A Felicidade

Quero crer que não há quem não busque a felicidade nesta aventura chamada de vida. Este fato quem sabe, seja uma fuga para uma questão essencial que mesmo sem perceber nos aflige:

Qual a finalidade da existência humana?

Como não encontramos uma resposta universal para essa questão tão fundamental e isso nos traz uma enorme frustração, compensamos na busca da felicidade para que a nossa vida faça algum sentido.

Nesta ânsia de sermos felizes, somos presa fácil da industria cultural definida por Adorno nos anos 40, que preconiza que tudo é produto e mercadoria, inclusive nós. E isso foi perversamente muito bem utilizado pelo sistema capitalista para gerar lucro.

A publicidade é a grande protagonista que move essa bem bolada engrenagem. Na propaganda da margarina Doriana de 1989, aparecia uma família de classe média alta numa cozinha de uma casa muito confortável, um casal e dois filhos super felizes tomando o seu café da manhã, passando Doriana em tudo que é lugar. Também tinha o vô e vó também muito felizes e bem sucedidos, que vem logo cedinho se juntar a eles para o banquete do desjejum.

Ao assistir o reclame, um telespectador típico pensaria:

“Bem, ganhando um a dois salários mínimos por mês, eu nunca poderei ter uma casa como essa e tampouco uma mesa com tanta fartura no café da manhã. Para piorar, tô tão fodido, minha mulher foi embora e levou com ela os meus dois filhos, portanto nem família eu tenho mais. “

Mas …. a Doriana, sim ela mesmo, a margarina, eu posso comprar e ser feliz!

Parece coisa de idiota essa analogia, mas a neurociência já confirmou que de tanto batida a propaganda na cabeça da gente, ao deparar-nos com o pote da Doriana na prateleira do supermercado, preferimos “intuitivamente” esse produto porque algo nos diz que ela nos fará felizes. Estratégias iguais ou parecidas da indústria da publicidade se repetem para a promoção da venda de bens de consumo e serviços como carros, sapatos, pacotes de viagens, aluguel de carros, bebidas etc… e como sempre caímos na mesma arapuca.

Para piorar, agora com a big data e a inteligência artificial, o nosso comportamento de consumo é monitorado pelo marketing digital e os nossos rastros de navegação ou cookies deixados pelo caminho são utilizados à nossa revelia. Ao fazer uma busca no Mercado Livre por uma raquete de tênis um dia desses, qual não foi a minha surpresa que no mesmo dia, apareceram ofertas desse mesmo produto nas minhas redes sociais. Que “coincidência” interessante, não?

Nada contra as bilhões de pessoas, que como eu foram aliciadas pela indústria cultural e tornaram-se reféns do sistema. Mas é preciso ser crítico para pelo menos reconhecer que o consumismo não é um projeto ambiental sustentável e que estamos consistentemente dia após dia acabando com esse planeta.

Eu como um quase ex-engenheiro químico, sou cético e não acredito que haja como mitigar o impacto ambiental no planeta que não seja pela redução do consumo de bens e serviços em escala global. Mesmo se houvesse o boom de desenvolvimento tecnológico que houve em TI nos últimos 20 anos, na produção processo e tratamento de resíduos, não haveria como satisfazer a demanda existente e a latente, ainda por vir, dos países pobres e em desenvolvimento.

Isso quer dizer que a prosperidade não é um direito de todos? Infelizmente, não! Seriam necessárias 4,5 Terras para satisfazer a demanda de bens de consumo caso os 6,7 bilhões de habitantes da Terra decidissem adotar a demanda per capta do americano.

O caso da lama vermelha, que é um rejeito da indústria do alumínio é bom exemplo. Cada tonelada de alumínio produzido, gera em torno de 4 toneladas de rejeito. Por 30 anos acompanhei o desenvolvimento de tecnologias para reaproveitamento da lama vermelha , seja na construção civil, industria cimenteira ou cerâmica, sem contudo haver sucesso em larga escala. Existem milhões de toneladas desse passivo ambiental no Brasil e Austrália principalmente, depositados a espera de uma reciclagem efetiva e sustentável. Sabiam que nessa lama tem ouro, prata,cobre e até gálio e lítio que são caríssimos?

A única saída ambientalmente sustentável que vejo, para frear a geração desse resíduo, é reduzir a produção de alumínio primário e otimizar a reciclagem do alumínio já produzido. Esse metal tem uma vantagem adicional de ser infinitamente reciclável. Mas como reduzir uma indústria cuja demanda global está em ascensão?

Quem de nós, os ratos, colocará o sino no pescoço do gato?, é a pergunta que não quer calar…

Vamos pegar outro exemplo, a da picanha bovina. Imaginem se os chineses que somam 1,4 bilhões de habitantes se apaixonassem pela picanha, como eu sou por ela? Não haveria água, nem pasto e nem ração suficiente para alimentar todas essas cabeças. Sem contar na emissão extra de CO2 que viria dos puns e arrotos dos ruminantes, contribuindo para o aumento do efeito estufa.

