Qual a sua narrativa, o seu propósito?

No livro: Os melhores últimos dias da minha vida, do qual fiz menção na minha mensagem de final deste ano, o jornalista Gilberto Dimenstein, escreveu:

” A coisa mais importante para um ser humano é a sua narrativa, o seu propósito. Sem narrativa, somos como um ator no palco sem saber o roteiro. Se perdemos a narrativa, perdemos a vida, e o que sempre me agarrou à vida foi a minha ligação com as causas sociais.”

Confesso a vocês que me incomodou muito ler esse parágrafo do livro. Durante toda a leitura da obra, essa questão ia e vinha como uma bigorna insuportável sendo batida na minha cabeça:

” Qual seria o meu propósito nesta vida, serei eu mais um ator no palco sem saber o roteiro?

Será que somente uma vida dedicada às causas sociais, como a de Gilberto Dimenstein, é uma existência plena com propósito e narrativa?

Seria o meu propósito apenas produzir cal, carbonatos e alumina (que depois é transformada em alumínio) e agora escrever crônicas neste blog? Já que as minhas incursões na área social se resumiram a ser voluntário do CVV por pouco tempo e a dedicar um ou outro sábado a pintar paredes das escolas na periferia de São Luís – MA, nas ações comunitárias da Alumar- Alcoa, cuja participação mesquinhamente tinham impacto no meu bônus anual…

Bom, pelo menos o alumínio que ajudei a fabricar está nos aviões comerciais, trens, ônibus e automóveis que todos os dias transportam muita gente, com a vantagem dele ser infinitamente reciclável. Sem contar as panelas de alumínio, nas quais são feitas refeições diariamente para milhares de pessoas, até que comprovem que esse metal contribui de fato para o desenvolvimento do Alzheimer, o nosso conhecido Alemão.

Mas se pensar bem, o alumínio é também utilizado nos aviões caça e nos mísseis, que são feitos tão e somente para matar gente. Eu deveria me sentir culpado por isso?

Ouvi dizer que Einstein se arrependeu de ter descoberto a teoria da relatividade ao saber da explosão da bomba atômica Little Boy sobre Hiroxima em agosto de 1945, pois o seu conhecimento fora essencial na fabricação desse artefato nuclear.

Mas se Einstein soubesse hoje, que sem a sua descoberta, bilhões de pessoas neste planeta não se beneficiariam diariamente do GPS e Waze e que boa parte da energia gerada no mundo vem das centrais nucleares de energia, talvez o grande gênio do século XX dormisse tranquilo e sentisse menos culpado.

E a cal e carbonatos então? São inúmeros os processos químicos em que eles participam, cujos produtos a humanidade utiliza e consome, como o açúcar, aço, alumina, vidro, leite em pó, fibra de vidro, adesivos, tintas, plástico, entre outros…

Pena que o plástico, demora 200 a 600 anos para se degradar ou mineralizar, poluindo enquanto isso solos e mares, destruindo os corais cheios de vida e matando as inocentes tartarugas marinhas.

Uma vez incinerado, pior ainda, pois são emitidas dioxinas e furanos para a atmosfera, compostos altamente nocivos à vida. Reciclá-lo é um caminho, apesar de que nem todo plástico é reciclável. E os que são, tem número de reciclagens limitada pela qualidade e aparência inferior do produto final.

Se bem que uma sacolinha plástica na saída do caixa do supermercado vem a calhar, não é mesmo?

Lembro que quando pequeno, acompanhava meus pais nas compras do mês no supermercado Cruzeiro Forte em Londrina- PR e saíamos abraçados àqueles sacos enormes de papel Kraft pardos, que eram literalmente malas sem alça e rasgavam ou entornavam com facilidade até chegar em casa.

Já com relação ao açúcar, o meu sentimento é contraditório. Embora a cal seja um dos poucos produtos inócuos utilizados na sua fabricação e refino, diferente das dezenas de compostos químicos utilizados nesse processo, é o pior alimento que existe do ponto de vista nutricional por ter calorias vazias, com pouquíssimos nutrientes além da sacarose.

Mas um café recém coado, bem docinho adoçado com açúcar em uma boa e velha xícara esmaltada, daquelas coloridas que queimam os lábios, é bom demais não é? Ainda mais com bolinhos de chuva moreninhos e crocantes polvilhados com açúcar refinado ou de confeiteiro, servidos seja em dia de chuva ou mesmo de sol é uma delícia!

E os lixeiros, mais os catadores de papel e latinhas de alumínio, não teriam um propósito muito nobre na sua existência? É a categoria de trabalhadores que eu mais respeito, junto com professores e médicos.

Imaginem passar o dia todo descendo e subindo de um caminhão em movimento, recolhendo os sacos de lixo mal-cheirosos devido aos resíduos orgânicos em decomposição, com risco de contaminação e de acidentes, seja por queda ou corte nas mãos, por cacos de vidro e agulhas mal acondicionadas nos sacos de lixo.

Outros que não tem a vida fácil, são os catadores de papel e latinhas recicláveis, que puxam heroicamente os seus carrinhos abarrotados de resíduos indesejáveis pelas ruas das grandes cidades deste país em pleno século XXI, fazendo a vez de cavalos, burros e mulas.

Apesar de ter visto aqui em BH, campanhas de ONGs condenando veementemente o uso de muares e equinos na tração animal, nunca vi uma delas fazer menção à eliminação da tração humana nos carrinhos de papel para reciclagem ou sequer indignadas com isso.

Não é uma contradição?

Tenho um amigo de infância, o João Pinto de Farias, mais conhecido como Tão, que é agricultor desde pequeno e mora na zona rural de Londrina-PR, na localidade Caramuru, que repete para mim o mesmo mote toda vez que eu o encontro:

“Rui, se nós aqui do sítio pararmos de produzir os alimentos que vocês comem, vocês da cidade, logo morreriam de fome. Sem a gente, vocês não são nada!”

Chego a conclusão que as atividades humanas, independente se por interesses nobres ou escusos, estão tão inter-conectadas, entrelaçadas com funções complementares e abrangentes, numa grande teia global, que precisamos muito um do outro para viver. Muitos são inconscientes desse fato, mesmo assim são parte dessa cadeia, quer queiram ou não.

Mas será que apenas desempenhar essas profissões ou atividades, já não é suficiente e necessário para justificar um propósito ou narrativa de uma vida?

Rui Sergio Tsukuda – dezembro/22

https://aposenteidessavida.com/

4 comentários em “Qual a sua narrativa, o seu propósito?

  1. Oi Rui, pra sua pergunta final, acho que sim!
    Veja só, li seu texto de manhã, me fez refletir o resto do dia. Me deparei, desde cedo,com tantas pessoas, todas tão gentis e necessárias em nossa vida. Todas com um propósito, de fazer bem feito cada uma de suas funções.
    Espero que eu também esteja cumprindo minha missão nesta vida! Um dos seus propósitos é escrever suas crônicas, talvez você nem perceba, fazem um bem danado pra quem as lê !! Meu pai adorava ouvir você contar histórias, lembra? Queria que ainda estivesse aqui entre nós pra saber de seus textos!!
    Abraços, Rui!!

    Curtido por 1 pessoa

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