Amizade de infância

Esta semana li uma crônica da escritora gaúcha Josaine Airoldi, que me tocou para a questão de amigos de infância que se reencontram na vida adulta.

Amigos de infância por um tempo inseparáveis, muitas vezes se perdem um do outro ao longo da vida por mudança de endereço, interesses, afinidades, ou ainda se dispersam na multidão, sem motivo algum. Mesmo os amigos que permanecem na mesma cidade ou bairro, que teriam mais chances de se cruzarem numa esquina, podem se distanciar. É aquele tão perto, mas tão longe!

O fato é que somos metamorfoses ambulantes como bem definiu Raul em uma de suas canções. Seres em constante mutação, ainda mais no período da infância e adolescência, quando as mudanças são muito significativas.

Já tive a sensação de topar com um amigo de infância depois de 30 ou 40 anos sem nenhum contato prévio, desde então. Garanto, é muito estranho. Você reconhece que a pessoa que está à sua frente é aquele velho amigo de outrora, porque algo nele ainda lhe é familiar e o nome dele foi duas vezes checado. Mas ainda assim fica um fio de dúvida. Não seria ele porque a voz e o corte de cabelo não são os mesmos, isso se os fios de cabelo ainda estiverem por lá emoldurando o rosto.

Mas o interlocutor à minha frente também fica desorientado. ” Será que é o Rui mesmo? Japonês é tudo igual! Credo, como ele engordou! Bem … ele já era bem gordinho naquele tempo, mas deve ser ele mesmo.”

Comparo esse estranhamento à sensação que tive ao visitar recentemente a casa em que moramos em Maringá nos anos 70 e percorrer de carro o mesmo caminho que fazia com a minha bicicleta Caloi azul de uma só marcha, até a casa do meu querido tio avô Otoiti.

A casa alugada na rua Pe Germano Mayer 655 estava ainda lá, mas havia sido repaginada e estava irreconhecível. O pequeno jardim com trevos que se fechavam durante à noite, fora substituído por um piso frio externo PEI 5, aquele que aguenta tranquilo o pisoteio dos pacientes da clínica instalada agora no lugar.

Somente as sibipirunas, agora enormes, ainda estavam lá em frente da casa resistindo firmes às intempéries mas com algum sinal de cansaço. Pena que neste dia, não estava chovendo. Sem água sobre suas folhas, galhos e troncos, a sibipiruna não exalava o seu perfume único e inconfundível, que para mim ao fechar os olhos me levam no mesmo instante para a minha infância.

Embora o trajeto até a casa do tio Otoiti fosse o mesmo, pouco ou quase nada era ainda caseiro. As casas simples do caminho, deram lugar a casas modernas de dois pavimentos na sua maioria e os terrenos baldios em que haviam muita mamona e capim colonião, foram devidamente ocupados. Só a loja maçônica Justiça no meio do caminho, estava lá com a mesma feição. Mesmo com a pintura renovada, de imediato eu a reconheci. O Bosque II à sua frente continuava intocado, apenas o seu entorno fora revitalizado, agora com uma pista de caminhada.

Ao chegar na casa que um dia foi do meu tio Otoiti, tive outra decepção. A casa térrea construída num terreno de esquina, que acompanhamos ansiosamente a construção desde o projeto elaborado pelo Hélio Tadaiti, meu primo, havia sido transformada numa suntuosa casa de dois andares.

Apenas a sala da frente era ainda a mesma e fixando o olhar nela por alguns segundos, fui transportado para festa inauguração da casa com os amigos e parentes dos Ogasawara entrando e saindo da nova moradia, como um flashback do filme Em algum lugar do passado.

Mauro da Silva, foi o meu melhor amigo de infância. Moreninho franzino e cabelos pretos encaracolados, ele era um dos filhos de coração da Dona Eurídia e do Seu Heitor Malvezzi, generoso casal que tiveram quatro filhos e além de Mauro adotaram também o Ditão, que já era um adulto na época.

Mauro era o meu vizinho, a três casas da minha e estudávamos juntos na 6 a série C no Instituto de Educação de Maringá. Porque nos tornamos amigos inseparáveis, não saberia dizer ou explicar, mas deve ter algo de mágico ou divino.

Aos 12 anos, para nós não havia nenhuma preocupação ou expectativa quanto ao futuro, ainda mais porque o meu amigo era um sobrevivente de uma leucemia grave. Me contava orgulhoso que já estava condenado pelos médicos, quando pelas orações da dona Eurídia, houve uma intervenção divina que o livrou da morte. Então para ele, o que viesse dali pra frente era ganho.