Meu telhado nesse caso é de um vidro muito frágil, porque sou casado com uma fazendeira de Goiás que arrenda as terras para a criação, recria e engorda de gado. Então eu tenho um íntimo conflito de interesse com relação a picanha, inclusive eu me pego às vezes torcendo calado para que os chineses esqueçam um pouco o porco, os jegues e os pés de frango e passem a gostar mais da nossa picanha.

Quando eu viajava de avião em direção a Ilhéus para ser feliz por uma semana nas deliciosas praias de Arraial D’Ajuda, fiquei horrorizado ao ler na revista de bordo que o consumo de combustível da aeronave, um A320, num trecho de 1000 km como aquele, era de 3000 litros de querosene e gerava 6,8 ton de CO2 (depois percebi não ser muito diferente da geração de CO2 por passageiro, caso o mesmo trajeto fosse feito de carro com 4 pessoas a bordo).

Então, eu constatei uma verdade: Como eu adoro carro movido a combustível fóssil (antigos principalmente), pretendo ainda voar muito de avião depois da pandemia e adoro pegar as providenciais sacolinhas nos caixas dos supermercados, não posso e nem tenho o direito de reclamar do clima cada vez mais doido aqui nas Minas Gerais, como também me indignar pela morte dos recifes de corais pela acidificação da água dos oceanos, do desaparecimento gradual dos ursos polares pelo aquecimento global ou mesmo lamentar a morte das tartarugas marinhas pela ingestão de plásticos, porque eu sou co-responsável por tudo isso e infelizmente faço parte do problema e me envergonho por isso!

Não dá para se comportar como muitos ambientalistas de ONGs , que condenam com eloquência na TV e na internet os maus tratos aos animais e a emissão de CO2, mas não deixam de comer diariamente o seu bifinho, frango ou ovo e vir ao trabalho com o seu carro de banco de couro e com o ar condicionado ligado. É preciso ter coerência!

Supondo que as questões incômodas colocadas acima já estão identificadas e quem sabe bem encaminhadas na cabeça do leitor(a), podemos continuar então a nossa viagem na maionese:

Qual seria então o conceito de felicidade?

Felizmente ou infelizmente o termo felicidade, assim como o sentido da vida, não tem uma definição universal. É como aquele trem…ou opinião, cada um tem o seu ou a sua.

Há quem seja da tribo dos que acreditam que é preciso ser muito individualista para acreditar na possibilidade da felicidade nesta passagem com tanta injustiça, fome e desgraça à nossa volta. Eu como nos últimos tempos tenho assumido ser tanta coisa…, assumo também ser um egoísta e entendo ser no mínimo um grande desperdício não tentar ser feliz nesta encarnação.

O meu conterrâneo, o prof. Mario Sergio Cortella, filósofo, que como eu é um pé vermelho de Londrina, define que a felicidade é uma vibração de vida momentânea muito intensa, mas que passa e pode voltar um dia, chegando ao ponto de que se a morte viesse naquele instante, o sujeito estaria pronto para partir de tão extasiado e feliz que estaria.

Para exemplificar essa felicidade, nos contou que estava na casa da filha em Florianópolis colhendo amoras com a neta de 4 anos debaixo de uma amoreira. Como ela não alcançava as frutas, ele a suspendeu para colhê-las. Ela passou então a cuidadosamente pegar as amoras uma a uma e alternadamente colocava uma fruta na boca dela e outra na do vovô. Para ele, aquele momento foi mágico de genuína felicidade!

Apesar de criticada pelos filósofos atuais, acredito que a felicidade que sentimos ao satisfazer um desejo de consumo é válida. Não sem um quê de culpa por ser uma felicidade menos nobre, egoísta até. Com o agravante de que muitas vezes, o objeto desejado é para impressionar o outro como um troféu ou um símbolo conquistado e não uma satisfação pessoal autêntica.

Eu sempre quis ter uma Mercedes Benz coupé. Quando finalmente eu consegui realizar esse meu sonho anos atrás, eu fiquei muito feliz e confesso que desci na garagem não só uma ou duas vezes, só para vê-la e apreciá-la demoradamente. Mas passadas duas ou três semanas, eu percebi que o meu sonhado carro era apenas um carro e nada mais que isso. Como na fábula, o meu príncipe virou uma abóbora.

Onde a Mercedes me levava, o meu Honda ia também com conforto parecido, com a vantagem de um custo de manutenção e seguro muito mais em conta. Para piorar, a expectativa por uma gorjeta maior dos flanelinhas e frentistas aumentaram ao me ver a bordo de uma reluzente Mercedes.

O prof. Luis Felipe Pondé, outro filósofo pop do momento que gosto muito, junto com os mestres Cortella , Karnal, Clóvis de Barros e a Tiburi, explica que esse tipo de felicidade que está muito em voga hoje, que ele chama de felicidade pela satisfação do desejo, faz com que quanto mais se deseje algo, mais infelicidade seja recebida em troca.

