Para mim, chegar à maturidade é acordar frequentemente com dores no corpo, levar sempre a tiracolo para onde for uma bolsinha de remédios, olhar para trás e perceber no meio dos 45 minutos do segundo tempo, que algumas boas escolhas foram feitas na vida e outras nem tanto assim e finalmente notar que ainda se tem um bom estoque de lenha para se queimar, embora não se saiba se haverá vida suficiente para tanto combustível assim…

Mas o que tem me incomodado nesta altura do campeonato, é o desaparecimento dos meus amigos. Eles tem me deixado assim do nada, sem um bilhetinho de despedida e para piorar, nenhum deles ainda deixou escrito o seu novo endereço e o celular de contato.
As memórias que tenho de cada um deles ficarão gravados no meu HD até a minha ida ao lado de lá também, além das fotos e vídeos que me ajudam a recordá-los quando a saudade bater mais forte.
Embora eu tenha amigos perenes desde a infância, valorizo muito também os amigos passageiros, que passaram como um cometa na minha vida e depois sumiram. Mas como um bumerangue de aborígene, eles voltam. Basta reencontrá-los, para que o fio da meada, que estava empoeirado seja retomado e a partir daí façamos um novo fim.

Claro que sempre haverá o risco de não nos reconhecermos nesta última versão de cada um de nós. Mas isso faz parte! Com amigos de infância esse risco é aumentado, porque éramos imaturos naquele tempo. Por outro lado, fica a oportunidade, porque não, de conhecer melhor esse velho novo amigo…
Pena que no caso dos amigos que já se foram, nenhuma nova informação é adicionada ao estoque de boas lembranças. Apenas fica aquele gostinho de queria mais…
Ah se o Gustão estivesse aqui, agora.
Com certeza ele diria ao garçom:
– Desce mais uma, com limão! Saudades daquele danado do Agostinho Vallerini.
Esta semana foi a vez do Zé ou Zezé do Neca nos deixar. Assim de repente, sem nenhum aviso prévio, ele sumiu, escafedeu-se como Arlindo Orlando da canção. Ele teve a morte rápida que os árabes nos desejam nas despedidas, além da tradicional vida longa.
Se foi uma morte boa para ele. Para a família e os amigos, foi muito traumatizante perder o Zezé assim desse jeito, do nada…

Sempre vou me lembrar dele, usando o seu bonezinho branco ou vermelho para esconder a calvície. Como mineiro típico da roça, falava pouco, mas sorria bastante, o que fazia dele um tímido simpático.
Desde que comprei o sítio Duas Alegrias da família dele, aprendi a gostar do Zé e respeitar a sua história de pai de família e trabalhador, que tirava dos seus braços o sustento da sua prole. Não sabia de onde e como, ele aprendeu o ofício de erguer uma casa desde a sua fundação até o seu acabamento e nem como transformava um tronco de árvore abandonado no pasto numa mesa e bancos, uma verdadeira obra de arte. Fizemos boas pescarias juntos, além de alguns test-drives de cavalos e éguas.
Infelizmente o Zezé se juntou ao Lalado, Morelli, Gustão, Dona Anita, Dona Maria, Geralda, Seu Zé, Renato, Dona Léo, Mauro, Elias Góes, Poveda e tantos outros amigos que partiram à francesa, sem me dizer até logo.
Mas Deus é sábio. O desaparecimento dos meus amigos é o aprendizado que a contra- gosto preciso ter para o meu próprio desembarque, como um rito de passagem, triste mas necessário.
Até lá, só me resta suspirar de saudade, a falta que eles me fazem.
Descanse em paz Zezé do Neca!

Rui Sergio Tsukuda – junho/24
www.aposenteidessavida.com
Boa Noite!
Que belo texto, quanta inspiração e verdade nas palavras. Feliz por fazer parte deste momento. Obrigado!
Grande abraço!
E a saúde, como está?
Luiz Omar ________________________________
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Obrigado pelo seu gentil comentário meu amigo Luiz Omar. Apesar das dores ao acordar, ainda estou dando conta de jogar tênis. Grande abraço
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Rui, vamos todos partir um dia. Assim de mansinho, como foi seu amigo, parece ser o melhor jeito! E como você escreveu tão bem, fica o sofrimento dos que perdem sua pessoa querida e a lembrança de bons tempos pra nos consolar! Abraços!!
Em sáb, 1 de jun de 2024 10:41, Aposentei Dessa Vida, Agora Dirijo Empresa
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Isso mesmo Neide, obrigado pelo comentário.
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