Ontem na volta da roça, tomei uma decisão importante na minha vida.

Decidi não mais ultrapassar pela direita.
Sei que vou morrer de raiva dos véios – antes arrojados, agora inseguros – e das mocinhas novas de carta, que insistem em andar a 80 km/h pelo lado esquerdo da pista.
Vou preferir educadamente dar a seta e em último caso, luz alta, pedindo passagem. E prometo não buzinar ao conseguir finalmente ultrapassar o retardatário, para não correr o risco de acordar um serial killer em estado de latência.
Prometo também ultrapassar um veículo por vez nas pistas simples, sempre com muita segurança e atenção.
Vou respeitar a velocidade máxima da via, não importando se é uma reta sem fim da Castelo Branco ou Anhanguera, sem atender aos apelos do meu carro implorando para eu passar dos 120 km/h.
Ou seja, vou seguir ipsis litteris o que ouvi no curso de reciclagem do Detran, que fiz anos atrás para motoristas infratores com mais de 21 pontos na carteira.
É, dirigir vai perder um pouco a graça, vou sentir a falta da emoção. Pelo menos, dou um descanso ao meu anjo da guarda, não vou precisar mais agradecer ao Senhor cada vez por ter me salvado de um quase acidente na estrada e nem vou precisar prometer inutilmente para mim mesmo que aquela teria sido a última vez … Eu juro!
E por último, prometo não ultrapassar em pontes, mesmo que faixa dupla amarela pintada na pista esteja quase apagada. Acho que esta foi a primeira lição da autoescola do seu Mário, meu pai.
-Rui, na ponte não tem pra onde escapar…
Num vídeo educativo de trânsito, que assisti dias atrás, me convenci que são poucos os minutos ganhos com direção arrojada e velocidade excessiva, que não vale o risco.
E pior, no meu caso, esse tempinho extra tem sido mal gasto assistindo aos vídeos de mukbang do Mino ou aos episódios do Mayday Desastres Aéreos.

Tenho percebido que fiquei dócil com o passar do tempo e que a minha aceitação à frustração tem aumentado, o que é uma pena! Mas talvez, quem sabe por isso, eu tenha chegado até aqui…
Não que infringir as leis de trânsito seja um sinal de rebeldia louvável. Mas para alguém que foi induzido a ser 100% certinho na vida, já era um bom avanço.
Cadê o Rui, que em 1985 à bordo do Fiat 147 1050 cc subia a Serra do Mar entre Jaraguá do Sul e Curitiba, ultrapassando dezenas de caminhões na BR 101 , ainda em pista simples, gritando:
– Aqui é o homem que desafia a morte!

Naquele tempo, acho que os caminhoneiros eram mais batutas ou tomavam menos rebite. Deixavam de boa eu colocar meu possante de 60 CV entre eles. Um esconde-esconde com bala de verdade.
Hoje tô mais para o Rex, o cavalo do seu Adão, que na juventude foi cavalo de rodeio e de tão destemido que era, roia as cordas que o prendiam sendo preciso trocá-las por correntes.
Mas depois de 10 anos, já tinha aceitado o seu destino, se transformando num gatinho roliço e bonachão. Até eu menino, andava em pelo no lombo dele pelas palhadas de milho no sítio de Lorena em Londrina.
Portanto, hoje, não contem comigo para sair às ruas de Teerã ou Caracas nos protestos contra o governo.

Vou preferir ficar no sofá em casa assistindo à série Homeland no Disney +, impressionado com a quase imortalidade da Carrie Mathison.

Se bem que nos meus melhores tempos, eu era no máximo um figurante nos protestos da UNE nas greves na UFPR.
Eu gritava as palavras de ordem “Arroz, feijão saúde e educação” e “Abaixo a ditadura”, sem nenhuma convicção e embalava baixinho a canção hit dos movimentos sociais: Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré

Embora eu tentasse me infiltrar entre meus amigos camaradas comunistas moradores da CEU (Casa do Estudante Universitário), logo eu era lembrado por um deles que na verdade, eu era um burguês pelego, filho de empresário da CIC (Cidade Industrial de Curitiba).
Ainda assim, eu continuava com o sonho de mudar o mundo. Do meu jeito é verdade, com muita conversa, discussões acaloradas e nenhuma ação concreta.
Naquele tempo eu era chamado de melancia às avessas…. E curiosamente, hoje, sou tachado de melancia!

Não é irônico?
Parecida à minha condição étnica: No Brasil me chamam de japonês; no Japão sou apenas mais um estrangeiro….
Talvez eu seja mesmo um Nem, Nem desajustado.
Mas vou morrer inconformado com o fato de pouquíssimos terem tanto e a grande maioria terem tão pouco ou quase nada no nosso país.
Embora eu tenha ficado um gatinho com o passar do tempo, continuo fiel à minha essência. Eu não me traí! Isso me dá um alívio muito grande.

Troquei o blá-blá-blá das discussões nos fóruns de internet, por ações concretas no meu entorno com gente de verdade e exponho aos meus leitores os valores nos que eu acredito através deste blog, sempre com o objetivo de tornar o mundo menos injusto e desumano.
Se não posso mudar o mundo, tento melhorá-lo no meu quadrado, num trabalho silencioso e quase invisível.

É muito pouco, meio parecido com aquele sujeito que joga ao mar uma ou outra estrela- do-mar que topa pela praia salvando-a da morte, dentre as milhares que de certo irão morrer na areia.
Mas fico em paz comigo mesmo por estar fazendo a minha parte.
Nada mais, nada menos que isso!
Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/26