Uma vez satisfeito o desejo, este logo acaba, aparecendo outro no seu lugar, e outro… numa busca infinita e inglória pelo prazer que nunca fornece uma satisfação plena. Ironicamente, é a busca da felicidade que traz infelicidade, portanto é clara a correlação desse mundo obcecado pela busca da felicidade como o nosso e a epidemia de depressão e insatisfação, que nivela os habitantes das cidades grandes e uma corrutela como Pereirinhas aqui perto da roça.

Comparando a felicidade sentida pelo prof. Cortella com a sua neta ao pé de amora e a minha com a Mercedes, eu diria que a dele foi instantânea, rica, intensa e mais importante: Memorável.

Já a minha satisfação, embora tenha me dado uma grande alegria no momento, não me deixou nenhuma saudade… Meses depois, ainda com a Mercedes anunciada no Webmotors, eu já havia colocado uma Harley Davidson Fat Boy no meu radar de desejo.

É, a fila anda!

A enfermeira australiana Bronnie Ware, especializada em cuidados de pacientes terminais, revelou no seu livro: Os cinco principais arrependimentos de pacientes terminais, que os pacientes que ela acompanhou ao longo de sua carreira, ao se depararem com a proximidade da morte, não se lamentavam de ter deixado de adquirir uma casa, carro, lancha, jóia ou de ter perdido dinheiro num negócio ou aplicação financeira mal sucedida, mas SIM:

1. Eu gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim
2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto
3. Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos
4. Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos
5. Eu gostaria de ter me deixado ser mais feliz

Se pensarmos que só temos o presente e logo ele vira passado, é razoável supor que só teríamos a felicidade instantânea aquela do pé de amora ou da Mercedes. Mas como felizmente temos um Hard Disc ou SSD na cabeça, podemos flertar com outro tipo de felicidade, aquela que quando a pessoa olha para trás e analisa o conjunto da sua obra, percebe que a sua existência não foi fútil, inútil e pequena, como sempre nos lembra o prof. Cortella e essa apuração pode nos encher de felicidade. Embora no decorrer deste caminho tortuoso houveram certamente momentos infelizes, decepcionantes e desafiadores, mas que com coragem eles foram superados ou assimilados, ficou no frigir dos ovos o sentimento de que valeu a pena viver.

Para terminar, eu gostaria de dizer que eu me sinto um verdadeiro privilegiado em poder ter tempo para o ócio de Platão, para escrever e dividir com vocês esse texto. Anos atrás com 75 emails diários para responder, dois ou três chefes no meu pé 12 horas por dia e clientes insatisfeitos doidos querendo me pegar de qualquer maneira, eu não tinha tempo, saco, paz ou inspiração para escrever flanando ao vento descompromissadamente.

Eu tenho a convicção que esta crônica não lhe trará nenhuma resposta aos seus questionamentos existenciais mais íntimos.

Mas, tenho a ingênua pretensão de provocar em você meu leitor(a) uma reflexão sincera e honesta sobre a sua felicidade.

Se isso acontecer, será a minha vez de ter o meu momento de felicidade, igual ao do prof. Cortella com a neta ao pé de amora!

Obrigado.

Rui Sergio Tsukuda – fevereiro/22

https://aposenteidessavida.com/

11 comentários em “A Felicidade

  1. Ótimo texto, Rui! Um dos melhores!
    Reflexões sobre a felicidade não são nada fáceis e você dissertou com toda profundidade que o tema merece! Pode ter certeza que a escrita lhe proporcionará uma felicidade genuína, pois esta é compartilhada…

    Só um adendo: o psicólogo evolucionista e professor de Harvard, Steven Pinker, mostra em seus estudos que a felicidade, no geral, aumentou nas sociedades com o desenvolvimento tecnológico e que a (falsa) sensação da maior incidência de depressão se deve ao fato de que, contudo, esse crescimento não foi proporcional. Em outras palavras, à medida que nos desenvolvemos como povo, deixamos de ser meros hedonistas e nos preocupamos em ser úteis e responsáveis. Nas palavras de Kant : ” o processo do iluminismo é a saída do homem da própria menoridade, da qual ele mesmo é responsável.” Interessante, não?

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  2. Oi Felipe, muito interessante a sua colocação. Obrigado pelo comentário 😃. Fico feliz em breve tê – lo na nossa família. Como já lhe disse pessoalmente admiro os seus valores , caráter, o seu cuidado com os seus pacientes tratando-os com humanidade e a sua coerência nesse mundo tão desigual e injusto. Grande abraço

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  3. Que beleza de crônica, Rui. Parabéns!
    Penso muito sobre esses arrependimentos dos pacientes terminais que você citou, e vira e mexe me dou uma vigiada se estou vivendo com verdade.. acho que é a coisa mais importante.
    Acredito que esse autoconhecimento e a vivência do presente, podendo fazer boas viagens ao passado ou futuro quando queremos, possibilita-nos momentos felizes.
    Ah, e seu objetivo com o texto foi cumprido, pode ficar feliz! hehehe
    Abração!!

    Curtido por 1 pessoa

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