A paz agora me basta

Engraçado, à medida que envelheço, a minha expectativa em relação à vida e ao mundo que me cerca muda, sem falar da óbvia perda de viço do meu corpo meia vida, que como um carro que já passou dos 150 mil quilômetros rodados, clama por amortecedores novos e uma boa revisão mecânica.

Tenho refletido que o desafio da maturidade seja principalmente admitir, aceitar e gerenciar as perdas. Sejam de cálcio e testosterona, amigos e familiares, como o meu querido amigo Véio, que partiu há duas semanas sem nos deixar o novo email e WhatsApp.

Com o tempo, tudo tende a sumir e cair, com exceção das gengivas que só sobem, me causando dores ao tomar o Magnum Cookie & Cream, meu novo picolé preferido que desbancou recentemente o Cornetto crocante.

Como a maioria das pessoas, busquei a tão sonhada felicidade a maior parte da vida, sem saber exatamente o que ela seria. Mas depois desconfiei que é impossível Júpiter ficar alinhado com Marte o tempo todo…

Então me conformei em buscar apenas drops de felicidade ou momentos felizes, que infelizmente são frágeis como um segundo.

Lamento todos os dias que eles sejam passageiros. Mas por outro lado, festejo que os momentos infelizes também passam. Podem demorar mais ou menos, mas um dia eles se vão, com a graça de Deus!

A percepção do tempo é muito relativa não é mesmo?  Um ou dois minutos pode ser muito ou pouco, dependendo apenas do lado da porta da privada que você esteja…

Tudo passa, como já disse um dia Chico Xavier. O Montoro, meu mestre em Estatística, fala algo parecido:

– Rui, tudo varia, tudo muda. A coisa mais certa da vida é a mudança. Inclusive a morte não deixa de ser uma variação.

Neste ano, tive um estalo numa segunda feira chuvosa e do nada mudei mais uma vez o meu objetivo de vida.

Se já não buscava a felicidade há um bom tempo, deixei a caça dos drops de felicidade pra lá e passei a me contentar apenas em ter PAZ!

À primeira vista pode parecer um prêmio de consolação – igual aos lápis com borracha que eu recebia na minha infância por ter sido um dos últimos colocados nas corridas de 100 m nos domingos de Undokai na Acel de Londrina- , mas ter paz pegou elevador na minha escala de valores.

Com a dermatite crônica ainda sem diagnóstico fechado, apesar das inúmeras biópsias realizadas, que me aflige há seis meses, me dei conta que a vida monótona que eu tinha, onde nada de tão interessante acontecia, era na verdade o meu Shangri-lá que eu não reconheci.

Porque a gente precisa perder para valorizar o que se tinha?

O bordão: Eu era feliz e não sabia, nunca fez tanto sentido para mim.

Entretanto, tenho consciência que uma dermatite, por mais que ela tire a paz de alguém, é café pequeno comparado a algumas mazelas, estas sim problemas de verdade.

Temos mil  problemas, mas só  teremos UM quando ouvirmos do oncologista a notícia de um câncer metastático na cabeça ou na cauda do pâncreas!

Então de fato, não temos nenhum problema e sim apenas pequenos, médios e grandes aborrecimentos, não é mesmo?

Isso tem me ajudado a dar nome e sobrenome a cada um dos meus fantasmas e a não gastar desnecessariamente por aí energia preciosa.

Sim, abaixei o sarrafo. Hoje me contento com menos, muito menos. Raspas e restos me interessam, como cantou Cazuza.

Apesar das perdas inerentes à fase de 60+, estou procurando a ver o lado positivo desta nova fase da minha vida.

A maior resistência à frustração que adquiri com o tempo, que pode soar como conformismo à primeira vista, talvez seja o meu trunfo para continuar caindo e levantando até o fim da caminhada.

A liberdade de estar cagando e andando para as opiniões dos outros, também me dá um empoderamento muito grande.

Agora dizer esta fase da vida é a melhor idade, é  forçar a amizade! Propaganda enganosa de algum escritor de auto-ajuda frustrado, só pode ser!

Envelhecer continua sendo uma bela merda! Pronto, falei!

No entanto, tenho a certeza de ser um sortudo de poder acompanhar a transfiguração do mundo com uma visão de helicóptero com o ócio nem sempre criativo à tiracolo, ainda mais sentado na cadeira do comandante da aeronave.

Diferente de tantas pessoas que ainda precisam pedalar para não cair, eu tenho o luxo de por exemplo poder dedicar algumas horas no horário comercial desta quinta-feira a escrever esta mensagem a vocês.

Como divagar e flanar com um chefe chato ou um cliente pelinho de ovo no cangote?

Missão quase impossível, concordam comigo?

Esta crônica dedico ao meu amigo Isael,  que como eu era apaixonado pelos carros antigos, cavalos e a vida no campo, que partiu sem nos dar um até logo. O meu consolo é que ele teve uma morte rápida, vítima de um infarto fulminante jogando futebol, o esporte que mais amava.

Descanse em paz meu amigo, até logo!

Rui Sergio Tsukuda – agosto/26

http://www.aposenteidessavida.com

4 comentários em “A paz agora me basta

  1. Oi Rui, que bom que voltou!

    Mas sinto muito pelo seu amigo que partiu na véspera de completar 72 anos! Foi embora antes do combinado, como dizia Rolando Boldrin!

    Acrescento as suas crônicas às minhas reflexões sobre a nossa vida aqui na terra, gratidão!!

    Abraços Rui, pra todos!!!

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