    1. Oi Mário, fico feliz de você ter lembrado dos meus pais, que memória!
      Obrigado pelo comentário meu amigo.
      Indo em Sorocaba vou passar na sua casa.
      Abraço

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