Depois de três anos, a minha família mudou – se de Maringá para Curitiba. Lembro que anos depois, já adultos, nas poucas vezes que nos reencontramos, passada a estranheza inicial de alguns minutos, a reconexão entre mim e o Mauro acontecia naturalmente e éramos por pouco tempo novamente os dois velhos amigos de infância e relembrávamos sorrindo as nossas aventuras e causos.

Quando me aposentei e fiquei sem a pressão para resultados no trabalho e ter que matar um leão por dia, revisitei o meu passado e passei a recolher os amigos que deixei abandonados pelo caminho. Passei com cuidado a reconhecê-los um a um e quem sabe tentar um match tardio para um eventual recomeço e fazer um novo fim. ( infelizmente com alguns não houve reconexão com a versão atual de nós mesmos, mas com outros estamos nos redescobrindo aos poucos. )

O Mauro foi o primeiro dessa lista.

Como havia perdido o contato com os Malvezzi, fiz uma busca no Facebook e encontrei por lá a Rose, a irmã mais velha do Mauro. Ao perguntar por ele, recebi a triste notícia que Mauro tinha falecido de um câncer de próstata havia seis meses.

Poucas vezes na minha vida experimentei esse tipo de dor que desorienta o corpo e a alma e sufoca o peito mesmo com ar abundante. O fato de ter perdido o meu amigo para sempre e não ter mais a possibilidade de reencontra-lo nesta vida me desesperou. Doeu ainda mais o arrependimento de ter deixado essa amizade para depois, como se para sempre houvesse o amanhã.

Lembrei imediatamente de John Lenon:

Life is what happens when you’re busy making other plans.”

Rui Sergio Tsukuda – janeiro/22

https://aposenteidessavida.com/

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Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Blog Lembrar para não esquecer…

https://wordpress.com/read/feeds/102966797/posts/3758940658

9 comentários em “Amizade de infância

  1. Rui, suas crônicas continuam muito agradáveis de se ler. Não sei se a foto da avenida com as árvores é exatamente a mesma que você cita. Nela tem Flamboyants no canterio central e Sibipirunas no lado direito, com uma torre de igreja ao fundo. O Flamboyant é uma das minhas árvores preferidas, sua florada é algo indescritível de tanta beleza. Eu conheço Flamboyant das cores vermelha, amarela e também o laranja. Essa é uma árvore que sempre sonhei (acordado mesmo) de plantar na minha chácara (o terreno já tenho (1500m2) na beira do Tietê onde a água é limpa), e construir um balanço, pois seus galhos são muito fortes. O balanço seria para meus netos se divertirem, mas ainda não os tenho, dependo da vontade de meus filhos. Um grande abraço e um 2022 com muita saúde prá você e prá família.

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    1. Oi Montoro, obrigado pelo comentário. A foto é na zona 2 em Maringá ao lado da catedral onde eu morava, mas não na nossa rua . Puxa , eu também gosto do Flamboyant , a copa é bem aberta e dá uma sombra muito boa e as flores são lindas, mas só conheço as vermelhas. Planta logo esse pé na sua chácara ! Eu plantei há 10 anos pau ferro e guapuruvu no sítio e daqui a pouco já vai dar pra colocar um balanço. Feliz 2022 pra você e toda sua família! abraço

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      1. O guapuruvu eu tambéms gosto, fica uma árvore enorme, e quando florida, fica amarelo só no topo da copa. Quando criança eu brincava de helicóptero com a semente do guapuruvu. Descobri há algum temppo que eu conheço muitas árvores, não tinha me atentado para isso. Só como curiosidade, a ciência que estuda as árvores e sua identificaçãose chama Dendrologia. Grande abraço.

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  2. Rui, que bela crônica! Daquela que nos faz enxergar o cenário narrado.. e pude sentir o seu amor pelo seu amigo, esse sentimento tão nobre.
    Para mim, a grande beleza da amizade é o fato de ela ser gratuita e desinteressada. Duas pessoas são amigas porque se gostam, querem estar juntas e pronto, né? Sendo assim, quaisquer momentos que temos com amigos são gigantes, e os que não tivemos ou deixamos de ter, são nada perto da amizade vivida.
    Parabéns e grande abraço!

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